Vida, amar, elo e algumas outras palavras…

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Ilustração: Ricartoon, 2019.

No dia 25 de Junho de 2019 foi divulgado o videoclipe para a música AmarElo de Emicida, com participação de Majur e Pabllo Vittar. Durante o dia via circular o vídeo pela minha timeline no Facebook. Eu estava na correria de vida de professora perto das férias. O primeiro semestre tinha sido cansativo demais, eu estava me sentindo sem energia e com uma exaustão estranha, que é verdade me acompanhou de fevereiro até junho. Talvez antes disso. Certamente antes disso.

Era mais de 20:30 do dia 25 de Junho quando parei em frente do mesmo computador que agora escrevo e parei para assistir AmarElo, sem saber muito bem o que esperar. Enquanto assistia, bem… Devo ter piscado pouco. Respirado pouco. Quando o vídeo acabou fiquei alguns segundos paralisada olhando para tela. Os créditos subiam. As lágrimas desciam. O que consegui fazer no momento foi compartilhar o vídeo e escrever no Facebook:

“Sabe quando você ouve e vê exatamente o que precisava, no exato momento em que precisava? Pois é.”

Se você não viu o vídeoclipe ainda, recomendo que o faça antes de seguir com a leitura dessas minhas palavras todas.

Eu fiquei com um desejo profundo de escrever sobre as minhas impressões assistindo o videoclipe e ouvindo a música. Resolvi esperar. Dias depois eu entraria de férias da escola e acreditava que seria o momento ideal para escrever. Nesse tempo ouvi AmarElo umas tantas vezes, assisti o vídeo umas tantas outras e procurei ler e ouvir o que estavam falando sobre o trabalho.

Nessa minha pesquisa faminta, destacaria a análise Emicida celebra você do canal Meteoro no Youtube, publicado em 1º de Julho. O vídeo foi narrado pelo homem mais simples, Álvaro, que inicia dizendo e repetindo que “esse negócio é poderoso, forte”. E é!

Álvaro, o homem mais simples, estrutura o vídeo da seguinte maneira:

  1. Diálogos: onde faz uma análise sobre a trajetória de Emicida.
  2. Mandando a real: parte que analisa Belchior, mais especificamente o álbum Alucinação (1976), de onde Emicida retirou alguns versos para sampler.
  3. É pessoal: momento em que Álvaro compartilha – o que consegue – sobre a sua experiência pessoal que se relaciona com o vídeo de AmarElo.
  4. Viva você (de novo): que finaliza o vídeo e analisa as transições, mudanças e impermanência da vida. Que a gente só consegue ver, se continua com vida.

 

No dia 05 de Julho o Emicida divulgou o vídeo As histórias por trás do clipe, em que apresentava um pouco das histórias das pessoas que compuseram o elenco de AmarElo.

Eram mais informações que se somavam para minha pesquisa para a escrita e, obviamente, para experiência de quem foi fortemente impactada pelo vídeoclipe.

Os dias de Julho foram passando. Todos os dias eu pensava, hoje preciso sentar e escrever sobre AmarElo, mas não conseguia. As férias passaram e acabaram e eu não consegui escrever. O desejo da escrita ficou vivo em mim. No momento certo, aconteceria…

Dia 29 de Julho eu retornava para escola em que trabalho. O dia começaria cedo com uma reunião que terminaria somente no fim da tarde. Para minha surpresa, a reunião seria aberta com a exibição de AmarElo. Eu estava ali na sala na companhia de várias professoras e professores e me senti desaparecendo em pensamentos e depois voltando. Quase quem abandona o corpo, assiste tudo do alto e depois retorna. Lembro de ter balbuciado de modo inaudível algumas partes da música, em especial, “(…) mas esse ano eu não morro”.

Já contei da minha experiência naquela escola, enquanto estudante e tenho escrito esporadicamente como tem sido agora como professora. Ouvir aqueles versos, ver aquelas imagens e aquelas pessoas cantando (Emicida no vídeo está acompanhado de uma pessoa não-binária, Majur, e uma drag queen, a Pabllo) naquele espaço foi forte e intenso pra mim, de maneiras que só eu posso entender e saber. Quando eu conto, as pessoas imaginam, mas a experiência do modo que ela tem se desenhado é minha. Foi forte e intenso também ver AmarElo numa reunião dentro da escola, principalmente no Brasil medíocre que temos hoje. E, de um modo que também só eu entendo, agradeço internamente por estar vivendo aquilo (viva!). E aí eu me lembro, que eu precisei seguir com vida para desfrutar dessa experiência. E aí chegamos na parte em que a gente recaí naquela frase que eu gosto de dizer, que absorvi de Madonna, que o meu maior ato de rebeldia é continuar com vida.

Então, fiquei esses dias todos, mais de um mês, ruminando todas essas sensações para que agora eu pudesse sentar aqui e escrever sobre AmarElo. Eu precisava escrever mais do que duas linhas sobre o que foi para mim assistir o videoclipe, porque algumas memórias precisam ser salvas e guardadas com carinho. A hora é agora.

  1. Espelho, espelho meu.

Tudo em AmarElo começava de um modo que eu não esperava. Imagens aparentemente aleatórias e um depoimento anônimo em áudio com uma voz embargada. Alguns segundo se passaram, e entre as pausas e respiradas profundas do jovem que relata sobre sua vida, somadas das imagens que não eram mais aleatórias para mim, entendi todo o contexto que ali se apresentava. Não sabia muito bem quais seriam os desdobramentos adiante. Não sabia o que esperar.

