Entrevista sobre modificação corporal

Curso: Jornalismo | Universidade: PUC-SP

  1. Por que você decidiu fazer modificações corporais?
    A decisão partiu de um desejo de compor a minha identidade e de atender a minha subjetividade. Mas eu não posso descartar que acredito que todo corpo humano vivo passe por processos de modificação do corpo, algumas delas podemos escolher e outras não. Em síntese, todo corpo é modificado.

 

  1. Você acha que ha preconceito por parte das pessoas que não conhecem essa arte? Se sim, como você lida com isso no dia a dia?

Não entendo a modificação corporal – então somente – como arte. Suas motivações e raízes são demasiadamente variadas para limitá-la somente ao campo artístico. Modificar o corpo pode ser (e tem sido) em alguns momentos uma manifestação artística, mas nem sempre o é. Mas sim, existe preconceito (e não é pouco) com qualquer corpo que ultrapasse o limite daquilo que foi colocado como padrão normativo dentro da nossa sociedade. É como se esses corpos anormais (em contraposição com aquilo que essa mesma sociedade convencionou como normal) fossem inumanos e como tal, passível de controle e extermínio. Sinto que existe uma dificuldade gigante em perceberem que as nossas práticas de modificação do corpo são patrimônios históricos da humanidade. Eu lido com o preconceito através do enfrentamento constante.

  1. Como fica a questão do emprego? Você acha que cada dia mais as empresas aceitam tatuagens e piercings ou isso ainda é um empecilho?

Eu tenho um histórico de não conseguir me colocar no mercado durante um momento da minha vida por conta do corpo que tenho e que sou. Acho que ainda hoje essas políticas de empresas mais conservadoras ainda existam, grosso modo elas são reflexo da sociedade em que vivemos. Acho penoso saber que em pleno século XXI a aparência de alguém seja determinante para seu julgamento intelectual, moral ou coisa que o valha. Veja bem, as modificações corporais não falam sobre o caráter de uma determinada pessoa. Esse tipo de julgamento me faz pensar muito sobre a frenologia enquanto base para justificar práticas racistas ou a eugenia, por exemplo. É um equívoco descabido.
Penso que quando uma empresa se recusa a contratar uma pessoa por conta do seu corpo (daquilo que ele tem ou não tem), na verdade ela está trabalhando diretamente para a exclusão social e legitimando o preconceito. Não podemos mais dizer que apenas estamos cumprindo ordens quando se trata de agredir o outro. Acho no mínimo violento e anacrônico.

 

  1. Como sua família e amigos lidam com suas modificações corporais?

Percebo que em alguns tantos momentos o meu corpo é um problema para essas pessoas. Sinto uma violência sutil (algumas vezes mais ásperas) por parte desses grupos, o que é uma contradição. Todavia, fui responsável em construir a minha família (também não sanguínea) e as minhas amizades e definitivamente não quero (e não preciso) estar cercado de gente que me oprime e me violenta simbolicamente. Na realidade a questão não está centrada apenas em mim, mas sim nesses grupos sociais. A maior parte das pessoas que são rudes e faltam com respeito com o que eu sou, fazem o mesmo com todo o resto. Em outras palavras, reproduzem as mais variadas formas de violência, por exemplo, o racismo, a misoginia, o machismo, a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, a meritocracia, a gordofobia, etc. Existe um abismo enorme que separa a liberdade de expressão da opressão e isso precisa ser compreendido.
De tudo, o mais importante é saber como eu lido com as minhas modificações corporais. Sou eu que estou com elas 24 horas por dia. Afirmo tranquilamente que lido muito bem com todas elas. Tenho muita segurança com o que fiz e estou muito bem comigo mesmo. Espero que meus amigos, amigas e familiares sintam o mesmo prazer com seus corpos.

 

  1. O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre esse assunto?

Eu gostaria que as pessoas soubessem que a modificação corporal é um legado cultural da humanidade. Que todos os corpos passam por processos de modificação. Que a modificação do corpo – dentro do nosso recorte – pode melhorar a vida de muita gente. Que as pessoas precisam ter autonomia sobre seus corpos e o direito de decidir sobre eles. Que podemos ir além de tudo aquilo que disseram que não poderíamos fazer.

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