Entrevista sobre o corpo modificado

Curso: Fotografia | Universidade: Centro Universitário SENAC

01. (Nome completo, idade)
Meu nome completo é T. Angel.  Eu tenho 38 anos de idade, com corpinho de 100 e mente de 5.000 anos. Sem querer aqui fazer a linha cartesiana.

02. O que te despertou a vontade de modificar o corpo?
O corpo é modificado quer queira eu (você, nós) ou não. O corpo enquanto um organismo vivo tem como característica básica a transformação, a modificação, a metamorfose. E não vamos entrar aqui no discurso biológico, quero tratar da interferência da cultura em nossos corpos.

Para além das modificações que escapam do meu poder de decisão, eu percebi que poderia justamente manipular os usos do meu corpo. Que que poderia caminhar no sentido de uma autonomia sobre mim. E por aí tenho trilhado… Estou me apropriando de mim enquanto me construo e desconstruo.

Desde as minhas primeiras memórias os corpos fantásticos do mundo dos sonhos, da ficção científica, desenho animado, mitologias e folclores me despertavam um profundo interesse. Também tinha uma conexão com as modificações corporais que integram a cultura das populações indígenas. Na adolescência me envolvendo com movimentos de contracultura percebei que algumas coisas que eu imaginava poderiam se tornar reais. Eu tenho me tornado uma realidade pra mim mesma e isso me soa bonito.

03. Você acredita que as modificações corporais agrupam pessoas em um único estereótipo?
Jamais e é um equívoco querer que sim.
As modificações corporais são práticas culturais que existem há séculos e que estão postas e disponíveis para quem sentir que elas façam sentido de uso. Quando olhamos para os grupos de pessoas que se modificam, entramos em contato com grupos extremamente heterogêneos. Se você vai em uma convenção de tatuagem, por exemplo, você vê claramente que embora exista lá a tattoo como um assunto e uma prática cultural em comum, que aproxima pessoas em um espaço, é só isso. Precisamos ter muito cuidado com os estereótipos, generalizações que envolvem a minha gente. Há perigo na história única e se tratando desse campo da vida (e todos os outros), estereotipar e generalizar esvazia e empobrece o debate.

04. Hoje em dia, ainda é comum pessoas com modificações corporais sofrerem preconceito por suas ideologias?
Por ideologia você quer dizer exatamente o que? Para além das modificações corporais, estamos vivendo um momento histórico em que a dissidência, a divergência e a diferença na esfera do pensamento são alvos de fortes ataques das pessoas que chegaram ao poder. Isso é grave. Isso é crítico.

Pensando apenas o corpo modificado e a questão do preconceito no ano 2020 na primeira metade do século XXI…  Avançamos em alguns aspectos, retrocedemos em tantos outros. E como retrocedemos alcançando de novo práticas e comportamentos que a gente acreditou que teria morrido no século passado, infelizmente o preconceito segue vivo. Cruel e perverso.

05. Qual o principal atrativo na arte de modificar o corpo?
Trocaria “arte de” por “prática de”. Pra mim é ter percebido que eu poderia construir o corpo que eu queria. E nesse processo perceber que o meu corpo é um campo de batalha. Muitas batalhas. Foi também descobrir que eu tinha um corpo. É dançar com a subjetividade livremente sem medo e sem amarra. Pra mim, foi e tem sido um processo de apropriação da minha existência e de libertação de toda introjeção da normatividade compulsória dessa configuração de sistema que temos.

06. Em sua opinião, há diferença entre modificar o corpo como um tipo de manifestação artística ou por estética, ou as duas ideias se complementam?
Aqui é um ponto de vista bem pessoal, então, por favor, é só o meu olhar e leia essa resposta com esse tom. Não quero falar por todas as pessoas e nem trazer como um dado científico de pesquisa de campo. É só a minha visão sobre essa questão, só isso.

Eu penso que, toda manifestação artística é estética, mas nem toda estética é uma manifestação artística. Nesse sentido consigo ver bem delineada o que é modificação corporal (body modification) e o que é arte corporal (body art). São práticas que em alguns momentos se encontram, outros não. E de modo geral o que considero é o discurso de quem está fazendo a proposição, assim como espero que considerem o meu. Nem tudo que fiz no meu corpo tinha uma motivação artística. Tantos procedimentos que fiz tinham a motivação estética para atender a minha demanda com o que considero belo. Eu definitivamente não preciso do carimbo “isso é arte” para sentir que o que eu faço tem validade e merece respeito. Minha relação é essa, outras pessoas têm outras e está tudo bem. Que bom que existem pontos de vistas diferentes sobre assuntos diversos.

07. As técnicas de modificações corporais podem ser consideradas uma maneira de criar características singulares dentro da sociedade? Hoje em dia, dispor de um adereço sobre a pele ainda te torna diferente dos demais?
Sim e não. Acho que tudo depende muito de quem, quando, onde e em que contexto… Pra mim é impossível olhar para essa questão sem ser de forma interseccional. Classe, gênero, raça, sexualidade, deficiência, origem, idade e tantas outras questões precisam estar presentes nessa discussão.

Se você é uma pessoa com modificações corporais na Rua Augusta a interação social é uma. A mesma pessoa na quebrada onde vivo a interação é outra. Lá o comum é isso. Aqui não.

De modo geral eu acho que passamos da hora de entender que ninguém é igual e essa é a nossa maior dádiva enquanto espécie. Um dia a gente chega lá. Olha o horizonte…

08. O que você pretende dizer a si ou ao mundo quando modifica o seu corpo?
Acredito que a relação também seja de comunicação. Eu comunico muitas coisas pra mim e para o mundo em que estou inserida.  Eu tenho uma única vida, que pode acabar a qualquer momento e eu fico feliz de ter me encontrado na relação com essas culturas. Eu disse pra mim mesma que estava tudo bem ser uma pessoa monstruosa e depois desse monólogo, tudo mudou, tudo melhorou… E é forte demais ter tido essa conversa comigo mesma, porque dentro da configuração da sociedade que temos, insistir em existir quando o tempo todo as portas se fecham e as valas se abrem, é desafiador. E aí fica a mensagem que grito para o mundo todos os dias: vocês não vão me fazer querer morrer mais. E assim eu caminho mais em paz, mais serena… E com vida. Não apenas deixando a vida me levar, mas existindo de fato. Fazendo uma grande orgia com os meus dias. A vida é louca, mas eu sou muito mais… Esse é o meu lema.

09. Quais os mitos mais presentes no ramo da tatuagem e das modificações corporais?
Todos aqueles velhos e ultrapassados estigmas que projetam nas pessoas que desviam da normatividade compulsória.  Da marginalidade, da patologia, da perversidade, da incompetência… Por isso eu acredito no poder da educação no sentido de quebrar todos esses estigmas bobos e construir outras relações e olhares sobre os corpos – QUE SÃO PESSOAS – com modificações corporais. A pedagogia do esquisito vive em mim. E eu vivo para ela.

Comments
2 Responses to “Entrevista sobre o corpo modificado”
  1. sergioregis disse:

    Grande abraço, Angel.
    Continuamos juntos.

    Obrigado,sempre, pelo envio de notícias.
    Parabéns pela entrevista e ativismo fundamental.

    E como vão suas aulas remotas? Espero que vc esteja muito bem em todos os sentidos.
    Estou na escola pública há 3 anos… aprendendo a importancia do magistério, na geografia.
    Gostei muito de ver relatos seus sobre a educação. Vamos lutando e ajudando a transformar a escola e um lugar de aprender e ensinar, com os alunos, novas formas de pensar o mundo.
    Abraços e bjos.
    Sérgio
    ________________________________

    • T. Angel disse:

      Hey, meu querido.
      Coisa boa te ler, sempre bom. Obrigada por estar por perto.
      Estamos aí experimentando esse novo sistema de vida na educação. Tudo precário e difícil, mas feliz de ainda ser possível nosso ofício se reinventar. Sigamos ocupando as salas de aulas. Ali é onde tudo pode acontecer para que o futuro seja possível.

      Beijo enorme,
      T.

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