TRINTA E SEIS

Estranho. Quando completei trinta e cinco anos eu tinha certeza que a minha vida mudaria muito dali em diante. Era uma sensação tão forte que escrevi sobre ela no texto TRINTA E CINCO. E a vida mudou.

Eu sai de casa para morar só. Com o Coragem, no caso. Com as plantas, no caso. Com os livros, no caso. Com os pássaros que aparecem na área. Com o gato que dorme sobre as telhas. Com a minha sombra, o meu barulho, o meu silêncio. Eu não sinto solidão. Eu sinto paz.

Sair de casa foi uma decisão muito acertada e que melhorou muito a minha qualidade de vida psicofísica e espiritual. Óbvio que eu tinha insegurança, mas em nenhum momento tive medo. E essa sensação de passar sem medo por uma experiência nova é fantástica. Estou muito feliz na casinha.

Eu comecei a lecionar pelo Estado. Ou eu voltei a estudar no Estado, pois eu sinto que mais tenho aprendido do que ensinado. Tem sido a experiência mais forte que vivi e que jamais achei que fosse viver. São relações poderosas que estouraram as grades e muros da escola. Mudou completamente a minha relação com o espaço onde vivo na periferia de Osasco. Esse lugar onde já me atiraram pedras, palavras de ódio e debocharam incontáveis vezes de mim se transformou. Os gritos de ofensas foram trocados por “oi, prô”, “bom dia, professor”, “não acredito, prô!”, “prof, seu lindo” e todas essas acenadas para me abençoar na caminhada. Antes me gritavam bicha e hoje me gritam afeto.

Eu poderia escrever tantas coisas que mudaram na minha vida, mas escolhi me concentrar nessas duas para não me estender e por entender que elas foram as grandes forças que me ajudaram a mudar todo o resto. Eu mudei.

Eu estou em paz. Obviamente que não o tempo todo, ainda bem, mas estou em paz o tempo necessário para ter uma vida muito boa. Para ter vontade de viver. Uma vontade que há muito eu não sabia o que era. Encontrei equilíbrio e isso foi difícil, dolorido e tenho consciência que preciso tratar essa conquista com carinho e atenção.

Eu estou feliz. Obviamente que não o tempo todo também. E é engraçado, veja, quando algumas coisas boas começaram a acontecer na minha vida ano passado, eu desconfiei. Não sabia mais lidar com essa sensação. Desconfiei se eu merecia. Desconfiei se eu poderia ser feliz. E agora fico a questionar que mundo miserável é esse que faz com que não saibamos lidar com a felicidade e pior, recusá-la, sabotá-la. E na realidade eu tenho conquistado essa felicidade por também recusar todos esses modelos normativos de vida que nunca me serviram, nunca. Agora eu aprendi a escolher do que quero participar e aprendi que muitas coisas eu tenho que modelar com as minhas próprias mãos, e assim tenho alcançado as formas de viver que melhor se adaptam ao que me faz bem. Aos poucos eu tenho conseguido comemorar todas essas mudanças e celebrar essa felicidade. Eu já fiz as pazes com a minha consciência e aprendi aceitar o que de positivo essas mudanças todas estão a me trazer.

Eu sei que só estou no começo das mudanças que senti. Eu sei que vou viver coisas intensas ainda. Eu sei que a vida vai seguir mudando. Eu vou seguir mudando. Eu sigo sonhando muito. Eu sigo brigando muito todos os dias. Eu sinto que estou mais prudente. Eu sinto que a minha sede em me tornar um ser humano melhor não tem fim, ela só aumenta. Eu sei que a vida passa rápido demais. Eu não sei lidar com a velocidade do tempo. Eu não sei lidar com as despedidas. Eu sei que essas palavras se tornarão velhas na velocidade com que pisco os meus olhos. Eu sei que há muito para construir. Eu sei que há muito para desconstruir. Eu sei que vivi muito mais do que eu esperava. Eu sei o que eu não quero ser. Eu faço amor com essas energias que a vida tem me enviado. Eu não arredo o pé. Eu danço. Eu canto. Eu escrevo. Eu desenho. Não tenho pressa. Não tenho medo. Eu estou aqui hoje e fico feliz em escrever com tamanha sinceridade que chego nessa idade de uma forma muito melhor do que eu poderia imaginar.

Eu sou exatamente aquilo que eu quero ser.
Eu vivo exatamente aquilo que eu quero viver.
E isso tudo tem sido o melhor presente que eu poderia me dar aos trinta e seis.
Dignidade. Autonomia. Simplicidade. Paz.
Sigo a caminhada.

Comments
2 Responses to “TRINTA E SEIS”
  1. Coração, feliz aniversário. Que lindo texto, que lindas palavras e que incrível trajetória tem sido até aqui, não? Difícil em muitos momentos, mas gratificantes em tantos outros que a gente – que tá de fora – até suspira ao acompanhar.

    Não nos vemos mais, nossas vidas mudaram, nossos caminhos foram para outras curvas, mas o carinho e a admiração continuam ENORMES… Taí algo que não mudou. ❤

    Feliz aniversário, Thi. Mais suspiros, mais sorrisos, mais amor. Você é luz.

    • T. Angel disse:

      A coisa mais bonita é ler suas palavras e conseguir ouvir sua voz! ❤
      Você vai estar sempre no meu coração, sua linda. Sempre! Sempre!

      Obrigada por tudo! ❤

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