Memórias que sobraram da infância

“Mierzwiak! Please let me keep this memory, just this one.”
Joel in ‘Eternal Sunhine of the Spotless Mind’

Na minha infância eu escrevia peças de teatro, músicas, inventava coreografias e movimentava as crianças da rua em que vivo. Na verdade eu fui uma criança muito inventiva ou boa contadora de histórias ou não sei muito bem como, convincente.

Nessa mesma infância eu, criança, era apaixonada por monstros e monstras. Bruxas, vampiros, lobisomens, múmias e, desde aquela época, a criatura de Frankenstein. Naquela época infante a relação era de fascínio e medo.

Certa vez escrevi uma peça cômica sobre monstros. Não me lembro de absolutamente nada do texto e infelizmente não há em canto algum desse mundo azul um registro disso. Sobrou esse punhado de memórias bagunçadas em minha cabeça e na cabeça de um colega ou outro, que pelas curvas das vidas não tenho mais contato algum. Sei que sobrou memória além da minha, pois uma moça que fez parte disso, daquela infância, encontrou com minha mãe no ano passado e disse “lembra da época que a gente fazia teatro em sua casa?

Ora, esse punhado de memórias aos poucos vai ficando cada vez mais distantes, perdidas, borradas… Talvez por isso eu escreva agora. Depois que vivi o Alzheimer tão de perto, com minha vó, tenho receio que essa memória suma de vez e ao menos ela eu gostaria de guardar. Explico-me: por isso escrevo.

Embora eu não tenha memória do roteiro, sei que a protagonista era uma bruxa e que, inicialmente, não seria eu a pessoa a interpretá-la. Ensaiamos duramente por vários dias na sala de casa e era um tempo inocentemente bom. Preparávamos os figurinos, algumas roupas velhas que me enchiam de alergia e me disparavam crises de asmas horrorosas e que hoje soa divertido lembrar. Sapatos velhos. Lembro-me também que muita coisa era feita de papel. O papel crepon era ouro e servia para tudo, era o meu material favorito.

Eu tinha muita segurança com o que estávamos fazendo e mais do que isso, eu tinha vontade de compartilhar aquilo que estávamos nos dedicando tanto. Certo dia – com a cara e a coragem – bati na porta da escola que é vizinha de minha casa. Entrei na sala da diretora, me apresentei, contei a ideia do que estávamos fazendo e pedi para ela um dia em que pudéssemos apresentar a peça para alunas e alunos da instituição. Ela aceitou.

Não lembro exatamente o que houve com o garoto que faria a bruxa, mas acabei ficando com o papel. Eu, a bruxa. Comprei uma peruca feita de fios de plástico cinzas metalizados e compus o figurino com aquele monte de roupa velha que provavelmente havia pegado de minha vó ou mãe. Eu engasguei muitas vezes com os fios dessa peruca, desde então tenho um certo trauma com elas e ao mesmo tempo um saudosismo gostoso que só fui me dar conta quando saiu o vídeo Varúð do Sigur Rós.

No dia da apresentação, arrumamos o teatro de cimento da escola com o pouco que tínhamos e podíamos. Curiosamente essa memória eu tenho muito viva, recordo-me como se fosse agora que desenhei uma janela em uma cartolina branca e colei ao fundo do teatro, onde também havia pregado uma lua feita com cartolina e papel alumínio. O cenário. É muito estranho como algumas memórias permanecem tão vivas enquanto outras desaparecem. Brincam de esconde-esconde em nosso cérebro.

Lembro das professoras chegando com as turmas em fila. Lembro que eram várias crianças. Não lembro mais nada depois disso. Não lembro nada durante a apresentação, tão pouco da desmontagem. Lembro vagamente dos aplausos e que as crianças se divertiram, elas que assistiam e nós que atuávamos.

Cheguei em casa com um punhado de sacolas e essa memória é bastante viva também. Contei para minha mãe como tinha sido tudo, com um orgulho de alguém que tinha dirigido algo primoroso. Reclamei que estava com dores no corpo todo, como se tivesse apanhado, precisava dormir. Ela sorriu e disse que tinha sido o nervosismo e a ansiedade. Concordei e de fato cai na cama. Dormi o sono dos sonhos.

Dias depois andando pela rua, um menino passou por mim e disse “olha a bruxa” e sorriu. Ele provavelmente havia visto a peça. Senti um ligeiro orgulho sobre mim e essa lembrança é fresca. A sensação ainda permanece boa.

Sigo escrevendo, sigo inventando, sigo usando sucatas e coisas valiosamente velhas em minhas produções artísticas, gosto de saber que as coisas têm tempo, histórias e lendas. Percebo que em alguns momentos ainda tenho a coragem daquela criança que bateu na porta da escola e pediu o palco para diretora, só que agora tenho batido em outras portas, o palco para mim é o mundo. Um portal para outros mundos.

Por amar e entender tanto as monstras e monstros me tornei uma. Veja você…. Ainda chego em casa com muitas sacolas nas mãos, tantas que muitas vezes nem consigo carregar. Tem dias que as dores no corpo são maiores do que em outros. Minha mãe tinha razão sobre o nervosismo. E a ansiedade. Chego na mesma casa e embora tanta coisa tenha mudado, guardar essa memória é costurar uma trajetória que não começou hoje e nem caiu do céu tal qual a maçã que cai da árvore. Ao menos essa memória eu quero guardar. Cautelosamente guardar.

T.

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