Entrevista sobre a demonização do corpo modificado

Curso: Ciências Sociais | Universidade: Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

1.Nome (o nome que eu possa escrever no relatório), idade, e quando  e de que maneira entrou em contato com a bod mod; quando fez a primeira intervenção corporal (no caso implantes, bifurcação ou alguma dessas)
*no seu caso específico se puder me contar da onde veio o nome T Angel :

Eu sou T. Angel, esse tem sido meu nome há um tempo e gosto dele. Cortei propositalmente o artigo definido, uma vez que não me reconheço dentro da norma binária de gênero. O que significa que você pode escrever sobre mim como “a” ou “o”, onde a minha preferência é pelo encontro de uma possível forma neutra, embora conheça as dificuldades de nossa língua em fazê-lo. Esse nome surgiu como parte de minhas vivências e histórias pessoais. Em resumo, eu tenho vivo em minha memória uma imagem onde eu caia do céu. Quando eu era criança, minha mãe conta que eu vivia cantarolando uma música (que não existia) e quando me questionavam de onde era a tal canção eu afirmava que era o que tocava enquanto eu caia do céu. Infelizmente naquela época os recursos audiovisuais tecnológicos não eram como agora, com isso não tenho registros dessas minhas ações, é apenas uma história oral. A música eu não me recordo mais, mas a imagem da queda é ainda muito clara na minha mente.

Explicado de onde veio meu nome, quando comecei a fazer os meus primeiros trabalhos com arte, passei a assinar como T. Angel e assim ficou. Além da minha mitologia pessoal, a figura do anjo sempre me despertou interesse, por não terem uma definição de sexo e gênero e toda mitologia que ronda essa figura no cristianismo também me interessam, embora hoje eu seja uma pessoa ateia.

Eu tenho 34 anos. Minha história com as modificações corporais – piercing, tatuagem, etc – começou ainda na minha adolescência, algo como vinte anos atrás. Sempre tive interesse por corpos não normativos e na minha adolescência entrei em contato com movimentos de contracultura e tudo se tornou possível. A primeira intervenção em meu corpo além da tatuagem e piercing, foi com a escarificação feita com ferro quente (branding) em 2002. Em 2006 fiz meus primeiros implantes subdermais no peito. No ano seguinte fiz implantes transdermais na testa, como chifres cibernéticos (mas que na realidade o plano era construir uma auréola cibernética) e também bifurquei a língua.

2. Já foi constrangido por nomes pejorativos publicamente? Já foi chamado ou associado ao diabo? Se sim, por favor me conte uma experiência que mais marcou.

Incontáveis vezes. Na minha adolescência precisei correr muitas vezes para não sofrer violência física. Sofria ameaça na escola ao ponto de ter que pedir ajuda para direção, onde a orientação que recebi da instituição era para que eu não fosse mais usando meus piercings, ou seja, me culparam pela violência a qual eu estava sendo submetida. Fui em busca de outras escolas para poder estudar sem sofrer uma violência maior, mas era já o fim do meu segundo grau, optei em permanecer ali mesmo. Curiosamente eu volto no próximo ano para lecionar nessa mesma instituição onde vivi esse tipo de situação. Irônico, não?

Nos anos 90 era muito comum as pessoas passarem por mim e se benzerem. Ser chamado de diabo e demônio era muito comum, assim como ouvir que eu tinha algum tipo de demônio dentro de mim e por isso eu era daquela forma. O meu corpo era sinônimo de tudo aquilo que era ruim. Hoje essa relação ainda existe, principalmente agora com o fundamentalismo religioso. Então é muito comum pessoas virem até mim para dizer que Jesus me ama ou que ele vai me salvar ou coisas do tipo. Quando isso acontece me sinto profundamente invadida, colonizada, violentada e não tenho mais a mesma paciência e simpatia que já tive no passado.

3. Você compreende a categoria diabo como sendo de origem religiosa?

Dentro das minhas vivências e ofensas que tenho enfrentado a categoria do diabo surge através de um viés religioso judaico-cristão, antes mais de grupos católicos e hoje de evangélicos de variada denominações. Que obviamente está amarrado com a ignorância e falta de contato com a pluralidade humana, que não é só estética, mas é também mística, religiosa.

4. De que maneira você pensa que a bod mod dá um novo significado a categoria diabo? O que essa categoria pra você significa dentro da bod mod?

Eu sou um anjo!
Eu acredito que a body modification tem o poder de gerar novos significados em inúmeras esferas das humanidades. Não sei muito sobre novos significados para a categoria do diabo, mas sobre pensar o que um corpo humano pode ser. O belo, o feio, o monstro, tudo isso tem sido repensado e sinto que as modificações corporais tenham uma participação importante nisso. Veja, chifres até pouco tempo atrás era predominantemente ligados com a figura clássica do diabo cristão e de repente vemos um monte de pessoas com diferentes discursos carregando seus chifres nos mais variados lugares. O mais importante é que paremos de fazer tábula rasa da vida em sua grandiosidade e os chifres que forjamos em nossos corpos clama por isso. É urgente que a gente saia desse senso comum bobo que só reduz a nossa potência e existência. Estamos no século XXI e precisamos entender isso.

5. Possui alguma formação universitária? Você trabalha com modificação corporal? Acredita que para um corpo modificado a sociedade só da legitimidade de trabalho para quem continua nessa área (percebe que o mercado de trabalho se fecha para corpos modificados)?

Eu tenho graduação em História. Trabalho com a parte da teoria das modificações corporais. O mercado de trabalho é fascista e completamente fechado para todos os corpos que não estão no padrão branco, heterossexual, cisgênero  e magro. O mercado de trabalho é capacitista, sexista, elitista e por isso temos as políticas públicas para tentar arrumar esse erro, essa aberração cognitiva. A body modification é apenas a gota que transborda o gargalo desse sistema violento, que precisa ser combatido. Recentemente foi publicado um material muito importante sobre isso pelo Governo do Paraná, onde os recrutadores analisam pessoas brancas e negras e fica muito evidente o racismo que ronda esse sistema. Há muito trabalho para ser feito e essa situação é uma daquelas que não podemos fingir que não está acontecendo, o enfrentamento precisa ser direto e diário.

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