A suspensão corporal na arte contemporânea | Joinville

Vou compartilhar aqui o texto que escrevi e me serviu de guia para a conversa sobre suspensão corporal que aconteceu na 1º Convenção de tatuagem de Joinville.
Foi uma experiência muito interessante e vou continuar na luta para que espaços de reflexão, diálogos e debates sejam mais frequentes.

___________________________________

Joinville, 09 de Novembro de 2013.

A suspensão corporal na arte contemporânea
Por T. Angel

Gostaria de iniciar essa conversa dizendo que defendo a ideia de que  a suspensão corporal não seja, então somente, arte. Estar dentro do campo da arte é uma das possibilidades, mas não é regra geral. Dizer que nem toda suspensão corporal pode ser considerada arte não é o mesmo que desqualificar ou retirar a validade da prática como fenômeno social e cultural. É no mínimo expandir o olhar que colocamos para essas ações.

Pode parecer meio precipitado ou até mesmo um pouco sem sentido agora, mas acredito que no decorrer da conversa o meu ponto de vista ficará mais claro para vocês. Inclusive o motivo que me leva começar essa conversa dessa forma. Sei que muitas pessoas (pesquisadores, entusiastas, profissionais e estudiosos) podem não concordar com a minha posição e, tão logo, defenderem a ideia de que a suspensão seja sim, então somente, arte. Mas, de acordo com as minhas experiências práticas com a suspensão que estão acontecendo desde 2005 e, indissociavelmente delas, as leituras que tenho feito sobre o tema nas duas últimas décadas, é a de que não.  Todavia, se faz importante deixar bastante claro que a minha posição não é uma única verdade. É apenas o resultado da leitura – teórica e prática – que tenho feito.

A suspensão corporal, prática em que o corpo humano é suspenso através de ganchos transpassados em diferentes pontos do corpo, tem sua origem nos povos primitivos, dentro de um contexto ritualístico e sagrado. Na contemporaneidade a suspensão corporal deixou de ter uma discussão apenas do sagrado e alcançou outros campos, tais quais o artístico – que é o que vamos tratar – e recentemente chegando próximo de uma modalidade de esportes extremos[1].

Quero dizer então que existe uma série de motivações que faz com que uma pessoa passe por uma suspensão. Ritual de passagem, autoconhecimento psicofísico, lazer, entretenimento, esporte radical e motivações artísticas seriam algumas delas. São motivações que apareceram mais em conversas com praticantes e profissionais durante as minhas jornadas em experiências em campo.

Apesar de na contemporaneidade a prática estar bastante associada aos grupos de pessoas ligadas com a modificação corporal, essa particularidade também não deve ser considerada regra geral. Existem pessoas que não fazem parte da comunidade body mods e que utilizam também a suspensão.

Os primeiros registros históricos da suspensão corporal apontam o surgimento da prática em tribos norte-americanas e também na população hindu. Em ambos os casos, ou seja, nos dois diferentes povos de distintas regiões geográficas, questões de cunho transcendental, espiritual, ritualística estão postas. Aqui já teríamos uma primeira justificativa do porque a suspensão corporal não deve ser lida apenas como arte.

No ocidente a prática da suspensão corporal aparece na década de 70 do século passado, através dos experimentos de Fakir Musafar (1930) e Jim Ward (1941) nos Estados Unidos da América e de Stelarc (1946) na Austrália.

Fakir e Jim se apropriam de parte das práticas da Sundance (norte americanos) e do O-kee-pa (da tribo Mandan). Um registro dessa experiência pode ser visto no documentário Dances Sacred and Profane (1985).

A professora Beatriz Ferreira Pires apresenta no livro O corpo como suporte da arte (2005) os sete jogos com o corpo (Vale; Juno, 1994:14), com fins de modificar ou trabalha-lo, proposto por Fakir Musafar. O sétimo e último é chamado de jogos de suspensão: pendurar. A publicação de Pires se faz importante, por ser o primeiro livro que fala tanto da modificação corporal como da suspensão, todavia, a autora foca a discussão em Fakir Musafar, Sundance, Freak Show. Quero dizer com isso, que não há um aprofundamento em sua publicação, em igual medida, sobre Stelarc ou mesmo sobre os Hindus. O que nos mostra a complexidade do tema, a carência de pesquisa e as lacunas que vão surgindo conforme essa história começa a ser escrita.

Um adendo importante, temos que estar atentos com a falta de reflexão crítica acerca da suspensão e sua inserção temporal, espacial, social e cultural. Essa falta de análise crítica pode acarretar problemas. A apropriação cultural indevida seria uma delas, por exemplo, Fakir Musafar melindrou os índios Mandan ao usar o nome O-Kee-Pa para falar uma suspensão vertical pelo peito.

“A two point vertical chest suspension is no more an “O kee pa” than drinking a glass of wine is take communion.” – BMEzine Encyclopedia

Reconhecemos que a suspensão corporal foi incorporada na arte, principalmente através dos inúmeros trabalhos de performance art do australiano Stelarc. Ao todo foram 25 diferentes suspensões, que aconteceram entre 1978 e 1988, nas mais variadas regiões: Japão, Estados Unidos, Austrália, etc. O seu trabalho está bastante relacionado em discutir os limites e a obsolescência do corpo, mesclando elementos biológicos e mecânicos como extensões artificiais deste. Ir além daquilo que é “natural” do corpo humano. Ainda, é inegável dentro do trabalho de Stelarc a presença de reflexões acerca dos estados físicos e metafísicos através do ato de se suspender. Que como ele próprio diz, são experimentos de sensações e não de significados ou explicações.

