Entrevista sobre modificações corporais e sociedade

Curso: Jornalismo | Universidade: ESPM – Porto Alegre

1- Primeiro, eu gostaria que você me contasse um pouco como surgiu a ideia da tua pesquisa de iniciação científica “A modificação corporal no Brasil: 1980 – 1990” e o que te motivou a fazê-la?
Costumo dizer que entrei no meio da comunidade da modificação corporal em 1997 e com isso iniciei a minha pesquisa, que acontece inclusive em meu próprio corpo. Eu sempre tive interesse em conhecer mais sobre essas histórias, saber quem fazia o que, como começou, e o motivo dessas práticas serem fortemente demonizadas, sabe? Sempre fui uma pessoa bastante curiosa e essas práticas me suscitavam tantas possibilidades positivas que não poderia ser diferente. Temos que pensar que esses contatos todos iniciais se deram antes da entrada da internet em minha vida,  o que quer dizer que essa pesquisa acontecia através das mídias tradicionais (jornais, televisão, revistas), então eu pude guardar muito material e sem ainda a noção de que isso seria documento, que poderia me ajudar lá na frente. Quando chego na graduação em História, o que aconteceu de certa forma tardiamente, percebo que tudo aquilo que vinha pesquisando poderia ser formalizado e assim o fiz. Somado da minha grande paixão pelo assunto, existe a carência de material em língua portuguesa também e esse foi outro disparador.

2- As modificações corporais vêm crescendo no Brasil, cada vez mais. Na tua visão, qual pode ser a principal razão ou motivação para esse crescimento?
Eu entendo o que você quer dizer, mas é importante a gente ter claro em nossas mentes que as modificações corporais já estavam no Brasil antes mesmo do processo violento de colonização, antes mesmo de receber o nome de Brasil essas práticas já estavam nessas terras e fruindo com muita força. Na realidade o processo de colonização é sem dúvida alguma uma das respostas sobre a demonização das práticas de modificação do corpo no Brasil. Não podemos nos esquecer disso.
No entanto, pensando as modificações corporais na contemporaneidade, principalmente depois da internet tivemos um crescimento significante e isso é inegável, mas também não é um fator isolado. Pouco antes da ascensão da internet aqui, estivemos afogados em uma ditadura civil e militar, o que impactava diretamente nas liberdades sobre o próprio corpo. Existe um ranço desse período funesto e vergonhoso da nossa história até hoje, no sentido das nossas relações com os corpos, e que se tornam bastante fortes e evidentes em discursos saudosistas e nagacionistas.
É como se aos poucos fossemos descobrindo que temos um corpo e que ele pode ser configurado para atender as nossas demandas e necessidades individuais.

3- Como surgiu o teu interesse pelas modificações corporais e com quantos anos você começou a modificar o seu corpo?
Desde as minhas primeiras memórias eu sempre tive interesses por corpos que fugissem da lógica normativa. Eu percebia que havia um padrão e gostava de ouvir, ver e sentir as configurações que borravam tudo isso. Fui uma criança muito imaginativa e criativa, assim, os contos, a fantasia, as mitologias, os sonhos, os desenhos animados e a ficção científica me encantavam. Na minha adolescência tive o primeiro contato com essas técnicas e foi tudo muito rápido e intenso, não demorou para eu estar completamente mergulhada em tudo isso, até hoje.

 4- A cada modificação já feita, você acha que esta mais perto de se autossatisfazer? Hoje, você está satisfeito?
A modificação corporal é libertadora e empoderadora. Hoje eu me sinto muito mais feliz do que anos atrás, me sinto muito mais confiante e confortável com meu corpo do que anos atrás em que eu olhava no espelho e não entendia nada daquilo que eu via. Eu tomei posse sobre mim, eu fiz as regras do jogo, eu escolho o formato, textura e cor que determinada parte da minha carcaça vai ter e isso é incrível. Olhando para trás e pensando no quanto eu me odiei, sinto que dei importantes passos no sentido do amor próprio e da auto-aceitação. Nesse processo eu me encontrei e pude explorar toda a minha subjetividade da melhor maneira possível. Na realidade ainda estou em processo e sinto que há muito ainda para melhorar e desfrutar.

5- Você já sofreu ou sofre alguma discriminação por causa das modificações?
Sim, diversas vezes. Como eu disse acima essas são práticas demonizadas e as pessoas que se apropriam delas também se tornam malditas, demonizadas e tudo aquilo que é ruim. Veja, eu estou aqui te contando o quanto tudo isso melhorou a minha qualidade de vida, as minhas relações sociais e meu amor próprio, perceba o quão equivocadas estão as pessoas que simplesmente ignoram tudo isso e optam em fazer a manutenção de discursos de ódio sobre uma vida normativa ou normalidade que é uma mentira. Machuca quando essa intolerância vem de pessoas próximas e isso é algo que a gente aprende vivendo. A gente não acha que alguém da família ou um amigo próximo vai agir como se nunca tivesse te conhecido, por um adorno que se faz no corpo, mas acontece sim. Embora saibamos que precisamos estar preparados para tudo isso, quando percebemos que é real, que as pessoas se afastam mesmo, te tratam de modo diferente de verdade, é dolorido… E isso me incomoda por se tratar de uma relação de posse, controle e dominação muito mais do que de amor. Isso fere a relação de autonomia sobre si que as pessoas precisam ter para viverem bem e isso me soa bastante cruel. Mas com o tempo você também vai construindo novos laços, refazendo novas relações de afeto, construindo uma família que te aceita e os que estão ao redor vão percebendo que se equivocaram e alguns têm a chance de mudar a mentalidade sobre tudo isso, outros não, acontece… Cada um tem o seu tempo.

