Entrevista sobre Singularis e Sauntering

Curso: Mestrado em Sociologia | Universidade: Universidade Federal de São Carlos

Qual o ano de produção?

Curiosamente as duas webséries estavam acontecendo quase que ao mesmo tempo. Eu tive uma reunião em São Paulo para conversar sobre a produção de uma websérie que ainda estava sem título. Com pouca diferença de tempo eu tive uma outra reunião em Belo Horizonte onde falamos em produzir uma websérie sobre modificação corporal também. Singularis começou a ser produzida em 2015 e finalizada em 2016. Sauntering começou a ser produzida em 2016 e finalizada em 2017. Em seguida já começamos a produzir uma segunda temporada, que está sendo divulgada agora no canal no Youtube do FRRRKguys.

 

Qual o intuito na produção desse material?

Singularis surgiu partindo de um convite do Carlos Esdras que acompanhava o que eu escrevia no site do FRRRKguys, então, veio com a ideia de criarmos conteúdo em vídeo e eu achei a ideia muito boa. Num primeiro momento o projeto ficou na geladeira, mas como o Esdras estava finalizando a sua graduação, percebeu que era possível unir o útil ao agradável. Foi quando decidiu produzir um material de audiovisual para o seu Trabalho de Conclusão de Curso e eu assumi o papel de orientadora fantasma. Já fiz isso algumas vezes.

Da minha parte com Singularis estava o interesse em criar mais espaços de diálogos sobre o corpo modificado e corpos dissidentes de modo geral, fomentando o debate e gerando novas reverberações sobre o que pode o corpo. Ao mesmo tempo, vi como mais uma oportunidade de pesquisar sobre o assunto e principalmente documentar essas histórias todas. O livro que escrevi A modificação corporal no Brasil – 1980-1990 (2015, Editora CRV) fez um pequeno recorte sobre essas histórias e sempre que eu puder ampliar essa discussão, assim o farei. Temos uma carência de registros sérios sobre a nossa comunidade, sobre a nossa história, como imagino que você saiba. Chegou o momento que queremos e conseguimos contar sobre nós em primeira pessoa.

Depois que finalizamos a primeira temporada, que o trabalho de conclusão de curso foi entregue e a turma se formou, nos reunimos para discutir sobre continuar ou não com a websérie. Escolhemos continuar, mas acabou não acontecendo. Acabou.

Sauntering surgiu do meu contato com o César Pessoa, que acabou se tornando uma pessoa muito especial e importante para mim. Digo isso porque nos conhecemos de uma forma inusitada. Eu fui fazer uma performance na Hurt Fest, evento mineiro voltado para suspensão corporal e organizado pelo meu amado Marcos Cabelo. Durante a performance eu vi que estavam filmando, inclusive em dado momento senti que chutei uma câmera…  (desculpa, Cesão!) Acontece… Quando acabou a performance, um dos moços que estava a filmar veio falar comigo, era o César. Ele me parabenizou, disse que tinha filmado e que depois me enviaria o material… Eu no calor e emoção da ação, agradeci muito, me desculpei pelo chute na câmera e disse que aguardaria… Não esperava que fosse ver esse registro, muitas vezes as pessoas registram as minhas performances, dizem que enviarão os materiais e eu nunca mais vejo isso… Acontece… Com o César foi diferente… Ele não só enviou, como enviou um dos registros mais fantásticos que eu tenho de performance. E o mais maluco é que não conversamos nada antes da ação, ele não tinha ideia do que iria acontecer e simplesmente tudo se fez. Mantivemos contato e ficamos com esse desejo de produzir juntos. Fizemos um outro trabalho, que eu tenho muito carinho e que se chama After All… E ficamos ainda querendo produzir mais… Sauntering vem disso, desse nosso desejo, desse nosso encontro bonito.

Em Sauntering o registro histórico é muito forte e tão forte quanto é o desejo de se falar sobre os corpos dissidentes e dos nossos afetos. Produzimos a primeira temporada em Belo Horizonte, a segunda em São Paulo… Temos planos de continuar e se isso acontecer, os nossos próximos passos serão em Brasília e Natal. Como é uma série 100% independente esbarramos nas questões financeiras e sobreviver ainda é a prioridade.