O tempo passou e 24 anos depois de sua primeira suspensão, Stelarc novamente entrou em ação em Março do ano passado na Scott Livesey Galleries. Sua vigésima sexta suspensão.
Ao todo foram 16 shark hooks (ganchos para pesca de tubarão) espalhados pelo corpo do artista. O homem, que na ocasião estava com os seus 66 anos, era suspenso de uma gigante escultura branca de seu próprio braço. Um pequeno grupo de quarenta pessoas pode ver a ação como testemunhas. Sem dúvida um momento único e precioso da história da arte.

Trabalhar com a suspensão corporal dentro da performance art é nunca  saber exatamente o que vai acontecer. Espera-se que o artista fique de fato suspenso, caso seja sua intenção, mas nem isso é garantido. A gente vê nisso uma beleza em potencial. “Não existe ensaio para algo assim” disse o artista durante os dias em que preparava o espaço. De fato não há.

“Honestamente eu não posso garantir se posso conseguir fazer isso. Em uma das minhas suspensões passadas, eu desmaiei depois de apenas 60 segundos. A maioria teve uma média de 20 minutos. A suspensão é estruturada, mas não escrita.”
Stelarc
para o The Age

Atualmente inúmeros artistas de várias partes do globo utilizam a suspensão corporal como parte de suas obras. Seja como forma de quebrar fronteiras ou como para construir novas discussões acerca do corpo, sociedade, política e cultura. Entrar em contato com essas obras é adentrar em mundos de novas e interessantes possibilidades. Alguns nomes que se fazem importante mencionar: Ego Kornus – Instituut Bizar (Holanda-Argentina), Lukas Zpira (França), La Negra (Argentina), Priscila Davanzo (Brasil), Filipe Espindola (Brasil), Sara Panamby (Brasil), Roberta Lima (Brasil-Áustria), San Mascarenhas (Brasil), dentre outros, inclusive a pessoa que voz fala, eu, T. Angel.

Saindo um pouco do campo da performance art, que como podemos perceber é a linguagem que abraçou bem a suspensão, não podemos deixar de citar o trabalho da artista plástica Letícia Rita. Para quem andou pelos metrôs de São Paulo, pode conferir do dia 10/06 ao 31/08/2012 a instalação site specific Subordinado (2012) de Letícia. A obra que ocupou a Estação Trianon-MASP (Linha 2 Verde do Metrô) fez parte do Projeto Vitrinas.

Um vaso de cerâmica suspenso por ganchos e ao fundo uma imagem de um corpo humano suspenso, este  era o cenário composto pela instalação. Subordinado é um trabalho que versa com a suspensão corporal, trazendo esta para o olhar de todos. Para os que vão olhar com desprezo, aflição, nojo e para aqueles que irão admirar ou simplesmente refletir sobre essa possibilidade. Na tentativa de não chocar tanto, o sangue é ocultado. A sociedade contemporânea nesse sentido é a mais contraditória, altamente destruidora e violenta, mas sensível aos fluídos corporais. Essa também é uma discussão importante, mas que não cabe aqui no momento.

Segundo a Leticia Rita esta é uma obra que discute como as pessoas lidam com as suas liberdades e principalmente como as pessoas que praticam a suspensão exercem a sensação do estar livre, ainda que o corpo esteja aprisionado por ganchos.

Esse não é o primeiro trabalho em que a suspensão se faz presente no trabalho de Letícia, anteriormente a artista simulou suspensões no trabalho Subordinados ou Sob ordenados na Galeria Smith. Apenas como mais um adendo, o trabalho de Letícia nos fez lembrar da obra da artista plástica Priscilla Davanzo, especificamente o trabalho Objetos animados e inanimados (2002) realizado na Unesp.

Discussões sobre a suspensão corporal através do cinema
O cinema – como mais uma linguagem das artes – também tem falado da suspensão corporal e não é de hoje. No entanto, nesse campo a discussão se mostra quase sempre de modo incipiente e pejorativa. Quase sempre ligada ao atavismo, psicopatia, patologias, torturas e afins. Nesse sentido, reforçam o discurso do senso comum e estigmatizador, se tornando um desserviço para essa população que trabalha bastante sério para aprimorar cada vez mais o seu trabalho teórico, técnico e prático.

Um homem chamado cavalo (1970)
Mórbido Silêncio (1998)
A Cela (2000)
The Horsemen (2009)
O último rei da Escócia (2006)
Ichi, the killer (2001)


[1] Com base no trabalho dos russos do The SINNER team. Disponível em: http://frrrkguys.com.br/direto-da-russia-suspensao-em-queda-livre/. Acesso em: 02 Setembro de 2011.

_______________________

Anúncios
Comments
3 Responses to “A suspensão corporal na arte contemporânea | Joinville”
Trackbacks
Check out what others are saying...
  1. […] o texto que escrevi no ano passado, na ocasião da conversa que aconteceu em Joinville.Você pode CLICAR AQUI para […]

  2. […] para Joinville, cidade linda! Participo da 2ª Convenção de Tatuagem de Joinville. Como publiquei AQUI, no ano passado estive na primeira edição para palestrar e dessa vez volto com outras tantas […]



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: