Trinta e cinco

“Today you’re young
Too soon, you’re old
But while a voice within me cries
I’m sure someone may answer my call
And this bitter earth
Oh may not
be so bitter after all”
Dinah Washington

A verdade é que na maior parte do tempo eu me sinto uma pessoa mais velha do que sou.  É estranho, mas já me acostumei com essa sensação. Não sei se já escrevi sobre isso antes, mas enfim, escrito está. É como se eu já tivesse vivido bastante ou o bastante e é também verdade que tem horas que penso: mas são só os meus trinta e poucos? Esboço um sorriso. E talvez eu vá pensar ainda assim quando eu chegar nos quarenta, cinquenta, sessenta anos, caso eu viva esse tanto. Ao menos fará mais sentido ou não, sabe-se lá.

Quero dizer com isso que os trinta e cinco não me assustam e nem me envergonham, como os dezoito, os vinte e poucos o fizeram. O que é libertador por vários motivos. Eu me sinto tão bem com trinta e cinco e é gostoso sentir esse poder correndo por todo o meu corpo. Correndo e escorrendo além do próprio corpo. É…

Falando em corpo… Quando completei vinte e cinco anos fiz a performance Re-birth 2.5 e entrei em um ciclo de intensa transformações, o que não era de todo programado, embora eu tivesse sugerido uma morte e um renascimento partindo da ação. Das transformações todas destacaria o veganismo, a morte de meu pai, o ateísmo e a minha graduação em História. Dos vinte e cinco anos em diante eu me transformei radicalmente em vários aspectos e suspeito que as pessoas mais próximas de mim tenham percebido.

Agora completo trinta e cinco. Não há uma performance para marcar essa passagem, mas sinto que entro em um novo ciclo de transformações intensas e profundas e é meio curioso esse sentimento de Cassandra. Intuição, nunca falha. Por isso escrevo agora. Essas palavras são o meu rito de passagem e ao mesmo tempo um marcador de memória. É fantástica essa possibilidade da gente sempre poder se rever e se reinventar e tenho levado isso muito a sério, sempre.

Gostaria de dizer para vocês hoje que estou bem comigo. Estou bem com a minha cabeça, com o meu corpo, com a história que construí, com as redes de afetos que tenho movimentado. Ainda posso deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente. Posso andar em qualquer lugar de cabeça erguida e em paz comigo e com os demais, com a plena certeza de que tenho vivido mais próximo daquilo que acredito e prego. Que tenho vivido de forma digna e respeitando e promovendo a dignidade de todas as pessoas. Quando se é muito jovem – ao menos para mim foi assim – não se tem isso muito claro. Eu, por exemplo, estava ali vivendo meus treze, dezesseis e vinte e uns anos sem racionalizar muito o efeito de tudo aquilo em longo prazo. Mas depois, com os anos, você percebe que tudo o que se faz ao longo da vida, pesa e eu estou feliz que esse é um peso que gosto de carregar. É um peso de histórias e memórias e não um fardo. É um peso que é repertório de vivências. Um peso que gosto de carregar e espalhar sobre a mesa, contar para as pessoas em palestras, aulas e na mesa do botequim. Contar e sem vergonha e arrependimentos de ser aquilo que me propus a ser enquanto pessoa.

Ao longo de todos esses anos tentaram de todas as maneiras me deslegitimar enquanto sujeito histórico e atribuíram repetidas vezes o clichê “é só uma fase, vai passar”, que na realidade queria dizer “você vai voltar ao normal”, que na realidade queria dizer “você precisa atender os nossos interesses e entendimentos do que uma pessoa pode ser e fazer”. Assim, ao longo desses meus trinta e cinco anos tentaram me fazer acreditar que a minha sexualidade era uma fase, que a minha relação com a minha identidade de gênero era uma fase, que a minha relação com o veganismo era uma fase, que a minha relação com as modificações corporais eram uma fase, que a minha relação com o ateísmo era uma fase… Que a minha relação com a arte era uma fase…  E hoje, no exato dia em que completo trinta e cinco anos de vida, faço questão de deixar uma sonora gargalhada para todas essas pessoas.  Vocês todos e todas erraram, e como disse a Madonna em um de seus últimos poderosos discursos – e por favor, não estou me comparando com ela, estou emprestando a sua palavra por sentir que faz sentido para mim nesse momento -,  “acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui (…) eu continuo aqui”. Eu continuo aqui.

Muito obrigada para todas as pessoas que passaram pela minha vida ao longo de todos esses anos. Muito obrigada de coração.

A hora de trocar de casca é agora.
O casulo começa a rachar a partir de hoje.
Vem vida, vem nova vida vem. Feliz trinta e cinco.

Amor, T.

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