Entrevista sobre modificação corporal e Frrrkcon

Curso: Programa de Doutorado em Artes e Design  | Universidade: PUC-Rio

___________________________
*Entrevista feita por Skype e posteriormente “diagramada”
bm – body modification

– Como você vê a bm, no Brasil? Pode-se dizer que se trata de um movimento soial, uma movimentação espontânea, fale um pouco sobre seu ponto de vista, por favor.
Thiago  Soares: Quando vc fala BM qual o recorte que vc faz?

– As bm consideradas radicais, como eye ball, tatuagens em região tabu, escarificações, brandings, implantes…
Thiago  Soares: Certo. Bom, pensando esse recorte das BM no Brasil… Creio que esse grupo de pessoas e profissionais são a margem da margem. Sâo técnicas “novas”, que algumas pessoas fazem sem qualificação para tal. Mas é um grupo forte e que tem se espalhado e sido assimilado pela cultura de massa.
Movimento social, não sei. Penso mais como um fenômeno cultural.
– Certo, poderia ser assocaido com style tribe?
– A sua incorporacao pela cultura de massa o dilui? Como você vê isso?
Thiago  Soares: Penso em dois lados. Vejo que existe uma perda, que sim, poderia ser uma diluição. Mas por outro lado percebo que essa abertura também rompe com estigmas pesados sobre essas práticas. Por exemplo a tatuagem e o piercing que foram assimilados e grosso modo quebraram paradigmas sobre os usos do corpo.

– Entendo perfeitamente. Nesse sentido poderia numa sub moda, numa moda marginal?
Thiago  Soares: Não gosto do termo moda. Até escrevi sobre isso essa semana criticando um jornalista da Folha que abordou de forma bem indelicada as BM. Trocaria para uma sub cultura, numa cultura marginal ou contra cultura.
Não acho que a tatuagem e o piercing (básicos) se enquadrem como contra cultura. Penso mais nas BM radicais ou extremas. Que são as que você mencionou ser o seu recorte. Até por isso te perguntei. rs

– T., mas os chifres usados pela cantora Lady Gaga, no vídeo clipe Born This Way e o Zombie Boy em desfiles internacionais, vídeo clipes, e editoriais e no comercial viral da base Derma Blend nao levam a uma possivel associação?
Thiago  Soares: Obviamente. A cultura pop, a música e a moda são fortes estímulos. Mas perceba que nesse campo as BM – que a priori tem um berço na contra cultura – são apropriadas e em alguns casos desapropriadas por essas linaguagens. Acho que o movimento Punk é um exemplo bom para se pensar essa questão

– Certo. Dentro dessa percepção, você poderia dizer que a bm se configura como body art?
Thiago  Soares: Não. A bm não é arte. Ela pode ser utilizada para, mas a priori não. Acho BEM importante separar uma coisa da outra.  rs
– Falando nisso fale um pouco sobre o Frrrkcon.
Thiago  Soares: A Frrrkcon surgiu do meu encontro com o Lu (Iritsu) e da nossa vontade de trabalhar em prol da visibilidade, formação e discussão sobre a BM e aqui também entrou a body art. Eu estava mais ligado com a arte e o Lu mais com a BM, mas ao mesmo tempo, os dois passeavam por esses campos. Cada um tinha sua estrada, seus eventos, seus públicos. A gente tentou juntar isso.
O primeiro foi traumático pra mim. rs
Fiquei doente e tudo mais. Mas agora que o tempo passou eu vejo que foi importante.
Fiz a segunda edição com o Lu, e depois pedi para sair. Ele leva sozinho desde então. Eu ajudo por trás  e basta. rs

– Seria indelicado da minha parte perguntar sobre  por quê foi traumático? Se você não quiser falar sobre isso peço desculpas e sinta-se a vontade para nao me responder.
Thiago  Soares: Não, não… Então, na verdade a gente fez esse evento pensando justamente na comunidade BM.
A carência de tudo que esse grupo (me incluo tá rs) tem. Sem grana e sem patrocinadores fomos correndo.
Conseguimos uma programação pesada, nomes importantes do Brasil no que concerne as BM estavam lá. Desde pesquisadores até profissionais mesmo. Daí ok… A mídia ficou sabendo, fizemos tudo que é tipo de programa de tv, revista e jornal. Então a coisa foi BEM divulgada. Chegou no dia, cadê público?
Foi um pequeno grupo de pessoas, que já eram as que estavam em atividade e só.
A nossa surpresa é que apareceram pesquisadores, uma galera ligada nas artes, agora o povo da BM mesmo vai saber onde estavam. rs
A segunda edição teve mais público. Mas meu psico estava já abalado, acabei saindo. Mas sempre estou ali ao lado do Lu.
A Frrrkcon hoje não está no molde do que foi criado. É mais o nome.
– Como ela é hoje?
Thiago  Soares: Então, fizemos dois anos e depois foi para virada cultural. Lu até tentou botar o mesmo nome mas nem pegou.
Ano passado é que teve mesmo outra edição, em Curitiba.
Foi mais um evento noturno com performance e suspensão. Amanhã a mesma coisa: evento noturno, mas só com performance.

– Diferente das duuas primeiras edicoes, entao?
Thiago  Soares: Antes a gente tinha duas partes, a da teoria (debates, conversas, etc) e a parte da noite. Sim, diferente sim.
– T., por falar nisso, você poderia me traçar um quadro do profissional da bm , nessa versão radical? Formação e etc.
Thiago  Soares: A galera da primeira geração seguia meio que o caminho de ajudante em estúdios de tatuagem, depois seguiam como piercer e chegando nas outras mods. Era mais ou menos esse trajeto: ajudante >> piercer >> body modifier.
Isso nos anos 90 e começo de 2000. A geração atual pula toda essa fase  e já vai direto para BM,  então o processo de formação é quebrado.
– Como se dá o processo de aprendizado das técnicas?
 Thiago  Soares: Existem workshops, oficinas “oficiais”, tem a coisa de um ensinar ao outro e a geração atual que usa cobaias vivas para testar procedimentos. O caso do eyeball aqui é esse  e está super problemático por sinal.
– Os riscos de sequelas e acidentes mais graves são enormes?
– Como são essas oficinas oficiais?
Thiago  Soares: os riscos são grandes.
Os workshops são aplicados por profissionais mais antigos, alguns inclusive do exterior. Digo “oficial” porque existe até certificado e tudo das associações de piercers e etc.
– Quem seriam no Brasil os grandes mestres da bm? Personalidade/pessoa que seja sua grande referência profissional, no Brasil ou no exterior.
Thiago  Soares: Os nomes são (alguns nem estao em atividade mais) Andre Meyer, Zuba, Andre Fernandes, Ronaldo Sampaio, Dark Freak, Freak Boy, Luciano Iritsu… tô pensando. rs
– Você conhece o studio do Fakir Musafar em São Francisco?
Thiago  Soares: Siiiiiim!
Morro de vontade de conhecer pessoalmente, but, but… rs
Não rolou ainda.

– Alguém aqui já foi aluno dele?
 Thiago  Soares: Então, não acredito que tenha ninguém aqui que seja ex aluno direto de Fakir.
– Outra coisa T., você poderia me da um panorama dos locais onde são feitos as cirurgias para os implantes e bifurcações?
Thiago  Soares: Antes estúdios de tatuagem ou clínicas de piercing. Hoje também, mas de forma mais velada
Exceto por poucas pessoas que falam abertamente sobre fazer em seus estúdios.
– A galera tem acesso as proteses, material cirurgico e a anestésico de que forma?
Thiago  Soares: A maioria do material é importado. Atualmente tem se usado silicone e não temos produtores de peças aqui
Quando se usa ptfe existem pessoas que moldam as peças. Se compra online, em eventos ou em viagens.

