Trabalho e inclusão ou até que o sistema mude de tom…

Ano passado me convidaram para ir em uma escola pública falar sobre mercado de trabalho para jovens. Essa semana me convidaram para falar sobre inclusão e trabalho dentro de uma empresa e você pode CLICAR AQUI para saber mais. A pauta da inclusão tem me movido há algum tempo e terminei recentemente a minha especialização na área. A pauta do trabalho tem me inquietado há tempos e é sempre uma pergunta que as pessoas me fazem. Falar sobre isso é sempre revirar um punhado de memórias e que pela primeira vez estarão colocadas em formato de texto e imagens, embora já tenha falado sobre tudo isso em diferentes entrevistas e textos.

Importante avisar sobre possíveis gatilhos (trigger warning). Trato de depressão, suicídio, LGBTQfobia e discriminação.

Ainda criança – por volta dos 12 anos – trabalhei um dia em uma fábrica de sorvete aqui na periferia de Osasco. Uns amigos trabalhavam lá e fiquei interessada em fazer um dinheiro. Fiquei trabalhando um dia, não gostei da experiência e não fui mais. Um privilégio poder escolher se iria ou não.

Aos 14 anos entrei em uma instituição chamada Centro Assistencial de Motivação Profissional – CAMP Pinheiros. Fazíamos alguns meses de curso e depois éramos encaminhadas para trabalhar em empresas, com contratos temporários que variavam entre 6 e 12 meses.  Consegui o meu primeiro emprego aos 15 na Alcon Laboratórios do Brasil fazendo um trabalho no almoxarifado, cuidando de materiais publicitários e promocionais do laboratório. Foi quando descobri meu ceratocone e tive uma severa baixa na visão, ainda assim permaneci por todo o meu contrato de aproximadamente 9 meses. Aos 16 entrei como office boy na Roche Brasil e fiquei por um ano.

As duas experiências nas distintas corporações marcavam duas coisas em minha vida:
1) A minha relação com o trabalho;
2) As violências desses espaços;

Embora daqui para frente eu conte sobre a minha vivência e particular experiência, eu sei que muitas e muitas pessoas vivenciaram situações parecidas, algumas vezes piores.

Em ambas empresas eu convivia com a homofobia diariamente. Na segunda, além da homofobia diária e repetida havia um controle brutal do meu corpo e subjetividade. Foi o momento em que os piercings começaram a aparecer. Foi o momento em que me pressionavam para escolher entre permanecer na empresa ou retirar os meus adornos corporais. As duas coisas não poderiam coexistir ao mesmo tempo naquele espaço. Foi uma experiência brutal porque pela primeira vez estava sentindo o peso do autoritarismo do mercado de trabalho somado da discriminação pela minha estética e por uma orientação sexual que nem eu tinha clareza do que era. Nessa empresa eu sofri uma agressão física por homofobia no vestuário e que mesmo depois de denunciada nada aconteceu e nada mudou. A homofobia podia ficar o meu piercing não. Isso é irônico, não? Ainda assim, fiquei na empresa até o final do meu contrato, porque eu tinha medo de me sujar e não conseguir mais emprego.

Aos dezessete eu tive uma overdose com álcool e quase entrei em óbito. Hoje eu entendo que não poderia ter olhado para aquele episódio de forma isolada – como coisa de adolescente rebelde e/ou de alguém que está querendo se divertir – e sim olhar como sendo já o efeito colateral das experiências que se tem quando se é uma pessoa dissidente. Era um sinal – o abuso do álcool – que eu não soube interpretar naquele momento.

Aos 18 – por conta do alistamento militar e a minha visão que piorava – comecei a trabalhar de modo informal. Uma vizinha na época tinha uma empresa de telemensagens e comecei a trabalhar com ela. A grana era menor, mas pela primeira vez eu sentia o prazer de trabalhar sem sofrer violência. Não havia homofobia, não havia discriminação pelo corpo que eu estava construindo e por quem eu era. Ali eu aprendi como se fazia o serviço, fui aos poucos comprando o meu equipamento e montei a minha própria empresa de telemensagens. O nome era Sentimentos Mensagens. Fiquei alguns anos fazendo esse serviço e conseguia ganhar um dinheiro.

