Não desista, isso vai melhorar…

Foto: Flavia Valsani (2017)

“As pessoas perguntam pra mim: ‘Vem cá, quando você volta a trabalhar?’ É como se eu tivesse sem fazer nada esse tempo todo, né? Mas você cuidar dos filhos, você dedicar um tempo considerável da sua vida pra cuidar dos seus filhos é considerado nada. Cuidar dos seus filhos significa que você tá cuidando de pessoas, que vão ser futuros cidadãos, que o sujeito vai votar, o sujeito vai botar fogo no índio ou não vai botar fogo no índio. Você tá simplesmente trazendo gente… Você tá formando a humanidade, cara! E isso é nada! É absolutamente nada pra sociedade, entendeu?”
O Começo da Vida

“Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”
Paulo Freire

Não sei se escrevo esse texto para alguém ou para mim mesma. É bem provável que para os dois. Para mim, pois nos tempos sombrios e obscuros, quero e preciso ter para onde correr e palavras para me dar algum tipo de conforto. Para vocês, pois é preciso alimentarmos mutuamente as nossas razões para acreditar. Gostaria assim de começar dizendo – e vou me repetir ao longo do texto – para que não desistamos, isso vai melhorar…

Vinte e três foi o dia… Isso vai melhorar…

Esse ano a minha pessoa foi nomeada para ser interlocutora da Educação para as Relações Étnico-Raciais – ERER na unidade escolar em que trabalho. Na última sexta-feira (23), tivemos a primeira orientação técnica do ano para trabalharmos com essa questão. Para minha feliz surpresa recebemos a informação de que a partir de agora precisaremos ir além do ERER, isto é, ampliar o campo de atuação e dando atenção a toda forma de discriminação no ambiente escolar. Isso significa que teremos que pautar questões como diversidade de gênero, sexualidade, refugiados, migrantes, imigrantes, gordofobia, sexismo, pessoas com deficiência e as mais variadas formas de preconceito.

Um grupo com mais de 40 profissionais da educação pública recebendo orientação técnica para lidar com temas que dialogam diretamente com os direitos básicos humanos e colaboram diretamente com a equidade na educação. Uma manhã inteira discutindo sobre temas essenciais para a construção de uma sociedade menos desigual. Uma manhã inteira pensando em um trabalho de base, para que tenhamos um amanhã mais promissor ou no mínimo melhor do que o nosso hoje. Isso vai melhorar, não desistam.

Obviamente que em um grupo grande e tão diverso surgem divergências e discursos inflados de senso comum – que não deveriam existir em profissionais da educação, é verdade – do tipo “o mundo está ficando chato” ou do clichê “eu não tenho preconceito, mas…”, mas o espaço para esse tipo de pensamento é pequeno e sem muito poder de alcance. Sim, estou falando que vi esse discurso raso e datado ser engolido por professoras e professores comprometidos com a construção de um mundo mais plural.

Compartilhei com o grupo a minha angústia em saber que o ERER encontra apoio em duas legislações (as leis 10.639/03 e 11.645/08), mas as discussões sobre a diversidade sexual e de gênero já não teriam o mesmo suporte. Angústia principalmente por ter conhecimento do projeto de lei da “ideologia de gênero” de um vereador-pastor da cidade (projeto que foi devidamente “engavetado”) e por ter conhecimento da onda conservadora do país que tem lutado para barrar essas discussões em todos os espaços. Recebi conforto em saber que teríamos respaldo legal nesse sentido. E mais do que respaldo legal, ao que parece existe uma corrente forte e lúcida que entende a necessidade de se enfrentar as desigualdades oriundas justamente pela falta de discussão desses temas.

Falamos sobre a importância do nome social para as pessoas trans* e travestis, discutimos o uso do banheiro para essa população que precisa estar nas escolas. Estávamos ali pensando em formas não violentas para construção de um ambiente escolar de fato inclusivo e acessível. Isso estava mesmo acontecendo? Sim estava. Pensei em punhado de gente que precisava saber disso e sorri por dentro.

