Veganismo e musculação

Tenho recebido há um certo tempo algumas perguntas, dúvidas ou mesmo pedido de dica e ajuda sobre a questão do veganismo e musculação, pois bem, pretendo tentar responder tudo por aqui, embora já tenha feito individualmente quando fui solicitada. Caso falte alguma coisa ou surja alguma nova dúvida, escreva nos comentários e vamos dialogando, combinado? A ideia é que esse texto possa colaborar um pouco em seus processos de transformação social e corporal.

Vamos lá. Acho muito importante esclarecer antes de me adiantar que não sou uma pessoa especializada e/ou profissional da área da educação física e nutrição. O que escrevo aqui é o que tem funcionado para mim, é a minha experiência e, por favor, não encarem como nada além disso. Na dúvida, busquem ajuda de profissionais.

Estou nas vésperas dos meus 35 anos de idade e essa informação é importante na somatória de todas as demais. Tenho nove anos de veganismo e é o mesmo tempo em que venho praticando atividades físicas, principalmente a musculação (além do alongamento e outras coisinhas mais).Tudo começou lá em 2007. Irei mais adiante falar da relação das duas coisas em minha vida, mas antes de tudo acho mais didático falar de todas elas separadamente.

O VEGANISMO
A minha relação com o veganismo é da ordem da ética e acho bastante equivocada e reducionista a ideia de entender o movimento, tal qual ele se apresenta, apenas como uma dieta. Estamos falando da libertação animal, percebe?
É verdade que desde sempre tive dificuldade em me alimentar de carnes, mas não foi esse o motivo que fez com que eu me tornasse vegan. Essa escolha não era só sobre o que me faria bem ou não, na realidade era uma escolha que eu estava tomando mas que não era necessariamente pensando em mim ou sobre mim. Eu entendo que só me tornei uma pessoa de fato vegana através de um processo de intensa conscientização, que é sobretudo política. Percebo que muitas pessoas veganas – assim como eu – trabalham arduamente para desvincular a ideia do veganismo como dieta. O veganismo é pelos animais, não é sobre ser mais saudável, mais magra, mais jovem, mais atlética, mais bonita (o que é tão subjetivo) ou qualquer coisa que o valha. Inclusive precisamos estar bastante atentas e atentos quando o veganismo é usado como pano de fundo para fazer manutenção da gordofobia (dentre outras violências), sejamos críticas e críticos com isso e não aceitemos esse discurso passivamente. O veganismo é pela libertação animal, tenha sempre isso muito claro em mente. Mas também é sobre a libertação humana. Costumo dizer que foi uma das melhores e mais bonitas coisas que me sucederam na vida.

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Nota: A minha transição para o veganismo aconteceu uma primeira vez (antes de 2007) de modo direito, ou seja, tirei tudo de uma vez e não obtive sucesso. A segunda vez (2007) que dura até hoje, foi e tem sido bastante orgânica. Eu já estava vivendo como ovo lacto vegetariana, então me pareceu como um fluxo natural que isso acontecesse, embora na realidade seja parte de uma construção social. Quanto mais eu conhecia sobre a indústria da exploração animal, menos eu queria participar dela e assim tem sido até os dias de hoje.

A MUSCULAÇÃO
Já a musculação entrou na minha vida para atender uma demanda minha que é sim da ordem estética, mas também da ordem da saúde mental e física. Aqui eu escolhi ser mais saudável, aqui eu pensei em mim. A maior parte da minha vida eu tive um corpo doente, convivo com uma asma infeliz que sempre me fez pensar que meu corpo – tão logo eu – fosse impotente, limitado e fraco e, através do esporte, descobri outras possibilidades e até potências em mim. Percebi também que através da musculação eu melhorava a minha qualidade de vida mental, o que foi muito importante depois de uma crise de depressão que tive em 2006. Longe de uma perspectiva de corpo cartesiana, acredito que tudo esteja tudo interligado, veja você, mente sana e corpo são. Sente isso?

O ENCONTRO 
Mas eis que o veganismo e a musculação se encontram em 2007. Cansei de ouvir que pessoas que não se alimentam de animais e derivados são fracas e mais propensas a desenvolver doenças. Essa frase sempre me incomodou muito, porque ela nunca me pareceu verídica, e eu quis enfrentá-la com a minha própria experiência. E assim o tenho feito. Depois a gente aprende que existem várias frases prontas de senso comum que visam sobretudo te desestimular com o veganismo. Quando isso acontece, a maioria das vezes me sinto no primário e respondo com o mantra do “aham, aham”somado de um irônico sorriso de Monalisa. É preciso ter sabedoria para aprender a ignorar algumas situações quando elas estão fechadas para um diálogo verdadeiro.

Além disso, mudando um pouco de assunto mas ainda dentro dele, eu tenho um trabalho com a performance art que é bastante radical ao corpo – algumas vezes mais e outras vezes menos – e me agrada saber que consigo fazer o que faço com um corpo livre de produtos de animais. Mas tenho consciência que faço o que faço, pelo trabalho que desenvolvo todo dia na academia, fortalecendo, conscientizando e sentindo meu corpo vivo e pulsando. Sem isso muito provavelmente eu não teria condição de ainda estar trabalhando da forma que estou.

O parágrafo acima é apenas para sublinhar como a visão que eu tinha sobre mim mudou através da união do veganismo com a musculação. O quanto eu me sinto melhor e mais forte (física e psicologicamente falando) depois desse encontro. Nunca imaginaria que depois dos 30, eu me sentiria com um vigor que eu não tinha aos 20, mas é real. OS

TREINOS
Eu vou no mínimo quatro dias da semana na academia. Treino em torno de 1:30, exceto no dia que faço perna, que beira sempre 2:00 de ferro puxado. Dia da perna é sempre o dia da perna, não pode pular, e apesar de ser ainda bem difícil pra mim, aprendi a gostar bastante com o tempo. Muitas pessoas me perguntam sobre a meu abdômen, qual o tipo de rotina que levo e como fazer para definir a barriga. Vamos lá… Eu faço abdominal todo dia que vou na academia (e mesmo quando não vou), já que gosto de trabalhar essa parte do corpo. Faço normalmente três tipos diferentes de sequências por dia. Alterno também dia por dia, para trabalhar diferentes músculos. Como é algo que gosto de fazer – e isso faz muita diferença – vou sempre buscando novidades e testando possibilidades. Eu cortei o consumo de refrigerantes também em 2007 e acredito que isso me ajudou com a parte abdominal. Eu tomava 2 litros de refrigerante por dia, facilmente, só para constar. Mas para ter um resultado legal o que vai principalmente contar é o trabalho de todo dia, colocar a barriga para queimar literalmente. Sabe o tal do no pain, no gain? Pois é.

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A ALIMENTAÇÃO
Já consumi muita soja, principalmente no meu começo com o veganismo, mas já tem uns dois anos que tenho reduzido bastante. Por outro lado aumentei o consumo de frutas, verduras e legumes e com destaque, as amigas sabem, da bendita batata doce. Ah! Quero aumentar cada vez mais o consumo de produtos orgânicos.

Eu tenho uma necessidade voraz por feijões, principalmente o preto que é o meu favorito. Eu preciso comer todo dia e quando não o faço, sinto um tom de fraqueza. Eu amo feijão com farinha, deve ser herança do meu avô pernambucano. E de meu pai ficou o tutu de feijão, que algumas vezes é meu café da manhã. Adoro!

Quando estou em casa eu faço todas as refeições certinhas, de três em três horas. Quando estou viajando, vira uma bagunça e sempre tenho uma baixa de peso e força, o que é bastante ruim, já que tenho muita dificuldade em ganho. Tipo, muita dificuldade de verdade.

Não caiam na baboseira das proteínas, ok? Apenas não. Existem várias matérias sensacionais falando sobre a quantidade de proteínas que você pode obter dos vegetais. Corra ao Google já e seja feliz.

Nota: Não faço suplementação por motivos de dinheiros. Existem no mercado vários produtos veganos para body building mas pelos quais eu não posso pagar. Então, eu bebo água e como feijões e é isso. Aloca!

A DISCIPLINA
Essa é uma das partes que mais eu queria escrever e já faz um tempo. Academia não é um lugar em que eu me sinta totalmente confortável, na verdade eu me sinto bastante desconfortável, ainda que hoje menos do que antes. Para mim é um ambiente hostil e por vários motivos, destacaria o machismo, sexismo, cissexismo, LGBTfobias, manutenção do especismo, elitismo, gordofobia, etc… Mas cheguei em um ponto da minha vida em que eu precisava enfrentar esses campos por questões básicas de sobrevivência mesmo. Ainda que seja difícil estar ali, e ainda o é para mim, tenho permanecido. Mas mergulho em um profundo estado de abstração do entorno e concentração – e é muito importante focar no que se está fazendo e prestando atenção em tudo o que acontece com seu corpo -, com isso, a minha interação social naquele espaço é quase nula, o que é de certo modo uma forma de proteção. Talvez não seja a melhor forma, mas é a que encontrei por enquanto para seguir sobrevivendo nesses espaços.

De 2007 para cá passei por diferentes academias. Somente aqui na periferia onde eu vivo, passei por três e me fixei na que estou agora, creio que tenha algo em torno de 4 anos que estou nela e foi o tempo em que mais tive rigor e disciplina.

Algumas amigas e amigos treinaram junto comigo e pararam ou trocaram de academia durante o processo. Sempre que isso acontecia era um baque, porque como é um espaço em que me sinto muito vulnerável, precisava ter alguém comigo lá para me dar coragem de seguir em frente. Com o tempo entendi que eu precisava mesmo fazer aquilo, mesmo que sozinha, por todo bem que me trazia em retorno e que afetava positiva e diretamente na minha relação com as demais pessoas. Assim, desfrutava quando tinha uma amiga ou amigo para treinar, sofria menos quando não tinha ninguém, mas principalmente já tinha entendido que era eu que precisava fazer aquilo. E tenho feito.

Outro ponto fundamental é não se apegar muito em instrutores e instrutoras. Existe uma rotatividade grande desses e dessas profissionais e se apegar neles e nelas colocava em risco a minha continuidade naqueles espaços. Obviamente que entendi isso quando pensei em abandonar a academia quando a minha instrutora favorita saiu. Ela era uma excelente profissional e foi a época em que o meu rendimento teve um aumento significativo. Novamente eu passei a martelar na minha cabeça que era eu que precisava fazer aquilo. Então eu conto apenas com uma orientação bastante rasa dos instrutores de agora, mas aprendi a contar principalmente comigo. Pode soar meio desestimulador, mas não é. Encontre em você a força para estar naquele espaço e concentre sua energia nisso. É transformador.

Beba bastante água e não se esqueça de prestar atenção em sua respiração. Lembre-se sempre, o veganismo é sobre libertação animal, compaixão e amor.

Se você quiser acompanhar outros tantos relatos sobre musculação e veganismo, recomendo que você entre no grupo Musculação Vegana do Facebook. É um espaço com uma moderação generosa e progressista e que ajuda demais a fortalecer o movimento das atletas e principalmente da libertação animal. Go Vegan!
https://www.facebook.com/groups/musculacaovegana/

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Comments
4 Responses to “Veganismo e musculação”
  1. Sarah Wero disse:

    Amei, Thi! Estou enveredando pelos mesmos caminhos. Quero tentar alcançar uma dieta vegana próxima do crudivorismo – vegan por ética, crudi por saúde. Agora aos 33, tenho sentido cada vez mais necessidade de me exercitar pra manter o pique. Comecei há poucos meses com alongamentos, yoga e musculação aliados à mudança progressiva da dieta e já tô sentindo muita diferença! Seu relato é muito inspirador, obrigada por compartilhar! Beijos no seu coração! ❤

    • T. Angel disse:

      Força, mana! Sem dúvida alguma vai ser uma das melhores coisas que você fará na vida. Muitos beijinhos ❤

  2. Erika Cabral Costa disse:

    Depois de muito tempo pensando esse ano resolvi que vou começar a diminuir o consumo de carnes na minha vida, até que consiga cortar ele de vez. Também depois de muitas tentativas eu retornei pra academia e acho que tem sido meu melhor período, pq pela primeira vez eu estou gostando de ir, acho que isso aconteceu pq finalmente entendi que eu tinha que fazer isso por mim, e que embora a estética seja um ponto ela não é o meu objetivo principal e sim a minha saúde,principalmente depois de engordar 11kg em menos de um ano e vê-la se deteriorando. Seu relato me estimulou e me inspirou a continuar mesmo que o caminho seja de pedras e não de flores. Te admiro muito! Beijos!

    • T. Angel disse:

      Ah! Sua linda, que legal te ler por aqui. A retirada da carne só vai te fazer bem, você vai ver. Fico feliz que esse relato tenha te motivado. Força! ❤

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