Memórias da periferia

Osasco, 28 de Novembro de 2016.

Noite. Um bafo meio frio e meio quente beija o rosto, balança gentil e suavemente o cabelo. Cruza a rua, subindo com passos largos, descendo com passos mais largos e mais rápidos, impulso da gravidade, uma corrida contida. As memórias penetram na pele como flechas. A gravidade. Arrepios.
– Eu preciso escrever sobre essa sensação, eu preciso escrever sobre essas memórias. Penso enquanto caminho entre fantasmas. Tornei-me fantasma também. É sempre assim.
A rua é um morro e no meio disso eu deixei um pedaço do meu joelho ralado. Na infância. Corri mais do que meu corpo poderia aguentar e cai. Esfreguei minha carne no asfalto. Abriu-se aquele pedaço de carne vermelha. Essa memória é um fantasma. Ouço como um eco distante as minhas brincadeiras de infância. Vejo como sombras em minha cabeça aquelas e aqueles que aqui não estão mais. Um dia também não estarei, penso.

Era tudo mato naquela parte mais íngreme, que desço e subo todos os dias. Ponto de desova de outrora. Pulava o córrego para chegar na escola, quando a chuva não castigava em demasia. Lembro da primeira casa e a sensação de segurança, sabe-se lá porquê…

É tudo escuro. Não há ninguém na rua, só eu… Um cachorro late ao me ver passar. O vento me beija mais uma vez. Olho para trás e só há o vazio.

______

Foto: Rafaele Garcia, 2012.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: