E agora sem Dolores…

“Aahh, you and me will always be
You and me forever be
Eternally will always be
You and me”

Existem artistas que mudam completamente a nossa vida. Dolores O’Riordan, vocalista da banda The Cranberries, é uma delas. As músicas virais que eram executadas nas rádios marcaram a minha infância. Era gostoso ouvi-las. Mas foi na adolescência que a relação se transformou em amor puro. E a MTV Brasil, que pegava muito mal em casa, ajudou nessa construção toda.

Em meio ao caos (no bom sentido) da vida noturna e música eletrônica, havia The Cranberries atravessando aquelas experiências todas. Era a música que sempre me acompanhava em casa, nos passeios de carro com o meu pai, nas viagens para praia com as amigas e amigos. Acompanhava a calmaria e também meus porres homéricos nas praças e ruas e bares da cidade e na minha cabeça eu adorava imitar o jeito estranho que a Dolores dançava. Eu particularmente adorava me embriagar e depois cantar, cantar e cantar alguma música The Cranberries. É uma das poucas bandas que fiz questão de aprender todas as músicas, embora não seja meu idioma materno e que eu cante a maioria delas de forma errada. Quem liga? Foi por essa banda que quis estudar mais inglês e, de fato, enriqueci meu vocabulário no idioma.

O amor começou antes da internet, CD era caro e DVD tanto quanto. Eu e as amigas e amigos da época trocávamos fitas k7 gravadas, depois CDs e o empréstimo circulava forte. Depois da internet tudo se facilitou e consegui acessar tantos outros trabalhos da banda e da Dolores sozinha. Essa parte da história foi maravilhosa e revolucionária. E mesmo assim não me desfiz dos CDs piratas e originais da banda, existe ali um valor sentimental forte para mim. São os encartes amassados de tanto que eu lia e relia e alguns que carregam mensagens de amor de outros tempos, foram presentes. Foram presentes.

De todas as músicas que eu ouvia com meu pai, You & Me era sua favorita. Ele nunca soube da tradução completa, mas algo ali tocava o coração dele. Certa vez chegamos em casa, ele parou em frente de casa para guardar o carro, quando eu fui abrir o portão ele pediu para que eu não descesse até a música acabar. Ficamos ali dentro do carro com um sorriso bobo na cara ouvindo a música até o fim. Essa memória é muito viva na minha cabeça.

Toda vez que eu cortava o cabelo muito curto ou o Andy, meu melhor amigo, cortava o dele, nos chamávamos de Dolores. “Olha, bem Dolores“, dizíamos. Ela era nossa referência não só musical mas estética também. A gente queria ser um pouco Dolores nessa vida. E fomos.

Das namoradas e namorados que tive na vida, que não foram muitas e muitos é verdade, as canções de The Cranberries estiveram presentes. Meus diários antigos estão cheios de The Cranberries. Minhas cartas, minhas rabiscadas, meus desenhos. As minhas memórias das minhas paixões juvenis são atravessadas pelas músicas de Cranberries. Lembro do quanto eu chorava ouvindo Empty, Shattered, Twenty-one e No Need To Argue, pensando no menino por quem eu fui perdidamente apaixonada por anos. Lembro do quanto War Child me ajudou a perceber que algo de muito errado havia no mundo. Curiosamente a ouvi essa semana e pensei no quanto ela ainda era uma canção atual. Lembro do quanto enlouquecia no Grind ouvindo Salvation. Lembro do quanto You & Me foi ressignificada depois que meu pai faleceu em 2008. Lembro que no meu último namoro a canção Roses fazia muito sentido e eu a ouvia como quem devora esfomeadamente um prato de comida. E toda canção se eu parar para pensar vai acender uma memória outra. E depois outra.

Lembro que todos os clássicos Zombie, Linger, Ode to my family e Dreams sempre me davam um estalo no ouvido, do tipo, isso me é muito familiar. O mesmo estalo que tive ontem na hora que entrei para ler o e-jornal e descobri que Dolores O’Riordan havia falecido. E sei que pode soar estranho, porque embora ela nem pudesse imaginar que eu existisse, para mim era como se ela fosse da família. Corri para escrever ao Andy e lamentar essa partida, pois ele me entenderia como ninguém. Nossos corações se quebraram.

A pior parte de envelhecer tem sido essa coisa de olhar para trás e ver as luzes se apagando e os caminhos ruindo. Tudo se tornando um punhado de memórias que só faz sentido para mim e que também irão desaparecer no dia em que a minha luz apagar e eu – como caminho – ruir. E nessas horas eu tenho vontade de correr, enquanto tudo para trás desmorona. Mas como em um sonho ruim, não há velocidade e apenas uma incomoda vontade de correr somada da consciência de que ei de ser devorada pelo nada também.

Sinto muito que ela tenha partido tão cedo, para mim Dolores seria dessas pessoas que nunca morre. Agradeço a oportunidade de ter vivido em seu tempo, ainda que todas as contradições desse nosso tempo nos arranque pedaços e, como não somos Prometeu, perecemos.

Vai fazer muita falta!

 

 

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