6- Qual prática, que você já realizou, exigiu mais de ti ou foi mais complexa?
Tudo é sempre novo e desconhecido. O primeiro piercing exigiu muito de mim, eu tinha uma relação horrorosa com agulhas e precisei resolver isso comigo. O implante transdermal que eu fiz na cabeça também foi complexo e intenso demais. O branding também foi muito intenso e forte, eu lembro que após ter feito a primeira etapa eu sai do estúdio me sentindo muito poderosa. Faíscas escapavam dos meus olhos enquanto eu subia a Rua Augusta. Lembro como se fosse hoje daquela sensação incrível.

7- Quantas modificações corporais você possui? Teve alguma influência?
Viver é um constante processo de modificação corporal. Não sei contabilizar isso, não sei se preciso contabilizar isso. Acho que as minhas maiores influências vêm da ficção científica e mitologias diversas do mundo.

8- Teve problemas com a tua família?
Eu venho de uma família pobre e cristã e quando comecei a me envolver com essas práticas na adolescência foi um problema grande, principalmente pela moral cristã e todo conservadorismo que advém dela. Diversas situações de conflito e confronto emergiram a partir disso. Com o tempo essa relação foi melhorando, sendo lapidada e hoje existe um outro tipo de história. Obviamente que ainda não é o mundo deles, não é o assunto que movem eles, mas entenderam e respeitam que para mim tudo isso faz sentido e que é o meu trabalho e a minha vida. Meu pai antes de falecer costumava dizer que me via além do corpo, que via minha essência e para mim isso é valioso, por saber o esforço que ele fez em desconstruir toda uma lógica maniqueísta que fazia muito sentido pra ele por muito tempo. Minha mãe hoje é a minha grande parceira e é lindo saber que tivemos tempo para superar as diferenças e melhor do que isso, abraçar e saudar essas diferenças como a poesia mais bonita que essa vida nos dá.

9- Como você se sentia antes das modificações? E, agora?
Eu era uma pessoa muito complexada, odiava o meu corpo e tudo o que ele representava. Através das modificações corporais – e todas as experiências que vem junto e através delas – eu fui ganhando um corpo, passei a ter o importantíssimo amor próprio e isso é poderoso.

10- Você se arrepende de ter feito alguma?
Nunca me arrependi de nada que fiz. Se fiz é porque naquele momento tinha sentido e é isso.

11- Sobre o Grupo de Estudos Sobre Modificações Corporais, quando ele foi criado? Qual é o principal objetivo dele?
O Grupo de Estudos Sobre Modificações Corporais (GESMC) surge da necessidade de se promover estudos, diálogos críticos e profundas reflexões sobre as práticas que rondam a comunidade da modificação do corpo. Tudo isso da maneira mais horizontal e agregadora possível. Buscando e assumindo um papel independente e que se auto-elabora, o GESMC não está e não pretende estar relacionado com nenhuma instituição. Entendemos que as instituições são mais uma ameaça para as práticas de se modificar o corpo do que o contrário.
O GESMC tem trabalhado com temas pré-definidos, utilizando-se de uma bibliografia bastante diversificada que aborde não só a modificação corporal, mas que também possibilite reflexões sobre o mundo em que vivemos. Isto por entendermos que essas práticas corporais não estão descoladas das ações dos homens e mulheres e demais identidades de gênero no tempo.
Este é um grupo de estudos que se constrói através do encontro e compartilhamento de experiências de seus participantes. A sua existência é oriunda de sua própria necessidade de existir.

12- Você percebe alguma mudança de reação sobre o assunto em relação a cada cidade que o Grupo visita para palestras?
De modo geral não sinto isso, as problemáticas são muito parecidas e é curioso as pessoas de outras cidades e Estados acharem que em São Paulo as coisas estejam super bem resolvidas e que tudo é melhor aqui. Sempre tento mostrar que não é bem assim. O engajamento das pessoas em São Paulo é muito baixo, o que é até meio vergonhoso dizer. Mas as poucas pessoas que se engajam pela comunidade, o fazem de coração e isso é muito bonito e forte. São poucas pessoas trabalhando para construir coisas lindas e legais, isso aqui e em todas as demais cidades e Estados que tenho tido a chance e privilégio de visitar. É trabalho de formiga, mas sem ele o cenário seria desolador.

