A experiência da privação da fala

Quando olhei no relógio, vi que faltavam poucos minutos para às 20 horas daquele sábado. Assisti a cada segundo morrer no passar das 19:59 para 20:00. Quando bateu a hora exata, eu parei de falar. Eu não me comunicaria mais através da fala até às 20:00 do domingo, momento marcado, para que eu terminasse a performance Me See You na Hurt Fest II.
Retrocedendo temporalmente, eu previamente explicava para as pessoas próximas que eu começaria a performance 24 horas antes do que estava previsto para aparecer no evento. Era uma parte bastante importante em que eu me privaria da fala, algo como um longo 1 minuto de silêncio. A verdade é que eu precisava me privar ao máximo de qualquer tipo de comunicação, o que era impossível visto o cenário todo. Eu estava em outro Estado, com pessoas amadas e que eu não encontro sempre e precisando resolver questões técnicas e práticas da ação Me See You durante a Hurt. Fui firme no propósito.

Eu estava jantando em um desses restaurantes caros, em um Shopping burguês que não me recordo qual em Belo Horizonte, acompanhado de Chibbi e o meu marido Dark. Tinha acabado de encontrar com eles e a gente tentava colocar o assunto em ordem. Eles estavam comigo quando os ponteiros chegaram no 8 e eu me calei. Passei a respondê-los apenas com sinais, ora gesticulando com as mãos e outrora caretas ou um simples balançar de cabeça.
Com o fim do jantar, voltamos para o trabalho do Cabelo. Todos conversavam e eu me adaptando com aquela situação auto-imposta como parte da ação.
Fiquei com receio que as pessoas que eu tinha acabado de conhecer achassem que eu estava sendo rude ou antipático. Espero que não.
Retornamos para a casa do Cabelo durante a noite. Lá havia chegado o Lee. Seguia a situação.
Já era madrugada, Chibbi já tinha dormido. Eu e os meninos estavámos acordados “falando” sobre assuntos diversos. A mente foi ficando cansada, o sono se instalando e com isso acabei verbalizando duas palavras. Na hora percebi e tampei a boca como demonstração de desapontamento.Todos olharam assustados e eu retornei ao silêncio. Eles diziam “nossa, você já aguentou tanto” … A mente havia se cansado, eu tinha perdido o controle sobre mim.
Continuei mais um tempo com eles, depois acabei indo dormir também… Ledo engano meu…
Fui tomado por uma sensação de vigiar e punir, para não falar mais. Não pude dormir. Era como se o cérebro não desligasse, era o tempo inteiro pensando: eu não posso falar!
Essa parte foi meio assustadora e cansativa. Não imaginava que ela fosse existir.

Passando a noite e essas horas todas em que eu não dialogava mais, comecei a pensar em como era complexo estar em silêncio próximo de pessoas. Como a ausência da fala me gerava uma sensação de exclusão em tantos momentos.
Veja bem, eu havia viajado de Osasco até Belo Horizonte e ficado quase 10 horas em completo silêncio, sozinho e tinha sido tranquilo. A primeira hora em silêncio, porém rodeado de gente, tinha sido uma batalha sangrenta. Tinha momentos doloridos, psicologicamente falando.

Estava certo que a dificuldade maior seria quando eu estivesse no evento em si. Sem dúvida alguma foi mesmo.
A sensação de que me achassem rude esteve comigo o tempo todo. Aos poucos percebi que circulava o assunto de que eu estava sem falar por 24 horas e que eu só voltaria durante a minha apresentação ali. Isso me causou um ligeiro conforto.
Sempre que eu encontrava uma pessoa conhecida, pedia logo para que alguém que soubesse o que estava acontecendo explicasse. Acho a antipatia uma coisa muito desnecessária, por isso a preocupação. Então eu ficava aflito para explicarem o quanto antes. Não queria aborrecer ninguém.
Apesar da dificuldade grande, encontrei com muita gente que eu queria rasgar verbos no bom sentido, foi durante o evento que eu pude me isolar mais. As pessoas se divertiam com as atrações, suspensões animadas, shows e etc… Eu pude ter longos intervalos sozinhos no camarim improvisado.
As horas foram passando e se aproximava o momento em que eu iria voltar a falar. O evento teve um ligeiro atraso, com isso só retornei ao palco depois das 21 horas.
O drama maior foi durante esse processo de preparação final. Haviam vários detalhes, eu escrevia e mostrava para as pessoas pedindo ajuda. A Chibbi tomou a frente e pediu silêncio, mais de uma vez. O Lee me ajudou muito revisando tudo o o que eu havia escrito.
Ana, Ale, Renata ajudando em todo o  resto. Marido, Du e Julio cuidando da parte da suspensão.
Naquele momento, a minha comunicação gestual e o entendimento das pessoas próximas já tinham alcançado um grau interessante.

Comecei a ação que estava programada… Voltei a falar utilizando Calmaria de Maria Bethania. A sensação era estranha, nada fácil. Na terceira frase que eu derrubava dos meus lábios eu quis chorar. Outros diversos momentos o choro ficou travado nos dentes.
Eu tinha a impressão que a minha fala estava distorcida e enrolada. Meus ouvidos estranhavam aquela voz que ficou presa nas paredes da minha cabeça nas últimas horas.
Segui falando, mas com o cuidado de quem pisa em casca de gelo fino.
Consegui concluir a ação inteira. Sai do palco muito emocionado.

No final de tudo, de volta ao camarim, a minha cabeça queria falar feito metralhadora. Estou certo que tudo deve ter ficado embaraçado por algum tempo, eloquente e bagunçado.
A minha colega pesquisadora comentou que tinha me achado solitário. Expliquei pra ela que precisei ficar sozinho. Na verdade precisaria até mais.

Eu me sentia aliviado em poder falar sem me controlar e ao mesmo tempo encantado em ter estado mudo.
A vida voltava ao normal…
Falar com as línguas entre os dentes e salivas…

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Fotos e vídeos da performance CLIQUE AQUI.

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