A concha, o trauma, o luto e a luta…

Nessa data, um ano atrás, eu tinha quebrado, novamente, em um milhão de pequenos pedaços. Hoje completa um ano da partida para o outro lado, o encantamento, de dona mãe. E escrever essas linhas já me pega e fisga em lugares delicados demais, porque perder alguém que se construiu uma conexão intensa e amor profundo demais, nunca é algo como simplesmente o fluxo natural da vida. Você não perde uma pessoa, você perde o mundo que você construiu até ali… O único mundo que você conhecia até ali. E depois?

E depois o que fica são os pedaços que a gente tenta coletar e juntar e rearranjar. E na maior parte do tempo eu tenho falhado miseravelmente. Eu não consigo (ainda) ver fotos e vídeos de dona mãe, sem cair no buraco profundo. Eu evito falar sobre ela com a maioria das pessoas porque temo por cair no buraco profundo. E se começo a falar sobre ela, busco encerrar logo o assunto por uma total falta de habilidade emocional para lidar com o durante e depois de ativar algumas memórias em mim. E assim, eu escrevo… Escrever é também sangrar. E ao mesmo tempo, minha (busca de) cura.

Doente. A nossa mente é um lugar extraordinário, para além do bem e do mal… Mas há um ano eu tenho duelado com ela de outras tantas e novas maneiras para continuar aqui. Alguns dias mais, outros dias menos, mas todo dia um duelo diferente para tentar permanecer aqui por mais um tempo. Eu estou quebrada e o que não quebrou rachou, trincou… E a minha mente brinca comigo entre os seus dedos…

Algumas datas me dão calafrio antecipadamente e eu preciso criar estratégias para burlar minha mente. Retornar pra casa antes do esperado foi uma delas e embora eu duvide do quanto tenha ajudado, imaginar um cenário diferente me deixa a boca seca… Eu sinto que desenvolvi algo como o stresse pós-traumático. O luto é luta. O câncer foi uma guerra com tanques de quimioterapia e bombas de outras drogas químicas, e tubos, agulhas e fios que atravessam o corpo, explodem o corpo e que, ao final, nem todo mundo sobrevive…  A gente não é nada.

Desde sexta-feira fui entrando numa espécie de concha. Um cansaço estranho, como quando a gente vai gripar, e um choro preso na garganta que na tentativa de falar duas ou três palavras, as lágrimas pesavam e enchiam os olhos. Sábado acordei muito cedo, sabendo que seria um dia difícil, comecei a trabalhar limpando a casa e não parei. Não era um dia que eu poderia sentar aqui ou no celular e escrever ou pensar ou estudar… Era arriscado demais ficar sozinha com a minha mente. Então fui para o físico. Em silêncio.

No processo da faxina me dei conta que fui fazendo coisas que faríamos juntas se ela estivesse aqui ainda, fisicamente falando. Lavar quintal, cuidar das plantas, arrumar o lixo… Ela limpava a casa dela, eu a minha e depois a gente sentava no quintal para jogar conversa fora (e para dentro do coração). Que merda, gente… Que merda. Eu fico aqui tentando escrever algo organizado, mas é tudo uma grande bagunça sem sentido e dolorida.

Acabando a faxina fui ao supermercado, o mesmo que a gente costumava ir, ela era do tipo que adorava ir em todos os mercados, era o rolê dela… Eu era uma pequena folha de vidro ali andando empurrando um carrinho de memórias de um tempo que acabou e de pessoas que não estão mais aqui. Nem ela, nem eu… Protegidas pela minha concha

Um ano passou.
Eu continuo aqui tentando criar raízes para permanecer. As raízes de agora são finas e frágeis, eu sinto… Estar aqui ainda me exige uma outra energia, uma que estou descobrindo ainda e não sei quanto tempo vai levar ou se terei esse tempo para descobrir. Por fim, eu continuo tentando e entendendo que a vida é um relâmpago. Aqui. Agora. É tudo o que temos.

A travessia da vida e da morte segue.
Tudo dói ainda (e muito), exceto quando penso no privilégio que foi ter passado por essa vida ligeira, com ela sendo minha mãe e pela relação bonita que fomos construindo. Pecinha por pecinha entre trancos, barrancos, troncos, sementes e primaveras. Afetos.

Travessia. A saudade de agora. E o nosso amor que levo até o último respiro.

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