Durante esse período as modificações corporais foram ganhando um espaço maior na minha vida. Piercings e tatuagens marcavam o meu corpo. A minha relação com a sexualidade estava a ficar mais aberta e mais clara. Até aqui não pensava e nem sabia sobre as questões de gênero, mas já borrava a noção binária que temos.

Passou a fase do exército. Fiz o meu transplante de córnea. Tinha sobrevivido o ensino médio (antigo segundo grau), experiência que contei em 2017 para Revista Piauí. Fiquei um ano fazendo um curso técnico de Moda, um semestre fazendo cursinho pré-vestibular. Tinha ido para Londrina prestar vestibular. Era hora de buscar novas oportunidades: se eu passasse no vestibular iria embora de Osasco e enquanto não saia o resultado precisava buscar um emprego registrado.

Um amigo – o Andy – trabalhava em uma empresa de telemarketing e levou o meu currículo para um processo de contratação. Fiz o processo todo e aos 21 anos eu entrava na empresa Ibi, administradora da C&A. Logo depois descobri que não havia passado no vestibular da Universidade Estadual de Londrina. Não foi um grande problema porque estava bem feliz com o trabalho e poderia pensar em pagar uma faculdade mais para frente.

Entrei no Ibi como operadora de telemarketing, fiz alguns processos seletivos internos e cheguei ao cargo de supervisão. Embora na minha carteira de trabalho esteja registrado como auxiliar de atendimento. Foram anos intensos e de muito aprendizado. Não havia espaço para homofobia e nem discriminação pela minha estética, tanto é que cheguei em um cargo de liderança. A empresa tinha uma grande abertura para diversidade com muitas pessoas com deficiência, LGBTQ+ e muitas pessoas não brancas ocupando cargos importantes no site. Acredito que na época eu não dei o valor que deveria ter dado ao fator inclusivo da empresa, porque na minha cabeça aquele era o modelo óbvio de qualquer sociedade civilizada e que faz valer os direitos humanos mais básicos.


Mas como nada é definitivo, chegou o dia de sair da empresa no final de 2005. Por conta do meu currículo, experiência e conhecimento sobre o crescimento da área de telemarketing na época, imaginava – de moto muito inocente – que me recolocaria facilmente no mercado. O que não aconteceu.

Eu fiz muitas entrevistas, muitas dinâmicas, entreguei meu currículo tantas vezes que não saberia contar e era recusada todas as vezes. “Aguarde que entraremos em contato“, “a vaga já foi preenchida“, “não vamos contratar agora“, “você não tem o perfil da empresa” ou o silêncio. Mas o silêncio das palavras eram quebrados pela denúncia feita com os olhares que me berravam: “que diabos você está querendo aqui?” Quando se é uma pessoa dissidente, com o tempo você consegue sentir o cheiro de quem te detesta ou despreza.

Como eu não conseguia mais me recolocar no mercado de trabalho, precisei trancar a faculdade e isso me destruiu. Não foi a primeira vez que pensei em me matar, mas foi a primeira vez que fiquei olhando para linha do metrô e pensando que seria mais confortável não existir mais. Eu sentia vergonha de mim e ódio do sistema na mesma proporção. A minha saúde mental foi sendo completamente destruída. Lembro das vezes que saia para procurar emprego e, ao fim da jornada, me sentava no vão do MASP e ficava olhando para o horizonte e eram os raros momentos que sentia algum tipo de conforto. Teve a vez que tive uma crise de pânico no centro de São Paulo e suava enlouquecidamente. Teve a vez também que sai para procurar emprego na Lapa com uma amiga – a Juzinha – e já estava tão saturada que achei melhor ir ao cinema com ela.

Finalmente uma empresa gostou de mim e foi honesta – embora horrível – ao dizer que eu precisava tirar todos os meus adornos para que fosse contratada. Era uma empresa em Mogi das Cruzes e mesmo morando em Osasco e levando quatro horas para chegar até lá, disse que aceitaria a vaga. Quatro horas para ir e quatro horas para voltar. Conversei muito com o meu pai e ele disse que talvez fosse melhor aguardar algo melhor. Declinei a vaga. Estava na merda e querendo morrer, mas ainda tinha o privilégio de ter casa, comida, pai e mãe para me darem algum tipo de suporte.