 

13- Os padrões de beleza impostos pela sociedade têm peso nessas escolhas?
Os padrões têm muita força em tudo, inclusive dentro da própria comunidade da modificação do corpo. Ainda é o padrão jovem, branco, magro, heterossexual e cisgênero que é o que tentam nos enfiar goela abaixo, porque está obviamente atrelado com a objetificação dos corpos, daquilo que se pode vender mais, fim ao cabo, para atender as demandas do próprio sistema capitalista em si. Olhem as capas das revistas de tatuagem, por favor…

14- Modificações corporais radicais são consideradas tabu hoje em dia?
Para o discurso dominante sim, porque o corpo ainda é tabu, o corpo ainda é um problema. Querem, por exemplo, nos impedir de falar sobre sexualidade, sexo, gênero, nudez e drogas… Querem criminalizar o pouco da autonomia que temos sobre os nossos corpos. Isso indica claramente o solo arenoso que pisamos.

15- Por que essas modificações ainda causam tanta estranheza na sociedade?
Enquanto sociedade regredimos nos últimos anos. Olhemos para o momento político do Brasil onde temos o congresso mais conservador desde 1964 e estamos passando por um golpe de Estado. Olhemos o poder da bancada evangélica hoje, a força que essa instituição tem principalmente nas periferias do Brasil. Eu vivo na periferia de Osasco, grande Sâo Paulo, aqui a cada esquina tem uma igreja e, percebo que cada vez aumentam de tamanho.  Uma década atrás quando esse número de igrejas era menor, eu achava engraçado, hoje me dá medo. Estamos vivendo um tempo muito obscuro e que precisamos estar atentos e atentas.

16- Em relação a tua pesquisa dos anos 80 e 90, você acredita a aceitação dessas práticas têm aumentado no Brasil?
Percebo que essas práticas têm aumentado significativamente, como tem aumentado o controle sobre elas também, muitas vezes no modo do vigiar e punir, inclusive feito pelos próprios membros da comunidade. Dois eventos super importantes que trabalhei foram denunciados e fortemente pressionados para que não acontecessem. Existe um esforço fascista em fluxo e é importante falar sobre isso.
Sobre a aceitação em si, tenho percebido que é melhor quando ela passa por um processo de higienização social, quando é apresentada com um embrulho bonito para se vender o produto. Por outro lado, somos tantos e tantas hoje que não se podem contar e é melhor assim. Espero que nunca nos conheçam com exatidão, com total domínio sobre quem somos e quanto somos.  Apenas saibam que existimos e isso é o suficiente.

17- O mercado de trabalho ainda é um problema para adeptos das práticas do Body Modification?
O mercado de trabalho é ainda o problema para toda sociedade. É o problema porque é fascista. É fascista porque é excludente, segregativo, autoritário e violento. É o problema porque é racista, elitista, LGBTfóbico e sexista. Ressalvo, é o problema porque é transfóbico. É o problema porque é etarista. É o problema porque é capacitista. É o problema porque é HIVfóbico. Então enquanto as pessoas que trabalham com esses processos estão buscando a melhor justificativa para excluir alguém, é esse sistema fascista de vida que está vigorando. As modificações corporais nesse esquema é apenas a gota que transborda o gargalo do ódio e é disso que se trata, não se enganem.
Quero mencionar um caso recente que aconteceu no Posto de Atendimento ao Trabalhador de Rio Claro, interior de São Paulo, onde pelas redes sociais a instituição expunha toda sua falta de informação e preconceito ao trabalhador com modificações corporais. A sociedade pressionou muito o PAT e eles fizeram um pedido de desculpa público, muito ruim por sinal. Para quem se interessar, eu escrevi sobre isso no FRRRKguys.com.br.

18- Você consegue ter uma visão otimista sobre o assunto no futuro?
Eu me entendo com uma pessoa simpática a pedagogia de Paulo Freire, principalmente aquela que se intitula como Pedagogia da Esperança. Eu acredito que a comunidade da modificação do corpo está vivendo um processo muito interessante e importante de transformação. Hoje temos com muita força a presença das mulheres, pessoas negras e LGBT e em vias de ser um movimento crescente. Acredito total e completamente que essas pessoas possam transformar tudo o que conhecemos, falar sobre o que não ouvimos (ou o que não queremos ouvir), trazer novos olhares e possibilidades. No que eu puder, quero ajudar para que esse movimento seja cada vez mais potente e vigoroso. Eu quero fazer parte de uma comunidade que ofereça melhores perspectivas de vida para todas as pessoas, que não altere somente o corpo, mas o mundo. Que não altere só o corpo, mas questione os privilégios. Que não altere só o corpo, mas que também não aceite nenhum tipo de intolerância e ódio. Que não altere só o corpo e esqueça de abraçar com afeto o seu entorno com empatia e fraternidade. Nossos corpos são campos de batalhas e o futuro já é agora.

 

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