Ah! E o 28 de Abril…

E chegou o 28 de Abril…

A regra era acordar e ir te procurar pela casa para dar um abraço de feliz aniversário, te ver tímida e naquele contentamento bonito, falar e ouvir o mais genuíno “eu te amo” e depois aguardar para a festa surpresa que tínhamos programado… O bolo, as flores, a casa cheia de pessoas que te amavam e a sua expressão única de felicidade naquele momento do tempo. Aquela felicidade doce. O plano era continuar fazendo isso por anos e anos, mas algumas coisas – como a vida em si – escapam do nosso querer e controle e as mudanças chegam. Queiramos ou não, estejamos preparadas ou não…

Hoje é o dia que celebramos o nascimento de dona mãe. E é o primeiro ano que isso acontece sem ela estar aqui, fisicamente falando…  É verdade que conforme esse dia estava a chegar, minha cabeça se revirava em sensações e emoções… Como assim ela não está mais aqui fisicamente? Como assim? A minha cabeça não conseguiu aceitar isso muito bem ainda… E toda vez que me confronto com essa verdade, sinto choques e calafrios no meu corpo, eu quebro… Leva tempo para se acostumar a viver sem quem amamos, talvez leve a vida toda, a gente precisa se reorganizar no mundo e o tempo não é algo do tipo que para e te espera. A gente precisa aprender a estar aqui de novo, constantemente…

Estando quebrada tenho empregado outra energia – e utilizado de outro tempo – para realizar as coisas mais simples e, na maioria das vezes, não consigo mais articular certas partes de mim. Estando trincada, rachada, em pedaços, algumas coisas eu não consigo mais fazer, sem entrar em um lugar – que só eu sei e, ao mesmo tempo, desconheço – que não consigo sair com facilidade.

Desde a partida de dona mãe não consigo mais ver as nossas fotos, vídeos e mesmo falar sobre ela no passado sem quebrar profundamente. Agora por exemplo, enquanto escrevo, vou sentindo e ouvindo os trincados. Isso me dói porque adoraria escrever e falar mais sobre ela, sobre o nosso amor; sobre o nosso humor; sobre nossos projetos para o futuro simples, bobo e delicioso; sobre os dias chatos, sobre os dias felizes; sobre os sonhos do passado, do presente; sobre o filhote que não eduquei direito; sobre as coisas que queremos comer; sobre as plantas que queremos ter e sobre como fomos construindo a nossa relação ao longo do tempo de uma forma bonita, bonita e tão nossa…

Eu vejo as pessoas fazendo homenagens póstumas, postando fotos e vídeos de seus entes querides (como eu já fiz em outras situações) e sinto uma certa inveja e medo por não conseguir. Cada processo de luto é singular e não, não adianta tentar colocar a sua experiência para alguém como se fosse uma régua ou receita de bolo, do tipo, siga por ali ou faça aquilo…  As coisas não são assim.

Quando vejo uma sequência de fotos de dona mãe, por exemplo, sinto como se eu fosse atirada contra o muro dessa verdade que é o fato dela não estar mais aqui fisicamente e aí, meu bem, eu desmonto e nunca sei se vou conseguir reunir minhas partes novamente para ficar de pé ou ao menos sentar. Porque pra mim ela é viva e presente demais. E nesse processo de agora tenho entendido que o luto é sempre verbo, quem vive sabe… embora, como disse, eu tenha aprendido que cada pessoa o viva à sua própria maneira.

Eu quero tanto conseguir olhar para as nossas e as suas fotos novamente, sem desmoronar…

Durante esses meses eu fui ali no fundo do abismo e fiquei submersa. Quis e tentei ir para o outro lado, mas de alguma forma continuo aqui… O que tenho aprendido com o budismo e com esses dias vazios é que a minha hora vai chegar também, não preciso ter pressa ou me preocupar em demasia, devo – não por obrigação – apenas desfrutar do tempo – de aqui e de agora – que ainda resta e tentar fazer dessa experiência física e finita algo que seja bonito – para mim e para as pessoas que atravesso – para ecoar no universo, para deixar… A gente nunca leva nada, mas deixa… Foi o que aprendi com a minha baixinha. Sua estatura era pequena, mas o seu espírito era gigante. E sempre será… Sempre presente.

Dona mãe deixou para nós que ficamos o amor que se manifestou em toda sua vida no cuidado e no acolhimento… Um tipo de amor que nunca vou conseguir entender em sua totalidade, era dela, era ela… É dela, sempre será ela, esse amor. Eu, minha irmã, sobrinhes somos a continuidade de seus sonhos de outrora, somos continuidades dela aqui no plano físico. Ela me deu a vida e segue viva em mim. Enquanto eu respirar… de alguma forma estaremos juntas.

Hoje, que celebramos o seu dia, choro a sua ausência física, choro de saudade de ouvi-la cantar tão lindamente, choro porque queria mais tempo com ela, choro pela falta que seu abraço me faz, mas não permitirei mais que a tristeza seja maior do que a alegria de ter vivido ao lado dela e da sorte grande que foi a de tê-la como a minha mãe.

Quero passar o 28 de Abril, o dia que sempre será dela, descobrindo maneiras de me conectar com a sua força e fazendo coisas que eu sei que a deixaria de algum modo feliz. Talvez hoje eu ainda não tenha condições de articular tudo isso muito bem e eu nem entenda muito bem nada disso que tenho vivido desde sua partida, mas vou buscar… Vou buscar. E nessa busca – que mais do que encontrar algo, me faz movimentar forças, seguir – sempre agradecer pelo privilégio que foi ter vivido a maior parte da minha vida até aqui ao lado dela. É, minha baixinha, com as lágrimas lavando o meu rosto, celebro o seu dia, celebro a sua passagem por aqui, celebro e agradeço pelo nosso encontro nesse plano e, embora muito desacreditada de tudo, gosto de imaginar que ainda nos reencontramos um dia do outro lado. Enquanto isso não se realiza, vamos nos encontrando para cantar nos sonhos, dançar nos sinais do acaso e abraçar as memórias de uma vida que foi vivida com dignidade, cumplicidade, companheirismo, felicidade, amizade e amor. Muito amor.

 Te amarei para além dessa vida, dona mãe…
Quanta saudade, meu amor…
Obrigada por tudo… Tudo.

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