Tanto em Singularis como em Sauntering o desejo está em fomentar as discussões sobre o corpo modificado. Ao que parece tem dado certo, outros materiais estão sendo produzidos partindo dos vídeos… Pesquisas como a sua, palestras, debates e seguimos.

 

Como você acha possível que esse material seja utilizado contra modificados e modificadores?

Francamente eu acho pouco provável que esses materiais possam ser utilizados contra a nossa comunidade, muito pelo contrário, eu acredito no poder de quebrar visões estereotipadas e distorcidas sobre nossos corpos e práticas através da informação honesta e sincera. E tem sido bonito ver pessoas que nunca tiveram contato próximo com essa cultura de modificação do corpo, criando discursos melhores sobre as liberdades individuais. E tem sido mais bonito ainda receber mensagens de pessoas de diferentes regiões dizendo o quanto se emocionam e o quanto esses materiais melhoram a vida delas. Ora, isso preciso ser considerado. Ninguém pergunta ou liga se a gente está bem ou feliz, querem ainda nos enquadrar como o corpo perturbador e que como sina merece – então somente – o circo dos horrores ou os horríveis zoológicos humanos. A gente não aceita mais esse lugar.

Em Sauntering eu não senti em nenhum momento o peso de um possível prejuízo, porque embora estivéssemos obviamente falando sobre profissões e procedimentos, ao que parece se diluíram nas histórias. Um outro ponto é que trabalhamos com um tempo maior, o que é fundamental quando pensamos na carência de informações que temos. Sendo assim, a explicação não foi quebrada, ela acontece quase que em uma integralidade… É possível ter uma visão mais abrangente dos contextos todos. E precisamos disso.

Em Singularis eu já senti esse peso e cobrança. São 6 episódios – mais curtos quando comparados com Sauntering – e que receberam como título – cada qual – o nome de um procedimento. Não foi fácil receber algumas críticas. Principalmente porque fiquei com a sensação de que meus 10 anos de trabalho com o FRRRKguys, que é um trabalho sério e as pessoas sabem, não tivesse válido de nada. Recebi uns questionamentos bastante duros, mas enfim, foi parte do processo. O mais ruim é que essa cobrança toda aconteceu quando tinha saído apenas o primeiro episódio e que era um material de 10 minutos. E é complicado julgar tão durante algo quando não se viu tudo, mas eu entendo… Entendo a preocupação, entendo o ponto, só precisei de tempo para assimilar.

A minha resposta de modo geral na época e hoje é a seguinte, ainda vivemos em um país em que a liberdade de expressão é garantida ou pelo menos na teoria temos algo assim. Há riscos? Provavelmente sim. Mas eu – particularmente – assumi o risco. O risco faz parte da minha vida. Assumi-lo é ainda porque eu vivo com o risco há mais tempo do que eu gostaria e não me deram muitas opções de escolha nesse sentido. É assim que é quando você escapa do que consideram aceitável.

Um outro ponto crucial da questão toda e que eu não acredito que o que fazemos é errado. Eu entendo tudo o que fazemos como cultura, uma complexa e rica cultura. Outro ponto importante é que eu sou uma pessoa que milita pelos direitos humanos e a luta pela autonomia sobre o próprio corpo faz parte disso também. É claro que vai incomodar, é claro que criar ruído, é claro que vai criar desconforto, mas acho que esse é um pouco o meu papel. Enquanto uma pessoa que vive fora da bolha da normatividade compulsória eu sei que os ruídos são fundamentais para que se operem transformações. Novamente, eu sou uma militante pelos direitos humanos e, nesse sentido, a minha luta vai ser para despatologizar os nossos corpos, descriminalizar as nossas práticas e ponto. E sim, tudo isso envolve riscos porque você não está em acordo com o status quo. E sim, quero continuar não estando até o fim da minha vida.

Falando em viver… Tenho vivido uma vida ouvindo que eu sou doente, uma aberração, que minha vida está perdida, que eu vou sofrer no inferno, ou seja, que nem depois de morrer terei alguma dignidade… As pessoas jogam todos os tipos de pragas em mim por conta do que eu sou, elas torcem para que eu me dê mal. Ao mesmo tempo tenho vivido uma vida aprendendo a subverter essa lógica fascista e estúpida e transformar essa corrente de ódio em algo positivo, não só para mim… Sinto comigo que tem funcionado. O fato de estar nesse mundo ainda é um bom exemplo. Permanecer tem sido o meu ato de maior rebeldia em um mundo que gritou muitas vezes: não exista!

