Entrevista sobre modificação corporal, FRRRKguys e Singularis

Nanda Guedes | Portal Tattoo Place
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  1. Quem é T. Angel hoje?

Não sei te afirmar com precisão, mas talvez em algum momento dessa minha história de vida houve uma separação em quem era Thiago Soares e quem era T. Angel. Hoje e, creio que cada vez mais daqui para frente, o que era Thiago Soares está se tornando T. Angel.  Sei que não foi exatamente isso o que você perguntou, mas achei por bem aproveitar o ensejo para dizer, porque na realidade fim ao cabo tudo se relaciona. Está tudo conectado.

Hoje T. Angel é o resultado de interações sociais, experiências artísticas e políticas, fruto de rituais místicos. Sou uma constante construção, desconstrução e contradição. Há quem diga – e eu gosto muito da palavra na realidade – que eu seja um híbrido, outros dizem que me assemelho com a figura de um eremita. Eu gosto de pensar que sou apenas uma pessoa que busca viver uma vida simples e ao mesmo tempo plena e digna.

 2. Como foi a trajetória desses 10 anos?

Vou te confessar que precisei olhar muitas vezes em todos os registros possíveis para ter certeza que se tratava de dez anos de FRRRKguys. Ainda assim, sempre quando alguém me questionava com um tom de surpresa sobre os dez anos eu caía em duvida de novo, será que são dez anos mesmo? Lá estava eu checando as fontes novamente. risos

Acredito que tudo isso seja pela minha paixão e completa dedicação por esse trabalho. Deposito muita energia no FRRRKguys, são dez anos sem férias, não tem espaço para isso e talvez nunca tenha. É o meu trabalho, é a minha vida.

Tem sido uma trajetória boa de se viver, principalmente depois da festa de sexta em que celebramos esses dez anos. Tenho a sensação que conseguimos construir algo que vai para além das modificações corporais, sinto que já alteramos o curso dessa história e isso não se apaga mais, está feito. E sinto que é só o começo, acho que tem muito ainda para se fazer. Espero ter tempo para isso.
3. Como está sendo iniciar esse novo projeto da websérie?

Acho curioso tudo isso e a vida tem umas coisas danadas que me tira o sossego, ainda bem. A curiosidade está em saber que a chance de gravar uma websérie surgiu exatamente no ano em que celebro uma década de FRRRKguys. Lembra ali em cima que disse que tudo está conectado? Pois é.

Foi uma experiência muito positiva trabalhar na construção desse material e tem sido igualmente muito bom a repercussão agora com o lançamento do primeiro episódio. É incrível sentir que as pessoas confiam em meu trabalho e aqui eu falo tanto da equipe do Singularis como das pessoas que aceitaram o meu convite para serem entrevistadas. Falo da confiança, pois diferente do que o senso comum diz, as pessoas com modificações corporais não alteram os seus corpos para aparecerem ou chamar a atenção, muitas na realidade são bastante resistentes em falar publicamente sobre tudo isso e eu respeito muito essa posição. Mas em uma outra mão, se não falarmos sobre nós para e por nós, sobre nossas demandas e especificidades seremos engolidos pela máquina do sistema.  É uma questão de resistência, visibilidade e militância sobre a diversidade de todos os corpos e subjetividades.

Tenho aqui comigo um sentimento de gratidão muito forte. Sei que sem o FRRRKguys, não haveria hoje Singularis e muito provavelmente a gente não estaria desenvolvendo essa conversa agora. Tudo conectado, está tudo conectado.
4. Como surgiu a ideia… Como surgiu esse amor pela modificação corporal?

A ideia da websérie surgiu através de um convite do diretor Carlos Esdras. Ele havia lido alguns textos do FRRRKguys e me escreveu sobre fazermos algum material em vídeo, na época ele era estudante de Rádio e TV. Tivemos algumas reuniões e a ideia ficou na geladeira. Então, quando chegou o momento do desenvolvimento do TCC do Esdras, ele entrou novamente em contato dizendo que talvez aquela fosse a hora e eu abracei a ideia. Ele conseguiu uma equipe, que na realidade era o grupo dele de sala, o orientador achou o projeto interessante e o resultado é isso o que estamos mostrando agora. Parece tudo simples contando assim, mas é tudo bastante trabalhoso.

Já o meu amor sobre as modificações corporais. Bem, ele surgiu através da libertação e paz de espírito que essas experiências trouxeram para minha vida.  Essa cultura me transformou não só o corpo, me salvou e me faz todo dia buscar ser uma pessoa melhor.

5. Nosso mundo de modificados existe preconceito dentro, como lidar?

Excelente pergunta. Em minha última palestra durante o workshop do Grupo de estudos de Piercing (GEP) na Tattoo Week eu contei que em um momento da minha vida eu tive a ilusão inocente de que o meio da modificação corporal era livre de preconceito. Ora, pessoas com corpos que escapam das regras, que sofrem preconceito e opressão social por conta disso, jamais poderiam reproduzir discurso de ódio. Cara na poeira e um choque de realidade não mata, ensina a viver, ao menos no meu caso foi assim. Modificação corporal não isenta ninguém de reproduzir discurso de ódio e de ser preconceituoso. Então vamos ver dentro dessa comunidade pessoas com inclinações neonazistas, fascistas, LGBTfóbicos, misóginos, elitistas e uma série de outras posturas que precisam ser questionadas de modo crítico. Eu tenho tentado promover reflexões, debates e ações através de meus trabalhos. Tenho plena consciência que se trata de um trabalho de micropolítica, sei que o alcance é bastante curto, mas é o que posso fazer por enquanto dentro dessa comunidade. As minhas portas estão sempre abertas para colaborar com a comunidade da modificação do corpo e construir um ambiente acessível e não violento para as pessoas. Há muito para se fazer e enquanto houver viva, estaremos trabalhando nesse sentido.

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