TRINTA E NOVE

Osasco, 14 de Janeiro de 2021

“É pela ferida (da alma) que a luz entra em você.”
Rumi

Quando cheguei aos trinta e cinco falava sobre as mudanças que me esperavam e que marcariam profundamente. Assim como fora nos vinte e cinco. Pois é… Penso brevemente em tudo o que aconteceu desde então e concluo: é, a sua intuição é poderosa, garota.

Chego aos trinta e nove no meio da turbulência da fase mais difícil de toda a minha vida. Luto e luta. É como se um grande furacão tivesse me virado e revirado muitas vezes.  E ainda não parou. E eu espero um dia escrever que isso tudo teve um fim.

Foi o adoecimento e a partida da dona mãe, o adoecimento do planeta que nos roubou os abraços e a permanência de um vínculo de sofrimento, que em um momento de tamanha fragilidade que me encontro, trouxe mais sofrimento ainda.

É o meu primeiro aniversário sem receber o abraço físico de minha mãe. Ela era sempre a primeira. Eu acordava ciente que aniversariava, ficava enrolando alguns minutos na cama e depois sabia que ela estaria ali me esperando em algum canto da casa para me dar um abraço. O melhor abraço e que tanto me faz falta desde a sua partida. Agora há um profundo silêncio e intenso vazio. Você já sentiu isso?

Escrever essas linhas hoje me exige um outro tipo de força e energia. Eu preciso parar para respirar fundo, enxugar as lágrimas que despencam no meu rosto, sentir meu coração doer por um tempo e depois continuar. As coisas mais simples e automáticas dessa vida, hoje me parecem difíceis demais. As coisas que mais me davam prazer e alegria, muitas delas estão ali abandonadas em algum canto da minha mente. Todas as prioridades mudaram. A vida mudou radicalmente. Algo dentro de mim mudou. Onde eu quebrei?

E sigo tateando esse novo ciclo que estou entrando e que ainda não sei muito bem como funciona. Eu preciso de ajuda para seguir. É muito esquisito não saber mais fazer as coisas que eu fazia sem ter muito o que pensar… E é claro que me sinto assustada, mas não tenho deixado o medo disso tudo me paralisar totalmente. E sim, é uma luta constante e diária. Tenho caminhado devagarinho, mas estou em movimento.

Chego aos trinta e nove com aquela sensação que caminhei mais do que esperava e que tenho paz com a minha jornada pessoal que construí até aqui. Com a certeza de que todo dia pode ser o meu último dia. Que todo respiro pode ser o último também. Que a saúde é algo precioso e que um dia – quando a gente menos espera – ela se vai… E a gente também se vai. As pessoas se vão também sem a gente ter tempo de se preparar ou em alguns casos de se despedir. E o tempo não vai parar para esperar você se refazer, em seu ritmo, ele não para, ele não volta. Tudo o que temos é o agora. Tudo o que fazemos nesse agora vai nos trazer respostas e retornos. Não como castigo ou punição, mas reação da nossa ação no mundo. E em alguns momentos você vai sentir que a vida é injusta e cruel, mas não. A vida é só a vida. A crueldade e a injustiça são feitas por nós, são conceitos ou valores nossos. A vida é apenas esse interligado complexo de energia, interdependente e em conexão com o todo maior, que a gente nunca vai entender. Está para além do que podemos ver… Fisicamente ela acaba, mas somos mais do que esse amontado de carne, músculos, ossos e vísceras. E quando você se for, o que vai deixar ecoando no universo?

Nesse agora que tenho, que estou aqui na manhã do meu aniversário. Eu quero aproveitar para deixar um profundo e muito sincero agradecimento para todas as pessoas que me escreveram ao longo desses dias, que me ligaram, que mesmo em uma pandemia passaram de alguma forma algum momento comigo, que me enviaram cartas, livros… A maior parte do tempo eu não tenho energia suficiente para responder da maneira que gostaria. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mas estou aqui recebendo esse carinho, esse afeto, esse amor e tenham certeza que tudo isso tem me ajudado muito a continuar.

Quero deixar um agradecimento, com todo amor que cabe em mim, para minha irmã, cunhado, sobrinhes e amigues (que são minha família também), que com uma coragem, bravura e força sem igual estão ficando por perto, vigiando e cuidando para que eu não definhe e para que minha segurança seja preservada. Eu amo muito vocês e nem tenho como agradecer tudo o que tem sido feito.

Entro nos trinta e nove sem a mínima ideia do que me aguarda além dessas incontáveis e profundas mudanças. Seja o que tiver que ser, está tudo bem, eu vou até onde for possível ir dentro dessa minha limitada experiência humana. E se houver ainda pra mim um amanhã ou alguns amanhãs ainda, eu espero estar com vocês e seguir trabalhando arduamente para construção de experiências carregadas de bonitezas do viver e que lá na frente vai poder nos trazer a boa morte.

Por enquanto estou a lamber as feridas todas, algumas vão cicatrizar e outras talvez e, muito provavelmente, não… É assim que é… Devagarinho. Seguir…

Obrigada por tudo até aqui.

Todo amor que houver para além dessa vida para mim, para vocês e para todes nós.

T.

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