O áudio – com seus quase três minutos – me soava familiar. Por isso o reconhecimento se deu de modo breve. O quanto tinha tanto de mim impresso ali, o quanto também tinha de um monte de gente que gosto, quero bem e tenho tentado – com todas as minhas forças – ajudar. Espelho, espelho meu… Doeu, sangrou, latejou… Eis que o áudio termina e surge a voz de Belchior:

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”

Depois disso foi inundação. É como se a cada rima lançada por Emicida o meu corpo fosse sendo reconstruído por dentro e ficando de pé de novo. Eu estava naquele processo catastrófico de exaustão e falta de energia e de repente algo me puxava para cima de um modo poderoso.  Que me fez voltar no passado, é verdade, mas que me sacudia para o presentemente.

Emicida fala nos versos de AmarElo sobre ele, mas fala por uma multidão. Os comentários das pessoas que assistiam ou que tive oportunidade de conversar sobre o videoclipe confirmavam essa minha sensação. E de modo geral, falávamos sobre a injeção de pulsão de vida que sentíamos assistindo e ouvindo a canção.

A gente sabe que a vida tem altos e baixos, a gente sabe que na maior parte do tempo ela não é fácil… Mas os últimos anos, principalmente pós-golpe e pós-eleição (episódios que não se separam), existem forças que retiram a nossa vitalidade, a nossa vontade, a nossa saúde, o nosso desejo de vida. Então, lidar com os altos e baixos – que são processos naturais de quem vive – acabam usando uma energia que já não existe de fato, só sua sombra.

Mas eis que em um momento em que o Brasil (mundo?) amarga as necropolíticas, os necropoderes, os deuses da morte… Em um momento em que estamos mergulhadas na idiocracia ou na chamada era da estupidez. Vem alguém e diz: revide!

  1. Viver na necropolítica é um ato revolucionário!

Quando se é dissidente, existir é uma tarefa, digamos que, árdua e complexa. Não sei para você, mas para mim ninguém chegou e disse: “queride, fique firme, porque a luta é real (e vai ser assim até o fim)”. Fui aprendendo na cabeçada.

Só que não me contaram que seriam tantas cabeçadas. Algumas, inclusive, literalmente aconteceram, as cicatrizes não me deixam mentir. Mas como a própria canção diz, “permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”.

Emicida disse em uma de suas entrevistas que fala em suas músicas sobre ascensão e que “a vitória também pode ser possível”. AmarElo é o suprassumo dessa sua afirmação. Tão forte, tão honesta, que injeta essa pulsão em vida dentro de nós. Ajuda-nos a reconhecer inclusive as nossas pequenas e essenciais vitórias (gigantescas), como sair da cama em um dia de desesperança (dias cinzas, dias cinzas) ou deitar a cabeça no travesseiro e ter um sono tranquilo (não prejudicar a vida de ninguém é grandioso) ou conseguir comer uma fruta suculenta superando a ansiedade das turbulências e tribulações (depois de dias sem conseguir se alimentar direito).

Talvez por isso que eu precisava tanto escrever sobre o videoclipe. Sabe aquele áudio lá do começo? Então, eu já estive exatamente naquele lugar. Não era legal, não era gostoso e era tão confuso, que só consegui perceber que estava lá ou falar sobre aquele momento todo depois que tomei distância daquilo. Cabeçada.

Anos atrás quando eu estava naquele lugar dos sonhos quebrados e roubados, confusa, com pouca perspectiva, eu tive elos de amor que me ajudaram a sair do limbo. Depois que tomei certa distância daquilo, consegui entender que os elos e os amores me ajudaram a ressignificar as dores, os medos, os traumas e a remendar os sonhos para mergulhar em novos contextos e me aprofundar em outros sonhos, que certamente me levarão para outros e depois outros e, se eu tiver sorte, outros mais. Quanto mais o tempo passa, com mais clareza eu consigo ler tudo aquilo e a importância dos amparos. A vida é impermanência, é trânsito, é transformação o tempo todo. Em alguns momentos as rédeas estão em suas mãos e nas outras não. A maior parte do tempo não estão. E é preciso mais do que força, é preciso coragem, para seguir em pé e respirando quando tudo parecer fora do controle. A maior parte do tempo tudo é descontrole. Respira. Revide.

Álvaro do Meteoro disse em sua análise de AmarElo que “tudo que é matéria agora, já foi só imaginação um dia”. E eu espero que você imagine um amanhã fabuloso e formidável, que não precisa vir necessariamente no dia seguinte ao tombo, como no meu caso, o meu amanha foram anos depois. Que você possa amar. Que você possa construir elos fortes. Que nessas jornadas e caminhadas todas, a sua maior descoberta e o seu maior tesouro sejam o amor próprio. Pessoas vêm, pessoas vão e a maior parte do tempo é você consigo mesma.

Algumas vezes uma poesia, um livro, um filme, uma canção podem te ajudar na miopia com que você enxerga sua força e coragem. Outras vezes as ajudas vêm dos cantos inesperados. E quando você menos esperar, a vida está acontecendo em sua plenitude. Viva! Explore-se! Revide!

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