Entrevista sobre o Coletivo ERER+

Revista de Escola Pública

  • O que é o ERER+ e como funciona?

Hoje o ERER+ é um programa que existe na E. E. Dr. Américo Marco Antonio e que tem trabalhado com as questões que rondam as diversidades humanas e respectivamente o processo de inclusão na escola pública. ERER+ é uma sigla para Educação para as relações étnico-raciais, sendo que o sinal de mais representa todos os variados marcadores sociais das diferenças. Ele funciona através da criação de ações e práticas que vão desde a exibição de um filme até construção de um trabalho artístico. Um dos nossos objetivos é o enfrentamento direto das violências e conflitos. A nossa existência quebra a violência do silêncio e do silenciamento sobre pautas que envolvem os direitos humanos e que são urgentes de serem discutidas por toda sociedade.

Fico feliz que o trabalho engajou muitas e muitos estudantes. Acredito que a relevância das propostas e temáticas aproximaram as pessoas. Sinto que era um nó engasgado em muitas gargantas e que, de alguma maneira, precisa se desfazer. Quando bati em sala em sala para contar sobre o que iria acontecer, estava quebrando um silêncio histórico e isso não é pouca coisa. Sinto que era um espaço que precisava existir há tempos, se no meu tempo de estudante tivesse havido algo similar, a minha vida teria sido bem diferente e, com toda certeza, bem melhor. E acredito ainda que tenha a questão do lugar de fala e da representatividade. Quando eu falo por exemplo dos efeitos desastrosos de práticas como o bullying e da LGBTfobia no espaço escolar e para além dele, eu falo com a propriedade de quem passou por isso e que vai sempre passar, de quem vai carregar para vida as marcas e os efeitos disso tudo. O engajamento se deu por muitas vias e por um punhado de fatores.

  • Qual foi o momento que você viu a necessidade e teve essa ideia?

No começo de 2018 a gestão da minha Unidade Escolar me selecionou para trabalhar com a interlocução do ERER – Educação para as relações étnico-raciais, programa do Estado que busca contribuir com o cumprimento das Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tratam sobre a aplicação da História e Cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena. Para minha surpresa na primeira reunião foi informado que além de trabalharmos com as pautas de etnia-raça-cor, deveríamos abordar a diversidade humana de modo mais amplo. Criei um plano de ação e foi assim que nasceu o ERER+. Dentro do plano de ação estava a criação de um coletivo, nomeado então como, Coletivo ERER+. Olhando hoje, meses depois e com muitas ações realizadas, percebo que criei um plano complexo e, sobretudo, bastante ousado, considerando o nosso atual contexto político e social. É incrível perceber o quanto esse trabalho mudou radicalmente a minha vida e tem colaborado tanto para minha formação enquanto profissional da educação e ser humano.

  • O qual o futuro do projeto?

O futuro do projeto é incerto porque o futuro do nosso país é incerto. O futuro da educação pública é incerto. Os sinais não são positivos e já não são há algum tempo… Trabalhamos com temas sensíveis e urgentes, em vias de se construir uma educação mais inclusiva, trabalhamos com base nos direitos humanos e sabemos que são áreas que estão sofrendo constantes ataques. Imagine você, tivemos a ousadia de falar que as pessoas lésbicas e gays merecem ter uma escola segura e livre de violência. Chegamos ao ponto de brigar e criticar abertamente a ausência das travestis e transexuais na escola pública, seja como estudante, seja como profissional do magistério. Falamos que as pessoas com deficiência precisam estar na escola. Fomos na rua dizer basta para o feminicídio e violência contra a mulher. Gritamos que cansamos do racismo e que não podemos mais aceitar práticas racistas. Falamos sobre o afeto e humanização em tempos em que o avesso disso tudo tem sido a lei que guia as regras do jogo.

Eu não posso afirmar categoricamente que o ERER+ vai seguir existindo nos moldes que aconteceu em 2018, mas eu posso afirmar categoricamente que tudo o que fizemos e as revoluções internas que passamos durante esses meses todos ninguém apaga mais. Talvez um dia eu publique isso como um livro. Talvez um dia o projeto se transforme em outra coisa. Eu adoro as metamorfoses e as novas possibilidades que chegam com elas. Só ficaria muito triste em saber ou um dia ter que dizer que tudo acabou por censura ou ameaças e, infelizmente, isso pode acontecer também. Só ficaria muito triste se chegasse um dia em que eu não pudesse nem mencionar o que foi feito de forma tão cheia de amor e honestidade pelo Coletivo ERER+. Como canta Chico, “afasta de mim esse cálice, pai”.

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