Como deve funcionar a escola comum na perspectiva da educação inclusiva

“Deixem de lado os judeus por um momento. Pensem noutra minoria, uma que… Que pode passar despercebida, se necessário. Existem minorias de todos os tipos, louras, por exemplo. Ou pessoas com sardas. Mas uma minoria só é reconhecida como tal quando constitui ameaça à maioria. Ameaça real ou imaginária. E aí reside o medo. E se essa minoria é de algum modo invisível… O medo é ainda maior. E esse medo é a razão pela qual as minorias são perseguidas. Portanto, há sempre uma razão. A razão é o medo. Mas, minorias são apenas pessoas. Pessoas como nós.”
A single man (EUA, 2009)

 

“La potencia nunca se realiza, no se materializa en cosa, es siempre devenir inacabado. […] Cuidar de la potencia como el fuego sagrado de los movimientos es una tarea cotidiana de todas y todos los que estamos empeñados en crear un mundo nuevo.”
(ZIBECHI, 2007)

 

Falar de educação inclusiva é ao mesmo tempo falar de uma educação que seja e esteja acessível para todas as pessoas, sem exceções, principalmente aquelas que historicamente e por muito tempo foram privadas do direito humano básico de estudar. Quando falamos de educação inclusiva, estamos falando não apenas de estudantes, mas de toda comunidade escolar. É preciso pensar no corpo docente, funcionárias, equipe gestora, famílias e, obviamente, que o corpo discente. Pensar como sendo engrenagens de uma máquina que só se realiza – com toda sua potência – quando todas as peças funcionam. Uma escola comum na perspectiva da educação inclusiva deve o ser de cima para baixo, de um lado para o outro, em outras palavras, em sua totalidade. Ninguém fica de fora ou entram num esquema hierárquico de valor.

Ambientes escolares inclusivos rompem com paradigmas conservadores construídos historicamente e “neles não se elege uma identidade como norma privilegiada em relação às demais” (ROPOLI; MANTOAN; SANTOS; MACHADO, 2010, p. 7). E como postula o Manifesto Freak (ANGEL, 2015):

“(…) A normatividade é uma ilusão  violenta que fizeram você acreditar que é a única verdade possível.”

E se entendemos que a educação é um direito de todas as pessoas, o direito à diferença também o é, nesse sentido, precisamos romper com a lógica do senso comum de que somos todos iguais. Nós não somos, nunca fomos e nunca seremos todos iguais. Uma sociedade onde todas as pessoas seriam iguais encontra eco com o nazismo e, espero que saibamos, o que isso significa.

Uma escola inclusiva deve funcionar compreendendo com lucidez e sensatez a história do Brasil e, especificamente, a história da educação brasileira. Entendendo essa parte, pode-se criar mecanismos e estratégias eficazes de combates à exclusão, inclusive a exclusão em seu nível máximo que é o extermínio de grupos de pessoas. Entendendo essa parte, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) deixa de ser um documento que para muitos é apenas um pedaço rebuscado de papel e se torna prática e política pedagógica cotidiana.

Temos hoje um importante aparato de leis, estatutos e declarações que postulam sobre a construção de uma educação com perspectiva inclusiva, resta agora esperar o levante do mutirão que irá efetivar o que está no papel. Utilizar essas ferramentas para que uma transformação poderosa possa acontecer.

O Projeto Político Pedagógico – PPP por sua vez tem o papel de colaborar com as demais ferramentas acima citadas, sendo – por sua vez – uma ferramenta também, uma vez que é construída por muitas mãos, corações e cabeças. Construindo a identidade das escolas, reconhecendo a comunidade escolar e, principalmente, como sugeriram Paulo Freire em Pedagogia da Esperança (1991) e o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, suleando – contrapondo o nortear – o desmonte das barreiras atitudinais, reconhecendo as nossas especificidades históricas enquanto país colonizado.

Por fim, pensando o Atendimento Educacional Especializado – AEE, que recebe o público-alvo da educação especial (estudantes com deficiência; transtornos globais do desenvolvimento; altas habilidades/superdotação) é um suplemento/complemento a formação das e dos estudantes (SANTOS, 2010, p. 17). Considera-se importante que o AEE seja realizado na própria escola da e do estudante, afim de que as especificidades possam ser atendidas e discutidas cotidianamente (SANTOS, 2010, p. 18). Nesse sentido é somar ferramentas para que a educação inclusiva não seja trabalhada isoladamente por instituições, mas que sejam atravessadas, cruzadas e se torne uma amálgama eficaz para colaborar com a formação de pessoas. De todas as pessoas e não só aquelas que julgam que merecem. Meritocracia é mato.

Referências

ANGEL, T. Manifesto Freak, 2015. Disponível em <http://www.frrrkguys.com.br/manifesto-freak/>. Acesso em: 01 nov. 2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1991

MUJICA, Jose. Discurso na ONU, 2013. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=9I-mYlbIvhk>. Acesso em: 01 nov. 2018.

ROPOLI, Edilene Aparecida [et. al.]. A escola comum inclusiva. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, Universidade Federal do Ceará, 2010. 48p. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar)

 

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