O meu trabalho é também a forma que encontrei de existir e resistir.

Antes de adquirir uma modificação como procurou o profissional adequado? O que significa pra você ser um profissional adequado para as modificações?

Quando eu comecei nos anos 90 não tinha essa ideia de ter um profissional adequado. Era o começo do piercing (da forma que conhecemos hoje) no Brasil, tínhamos zero informações. Fui em um estúdio no centro da cidade onde vivo, que para mim era sinônimo de qualidade. Na época não haviam muitos.

Hoje eu entendo que um profissional adequado é aquela pessoa que terá uma preparação específica e, principalmente, ética.

Hoje eu gosto de fazer minhas modificações corporais com pessoas que eu tenha algum tipo de afeto. Por estar no meio há algum tempo tenho essa facilidade e privilégio, isto é, profissionais com capacitação e que eu me sinta bem estando perto, que eu me sinta bem entregando o meu corpo.

Em algum momento pensou em procurar a medicina convencional?

Não. A medicina convencional no Brasil tem muitas questões que mais me afasta dela do que me aproxima. Mesmo quando doente é um lugar que evito transitar.

Ah! Ironicamente anos atrás fiz alguns piercings e tatuagens com uma dentista. Na realidade nossa relação começou quando fui alongar os meus caninos e criamos amizade… Ou seja, não procurei por ela para fazer piercing pelo fato de ser uma dentista. Aconteceu.

Conhece algum caso de alguém que adquiriu as modificações com algum médico?

Dentro do nosso recorte, já ouvi casos de tongue splitting com cirurgiões odontologistas. Um outro caso de um estrangeiro que removeu o mamilo com um cirurgião plástico. Creio que só.

Sabe se a medicina realiza as body modification?

Dentro do nosso recorte, não sei. Imagino que não. Mas não descarto que exista um caso ou outro, sigiloso obviamente.

Seria ideal se houvesse um canal de diálogo entre a comunidade da modificação do corpo e profissionais da medicina. No sentido de cuidado, de aprimoramento teórico e técnico, de redução de danos e essas coisas todas. Mas como eu disse acima, no Brasil existem problemas graves quando pensamos a medicina, resultado disso é um discurso patologizante e punitivista. Disputa pelo poder. Disputa pelo biopoder. Todas perdemos com esse esquema!

O que pensa sobre os desafios em ser modificadxr no brasil ?

É resistir e perseverar. É preciso estudar, é precisar se conectar, é preciso se proteger, é preciso estar atenta e forte. Estamos passando pela crise do conservadorismo no mundo, isso afeta as nossas liberdades individuais e o nosso acesso ao corpo. Estejamos atentas!

Acredita na possibilidade de uma regulamentação da profissão?

Profissionais da tatuagem e do piercing estão na luta para que isso aconteça. Acredito que isso possa acontecer sim. Para as demais modificações corporais, não e acredito que nem seja a pauta ou objetivo dessas pessoas.

Quais interesses você poderia identificar na restrição e tentativas de cerceamento/criminalização da execução das práticas?

Os interesses estão caminhando em conjunto com os desejos de controle da vida em si. Domesticar a vida, domar pessoas, é disso que se trata. É dizer quem pode viver. É dizer como devem viver. Ainda, da manutenção da demonização de práticas culturais das modificações do corpo que são seculares, como exemplo, a escarificação, a perfuração e a tatuagem. E sobretudo, é o interesse em fomentar a criminalização da pobreza. Sempre que for possível encontrar uma brecha para que isso aconteça, assim eles o farão.

É lucrativo haver uma sociedade completamente doente em que as pessoas estão completamente alienadas e desconectadas dos seus corpos. É lucrativo oferecer um único modelo possível de existência. E punir toda e qualquer pessoa que escape dessa lógica… A história tem nos ensinado duramente quais os lugares que os corpos dissidentes merecem ocupar: a vala aberta, a sombra, a margem ou qualquer canto para os malditos e malditas. Eu me recuso, eu não aceito e nunca, nunca estarei conformada com isso.

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Comments
2 Responses to “Entrevista sobre Singularis e Sauntering”
  1. sergioregis disse:

    Muito boa entrevista.
    Parabéns, Ti.
    Bjs

    Sérgio

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