– Os anestésicos e o material cirúrgico também on line?
Thiago  Soares: Anestésico não sei te dizer como cada um faz. Instrumentais vendem nas lojas mesmo.
Não precisa de termos para conseguir comprar, só ir e ter din din. rs
– Você conhece algum acidente grave/ fatal?
Thiago  Soares: Não há registros. Há acidentes moderados, como no eyeball, de manchar a pele em volta do olho. Até o momento
e espero que permaneça sem.

– Aqui tem amputação ou é tabu no Brasil?
Thiago  Soares: Olha, percebo que é tabu. Mas tem lendas, somos todos pescadores né? rs
Existem pessoas que já fizeram com profissionais do exterior, digo, brasileiros que já fizeram. Isso temos

– Que partes foram amputadas?
Thiago  Soares: Remoção de mamilos, dentes, dedos, que mais? Acho que só.

– Castração e nulificação não?
Thiago  Soares: Castração não conheço ninguém, apenas os relatos de transexuais,  que existem vários.
Agora eunucos, não conheço. Mas isso com certeza temos.
– Pergunto isso porque BMEzine fala bastante dessa prática. Agora T., me fale um pouco sobre você.
Thiago  Soares: BME falava mesmo. Shannon principalmente.
– Verdade.
Thiago  Soares: saudade dele.

_ Como ficou o bmezine?
Thiago  Soares: Honestamente falando não sei como anda o BME. Eu vejo ainda, mas sempre pra consultar algo escrito por Shannon.
Quando ele saiu a primera vez houve uma queda na qualidade, agora com seu falecimento…
Perdemos muito com isso.

– Você vê algum paralelo entre ele e o Musafar?
Thiago  Soares: Hmm. Penso que apenas na questão de alterar o corpo.

– T., fale um pouco sobre você, idade, profissao e quando começou as modificações… Sei que essa parte deve ser super chata porque você está cansado de falar sobre isso, se quiser pular isso tudo bem.
Thiago  Soares: Não esquente a cabeça. rs
Eu tenho 31 anos. Sou historiador de graduação, professor e artista da performance.
Comecei a me modificar (no seu recorte) na adolescência, por volta dos 15 anos.
Meu começo se deu através do piercing. Depois o fluxo todo. rs
Vai pra vida toda pelo visto.

– Decisão sobre fazer as modificações no corpo (momento, motivo e inspiração)
Thiago  Soares: Quando eu comecei, acho que tudo estava envolto na estética da coisa. Que se desenvolveu para experimento de coisas na minha fisicalidade. Que se desenvolveu para a arte.Foi gradativo.
Em resumo, o que carrego no corpo é uma biografia em contrução da minha história de vida. Minhas crenças, descrenças, etc. Acho que é isso.
– Estimada sobre o número de modificações. Projeto de modificação  (tempo e dinheiro investido).
Thiago  Soares: Na questão sobre estimativa, prefiro falar de técnicas do que quantidades. Tenho piercings, alargadores, tatuagens, escarificações, brandings, implantes, lingua cortada ao meio, microdermais… Basicamente isso.

Projeto… patz!
Bom, eu gastei bem pouco, acabo ganhando muita coisa.Mas tempo, olha… rs Não faço ideia, mas já foram meses aí de alterações. rs
– Para fechar, qual a sensacao de se ter um corpo modificado?
Thiago  Soares: Eu tenho a sensação de ser um incomodo para o senso comum, para o modelo padrão ocidental, burguês, branco, cristão, machista e heterossexual. Tenho a sensação de que ser e ter o corpo modicado cria ranhuras no status quo. É anárquico e poético.
Por outro lado, no meu mundinho particular, estou feliz assim ou na experiência desse processo todo.
É como se eu fosse completando um grande quebra-cabeça. Há quem diga que é o encontro do self.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: