Entrevista sobre suspensão corporal

Curso: Mestrado em Sociologia | Universidade: Universidade Federal de São Carlos

A prática (de suspensão) pra você tem um caráter mais esportivo (no sentido dos “jogos” com o corpo) ou adquire uma função ritual? Discorra sobre, por favor:

A prática para mim (estou falando da minha relação e pontualmente apenas sobre ela) não tem nenhuma relação com um caráter esportivo. Embora tenha experiências onde a busca era o autoconhecimento e investigação dos meus limites psicofísicos, a minha relação com a suspensão corporal se tornou mais forte dentro de um contexto artístico e ritual. Além da preparação para a ação ritual, existe o fator do tempo que é preciso considerar e que quando eu comecei com a suspensão corporal eu não sabia. Digo isso porque percebo que algumas suspensões que fiz, foram ressignificadas com o passar do tempo, normalmente se tornando simbolicamente mais fortes e transformadoras. Nesse sentido, descubro vivendo que é uma prática que não se encerra depois do ato. Ela reverbera, se transforma e segue viva enquanto memória (meta)física.

Já teve alguma experiência durante a suspensão que possa chamar de “transcendental”, tanto com relação ao corpo e às suas experiências pessoais, poderia me contar?
Eu particularmente sempre tive um problema com as palavras ritual e transcender dentro da suspensão corporal. Sempre tive muito medo que elas fossem de algum modo entendidas ou ligadas com uma questão religiosa. Enquanto uma pessoa que se entende como ateia, nada disso fazia sentido pra mim. Hoje mais velha, cronologicamente falando, mas também de tempo realizando a prática da suspensão, fiz as pazes com as palavras transcender e ritual, obviamente que ainda desconectadas de qualquer conotação religiosa. Consigo inclusive perceber momentos em que a minha experiência física foi transcendida. Destaco a minha experiência com a suspensão vertical pelo peito (2009), em que a sensação que tive foi de uma pequena morte (no sentido do orgasmo e de estar de fato morrendo); destaco ainda a performance Empty (2012) que fiz em Curitiba onde estava adoecida e senti meu corpo desligando e religando durante a suspensão, essa também é um exemplo de ação que foi ressignificada com o tempo, pensando que fiz esse trabalho com o Enzo, que faleceu menos de dois anos depois.
Pensando ainda o quanto eu achava meu corpo frágil antes de me suspender pela primeira vez e o quanto me descobri forte e potente depois da experiência, percebo também uma transcendência aqui.

Sobre a questão mais perguntada para quem se suspende (a dor): em que momento você falaria que ocorre sensação de dor? Como você lida/significa isso? Me explique de que forma essa função fisiológica pode de alguma maneira ser subvertida nas suspensões trazendo algum aprendizado sobre nosso próprio corpo e nossa condição física.
A dor. Curioso como muita gente considera que a suspensão seja a única prática corporal que ofereça dor. O que na verdade acaba sendo válvula de escape para se criar um estigma e um olhar pejorativo (patológico) sobre a prática e as pessoas que a praticam.
A suspensão corporal tem dor, falando restritamente da minha experiência e unicamente sobre ela. A dor está presente e lidar com esse fato tem sido um aprendizado. Sempre é um novo aprendizado. Foi através desse enfrentamento que me descobri mais forte do que eu pensava que fosse. Poderia ter feito essa descoberta por outras vias? Talvez sim e talvez não. Mas independente das possibilidades que ofereçam essa descoberta, a forma que aconteceu para mim foi por meio da suspensão corporal. Eu sinto dor na hora da perfuração. Que não é a mesma que da primeira vez. Que na realidade nunca é a mesma e nem será. Que varia muito tanto pela parte do corpo, como quem está a perfurar. Que varia pelo momento  e o contexto em que estou. Mas é o momento que a magia acontece. A descarga de adrenalina já acontece aqui para mim e vai me guiar no restante do processo. Algumas perfurações eu não sinto dor alguma, apenas uma pressão no corpo, e preciso ser avisada que ela já aconteceu.
Eu sinto dor na hora que vai sair do chão quando faço suicide e depois a dor desaparece completamente. Completamente e para mim é aqui que a magia também acontece. Nas outras posições eu sinto uma queimação maior, não chega a ser dor, mas um desconforto que aparece e some com maior frequência… Exceto pela vertical pelo peito onde a maior parte do tempo eu senti dor e não consegui me dissociar dela. Já tive experiência que também não senti dor na hora de sair do chão.
Eu sinto dor na semana seguinte. Uma dor de quem faz práticas corporais, que nada se difere da dor que sinto quando inicio uma série nova na musculação ou de quando durmo demais. Ou de quando fico muito tempo sentada estudando e lendo. Ou quando faço uma aula intensa de dança. É uma dor muscular de atividade física ou de um corpo que está sendo colocado em atividade. Essa dor sempre está presente e variando apenas a intensidade.
Acho fundamental destacar que a dor é uma pequena parte do processo todo. Eu não a nego. Eu não a excluo. Ela está presente, assim como outras sensações estão e essa grande confusão de sensações me interessa e me agrada muito. É uma explosão íntima de sensações percorrendo dentro do corpo.

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