Trinta e oito

Osasco, 15 de Janeiro de 2020.

Tudo está diferente. Nos últimos anos o meu ritual era escrever minhas palavras enquanto queimavam as horas até chegar o meu aniversário. Sempre antes. Tudo está diferente. Agora é depois.

Escrevo essas palavras no meu primeiro dia de novo ciclo de trinta e oito anos de vida. Cheguei mais longe do que achei que chegaria. Muito mais longe.

Dessa vez eu não iria escrever e, estava disposta a romper com o meu ritual de celebração da minha vida. Pensei bem. Eu penso com carinho. Conclui que seria injusto. Explico.

Nos outros anos eu sempre tinha muitas questões para resolver, não estava bem, tinha muitas feridas abertas. Tanto que sempre escrevia sobre ter entrado mais em mim, sobre solidão. Tudo está diferente. Estou vivendo cada vez mais para fora. Fora de mim. Fora do meu casulo. Para o mundo. Para o universo. Para o que está além daquilo que eu posso compreender agora. Seria injusto não registrar esse momento.

Sigo cuidando e protegendo a minha solidão porque ela é muito importante pra mim, mas tenho aprendido a viver novamente com muitas pessoas, mais frequentemente. Sem sofrer em demasia com isso.

Chego nos trinta e oito me sentindo bem. Tanto que não se mede. Muito melhor do que eu poderia imaginar anos atrás. Fizeram-me acreditar – de verdade – que não seria possível eu me sentir bem e, tão pouco, poder exercitar a minha dignidade da forma mais plena e ampla que eu consigo. Eu tenho conseguido provar – existindo – que é  possível e que essas pessoas erraram em tentar me encaixotar (aprisionar/castrar/limitar) em seus padrões de normatividade e expectativas que nunca fariam sentido pra mim.

Eu nunca quis tanto viver como agora. Tem sido lindo descobrir que eu também tenho o direito de explorar a dignidade humana, que eu tenho valor e que eu posso até me sentir bem em existir aqui nesse plano. Tem sido lindo realizar sonhos. Tirar ideias do papel e transformar em ação. Tem sido lindo e intenso. Jamais conseguiria fingir que não estou emocionada, surpresa e impactada com tudo que venho vivendo, principalmente desde 2017, porque de fato eu acreditava que nem aqui mais eu estaria nessa altura do campeonato.

Escolhi celebrar o meu dia de forma diferente. Tudo está diferente. Passei o meu aniversário com uma pessoa que eu amo muito e que é muito importante pra mim. Falamos da vida, sobre envelhecer, sobre amores, prazeres, sobre os que já se foram (e ainda estão aqui dentro de nós), rimos, rimos e rimos muito… Comi comidas veganas deliciosas. Depois houve tempo ainda para entrar na agulha. Finalmente, aos trinta e oito, realizo o sonho de tatuar o meu pescoço. Um grande passo para mim dentro da minha jornada particular de construção de identidade freak. Eu esperei por esse momento por mais de 20 anos.

Finalmente eu cheguei na fase que continuar com vida faz sentido. Estar com vida, que é muito mais do que respirar, comer e cagar mecanicamente. É existir. Aos trinta e oito eu sinto a minha existência pulsando intensamente. Que grande surpresa tudo isso.

Eu espero que vocês se sintam fortes assim também. Eu agradeço por todo amor, suporte e carinho que tenho recebido de vocês virtual ou fisicamente. Sem dúvida alguma tudo isso me fortalece de uma maneira bem especial.

Todo amor que houver para além dessa vida para mim, para vocês e para nós todes,

T.

 

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