Quando se é uma pessoa esquisita, dissidente, monstruosa a expectativa é que você não seja nada e não consiga nada na vida e que viva nos esgotos, na sombra, no lixo… Algumas pessoas torcem para que você se dê mal. Só que isso é feito através de cobranças em formato de conversas que se maquiam de preocupadas e bem intencionadas e que na realidade são mais algumas formas com que a violência da normatividade compulsória se manifesta. Eu senti isso.

Aos 24 anos eu não tinha emprego, não podia pagar para estudar, estava doente psicossocial e fisicamente… A minha autoestima era um lixo e eu era uma péssima pessoa para se ter perto. Eu pensava em suicídio. Eu perdi completamente a confiança em mim e nos outros. Era uma bomba que explodia facilmente e muitas vezes sozinha. Sozinha.

 

A minha dignidade estava sendo repetidamente negada toda vez que uma porta de uma empresa era batida na minha cara. Quando julgavam a minha capacidade profissional e intelectual por conta do meu corpo. Isso é cruel.

Foi durante essa crise da minha vida que nasceu o FRRRKguys. Que era uma das poucas coisas que me dava alegria real de viver, porque ele me fazia encontrar mais pessoas como eu e ao mesmo tempo enxergar um futuro possível. É…

Eis que no final do ano de 2006 uma amiga – a Aline Torchia – que havia conhecido na faculdade disse que a loja Ópera Rock, que ela trabalhava, iria contratar para o final de ano. Eu fui na entrevista me sentindo um lixo e completamente sem acreditar que daria certo. Em 5 minutos de conversa a gerente disse com um largo sorriso: “por que não vem mais gente assim como você aqui?”, foi uma surpresa maravilhosa. A Aline me tirou de uma grande e profundo abismo, nunca vou me esquecer e deixar de agradecê-la. Fiz um contrato temporário e depois me efetivei.

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Aline, Carol e Eu, 2007 (acima) e 2017 (abaixo). 

No dia em que sai da loja o meu pai foi internado e depois de 3 meses morreu. Eu comecei a me graduar em História. O meu primeiro dia de aula foi 4 dias depois dele ter sido enterrado. Contei muito com o apoio de minha mãe para poder estudar e me formar, sem ela isso não teria sido possível. Passei a trabalhar novamente por conta, com o FRRRKguys (que não tem giro de capital), com performance e com bicos. Durante esse tempo prestei concurso público para o Estado de São Paulo e passei. Tudo isso que parece pouco e rápido demorou 10 anos. Eu fiquei 10 anos trabalhando por conta e vivendo com o mínimo de dinheiro, que só foi possível porque eu tinha o privilégio de ter a minha mãe, casa e comida. Mas aqui era a minha escolha, o mercado de trabalho formal já havia me destruído tão fortemente e que eu precisava de um tempo para me refazer. Eu tive o privilégio de ganhar esse tempo. Eis-me aqui agora refeita e viva.

Eu precisei de tempo para me reconstruir e consegui em partes. E da pessoa que era recusada por todas empresas no passado, agora estou podendo orientar pessoas em como construir um ambiente de trabalho inclusivo e plural. Uma pequena conquista pessoal e que odiaria que fosse lida dentro de uma perspectiva meritocrática.

Eu reúno essas fagulhas de memórias agora para dizer que precisamos lutar bravamente contra o sistema excludente que rege o mercado de trabalho formal. Não podemos aceitar passivamente que essa lógica nefasta de excluir pessoas por conta de seus corpos vigore. E escrevo principalmente para dizer para as pessoas que estão na mesma situação em que estive, para não desistirem. Não desistam de vocês, não desistam do que vocês são  e não desistam de viver por conta da mediocridade do nosso sistema.

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Uma imagem que marca uma importante transição. Foto: Flavia Valsani

O nosso maior e mais gritante ato de rebeldia é permanecer com vida em um sistema que força e reforça a ideia de que as diferenças precisam ser apagadas e que algumas vidas valem menos do que outras. Eu sei que são tempos difíceis, mas resistam. Pode parecer que não, mas existem muitas pessoas trabalhando fortemente para que possamos vislumbrar um mundo melhor.Trabalhando fortemente para que o sistema mude de tom e não vamos parar até que isso se efetive. Hoje eu sou uma dessas pessoas e espero que você também seja. Viva! No sentido de ficar com vida. Resista! E nunca, jamais, desista de ser quem você é.

T.

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