Lembrei do meu tempo de Cursinho da Poli, das constantes piadas LGBTfóbicas dos professores (sim, professores, homens, cisgêneros e heterossexuais) e da resposta polida e ineficaz que recebi da direção da época, a qual guardo até hoje… Voltei mais no tempo e lembrei do meu tempo enquanto estudante, da frase da diretora que eu precisaria mudar para não sofrer violência naquele espaço, do medo que me acompanhou naquela época, da raiva pela negligência daquela instituição… E com essas memórias só reafirmei a minha ideia de que a sociedade é quem precisava mudar e vai mudar. E acreditem, já está a mudar, talvez em uma velocidade menor do que necessitamos, mas está em processo. Sai da orientação técnica com a cabeça fervilhando de ideias para empregar na escola.

Vinte e três realmente foi o dia…

Na sexta-feira passada (23) também se iniciou o curso Gênero, sexualidade e diversidade sexual: desafios para a escola contemporânea – 1ª Edição/2018 da Secretária da Educação do Estado de São Paulo. A primeira informação que quero trazer é que o curso oferecia 6 mil vagas e que foram todas preenchidas em apenas 24 horas. O prazo de inscrição seria de 29/01 a 09/02/2018, no entanto, as vagas acabaram já no dia 30. Entendam o que isso significa: são 6 mil profissionais da educação estudando sobre gênero, sexualidade e diversidade. Vocês entendem agora o efeito disso na multiplicação de base? Vocês entendem os efeitos positivos disso na luta real contra as violências, segregações, exclusões?

Eu iniciei o curso na sexta mesmo e estou a finalizar o primeiro módulo… São muitas vídeo-aulas, vídeos complementares, textos e sites para visitar e mesmo eu que já tenho uma familiaridade com o assunto, tenho aprendido muito, muito, muito…  Tenho aprendido mais sobre gênero, sexualidade e diversidades e sem dúvida alguma vai reverberar positivamente em minhas aulas e obviamente que na minha cidadania. E oxalá que eu seja uma pessoa melhor, todo dia um pouquinho melhor.

Preciso mencionar que as vídeo-aulas tem o recurso de LIBRAS, o que por si já é importantíssimo. E feliz ainda em perceber que uma das intérpretes é uma mulher com inúmeras tatuagens visíveis (braço, antebraço, mão). E já que falamos sobre tatuagem, uma das pesquisadoras do Núcleo de Estudos Sobre Marcadores Sociais da Diferença – NUMAS/USP e que ministra algumas das vídeo-aulas também tem variadas tatuagens visíveis pelo corpo, um braço todo quase fechado em belas tatuagens pretas.

Escrevo tudo isso agora, porque a gente é bombardeada todo dia por notícias carregadas de ódio e sangue e que nos deixam com receio do futuro. Deixa-nos com a sensação de que nada está sendo feito e que estamos entregues para nossa própria sorte. Sei – por experiência própria – que esse sentimento adoece a nossa mente e espírito… Justamente por isso trago essas notícias, para que nós não deixemos morrer a esperança e que a nossa luta diária não esmoreça pelo cansaço. Tudo o que fizeram no passado pela diversidade e tudo o que estamos fazendo agora tem implicado em mudanças. Eles querem que a gente desista e estão trabalhando com todas as forças para que isso aconteça. Mostremos – como já estamos fazendo – que juntas, juntos e juntes somos invencíveis.

Não desistam, isso vai ficar melhor. Acreditem!

Ps. E ainda tive a alegria de encontrar um amigo de faculdade e vida na orientação técnica. Um professor da rede pública que me enche de esperança, orgulho e força. Daniel Sousa, querido, que bom te rever nesse contexto.

 

REFERÊNCIAS
Vereador apresenta projeto para proibir “ideologia de gênero” nas escolas de Osasco.
https://www.visaooeste.com.br/vereador-apresenta-projeto-para-proibir-ideologia-de-genero-nas-escolas-de-osasco/

Vereador “engaveta” projeto que proíbe discussão de gênero nas escolas de Osasco.
http://webdiario.com.br/noticia/14426/vereador-engaveta-projeto-que-proibe-discussa

MEC autoriza uso de nome social na educação básica para travestis e transexuais.
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-01/mec-autoriza-uso-de-nome-social-na-educacao-basica-para-travestis-e

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