As voltas que a vida dá (ou o retorno da monstra)

“Os monstros são nossos filhos. Eles podem ser expulsos para as mais distantes margens da geografia e do discurso, escondidos nas margens do mundo e dos proibidos recantos de nossa mente, mas eles sempre retornam. E quando eles regressam, eles trazem não apenas um conhecimento mais pleno de nosso lugar na história e na história do conhecimento de nosso lugar, mas eles carregam um autoconhecimento, um conhecimento humano – e um discurso ainda mais sagrado na medida em que ele surge de Fora.”
Jeffrey Jerome Cohen

 

A vida é muito louca e eu sou mais louca que a vida. Tenho dito isso algumas vezes esse ano. Ano difícil. Para mim e para maioria das pessoas que conheço, exceto para aquelas que estão anestesiadas, alienadas e protegidas demais em suas bolhas de privilégios.

Pouco antes do ano acabar chega uma novidade. Calma! Não engravidei (ainda). É certo que o meu útero poderia estar sendo fabricado por cientistas que usam nanotecnologia, hackeamento genético e inteligência artificial, mas… Algo deu errado em nossa história e evolução e no momento estamos gastando tempo e energia para defender que a Terra não é plana, que o aquecimento global vai nos aniquilar e que precisamos de uma separação entre o Estado e a igreja. É…

Nas vésperas do ano que está a acabar, surgiu a proposta para que eu integrasse a coordenação pedagógica da unidade escolar em que trabalho no ano de 2020. E embora eu escreva isso com naturalidade, de forma objetiva e direta essa frase ainda me faz tremer e tem muitas e tantas camadas. Não é algo que eu simplesmente pense a respeito e falo “ok, então tá…” e sigo assistindo o próximo episódio da minha série favorita. Para quem conhece um pouco da minha história de vida e de mim, sabe que as coisas não funcionam assim pra mim (e nem poderiam).

Desde que comecei a trabalhar na educação, a coordenação pedagógica nunca foi uma área do meu interesse. Por vários motivos. Um dos mais relevantes é que estou muito confortável e realizade enquanto professora e, realmente, tenho uma paixão pelo meu trabalho e pelas relações que se desenvolvem por meio dele (eu tenho muito amor pelas minhas alunas, alunes e alunos). Apesar de todo sucateamento, desvalorização e violência com a qual as professoras são tratadas, estar ocupando essa posição é – para mim – ocupar o front de uma batalha que não começou agora. A coordenação pedagógica me parecia uma área distante, igualmente vulnerável e que não era pra mim. Mas a vida dá voltas e muda a cada segundo um pouco mais. E nessas voltas, ela te pega de surpresa muitas vezes e te revira… A zona de conforto é alterada. Inexiste. Os desafios se transformam. E eu me pego no meio disso tudo.

Em tempos de recrudescimento, obscurantismo e tantos retrocessos o que significa um corpo dissidente ocupar postos que até pouco tempo atrás (e ainda hoje) eram impensáveis, inviáveis e improváveis? Qual o valor simbólico disso tudo? Qual efeito prático disso em uma unidade escolar e, para além dela, em uma sociedade que funciona dentro de uma lógica da normatividade compulsória e excludente? São perguntas que me tomam com muita força nesse momento. Não me paralisam, me colocam em movimento.

Outra pergunta que precisei fazer para mim mesma é: eu posso contribuir significativamente ocupando esse lugar? E a resposta que cheguei foi que sim, eu posso. Eu acredito que posso. Ou no mínimo eu me esforçarei incansavelmente para tentar chegar perto disso. Sabendo de todas as dificuldades da realidade para além do texto bonito e florido que consigo escrever quando quero.

Para além do desafio que será estar na coordenação pedagógica – que agora me atrai muito mais do que repele – vejo na oportunidade uma chance de conhecer ainda mais a dinâmica de uma escola pública e com isso fortalecer ainda mais o meu trabalho enquanto profissional da educação. Ainda que eu esteja temporariamente fora da sala de aula. É uma oportunidade ainda maior de ampliar a minha discussão e fundamentação da pedagogia do esquisito.

As perguntas que me tomam, me fazem também caminhar. Se eu defendo uma escola pública de qualidade que seja inclusiva, democrática, laica e plural levar o meu trabalho para esse lugar – que até há pouco eu acreditava não ser para mim, porque me fizeram crer que eu não merecia e que eu não poderia jamais ter algum tipo de sucesso profissional – é fazer com que o meu discurso esteja alinhado com a minha prática profissional e de vida (porque elas não se dissociam). É mostrar que a emergência de novos contextos é possível.

O desafio é grande e a responsabilidade será ainda maior, mas tenho uma crença que podemos fazer um trabalho coletivo e super esquisito, que crie impactos positivos e radicalmente transformadores na história da E. E. Dr. Américo Marco Antonio e também na comunidade. É algo que não acontece de um dia para o outro, mas que se constrói.

De novo, parece que escrever sobre tudo isso é super natural pra mim, céus, eu estou aqui com os olhos marejados, pensando na quantidade de vezes que eu pensei em desistir de tudo porque me fizeram crer que não havia espaço pra mim nesse mundo. Sabe o que isso significa? Vida!

Eu vou por mim.
Eu vou pelas minhas alunas, alunes e alunos.
Eu vou pelas minhas parceiras de classe trabalhadora.
Eu vou pelas que morreram antes de mim para que eu pudesse estar hoje onde estou.
Eu vou pelas que virão depois de mim e que precisam saber que o possível existe para pessoas como nós.
Eu vou.
Eu estarei.
Eu ocuparei.

Meu enorme, profundo e sincero agradecimento para toda gente que acredita no meu trabalho e que consegue enxergar além do que se vê da minha capa. Que venha 2020!

T. Angel
27 de Dezembro de 2019

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