‘O que é a tal da modificação corporal?’ na nova edição da Revista Santa Ink

Saiu o número 5 da Revista Santa Ink e tem uma matéria com texto/fotos que fiz. A revista está linda, a cada edição mais bonita e fico muito feliz em ter contribuído.
Ah! A distribuição é gratuita e eu acho que vocês deveriam correr atrás de uma. Você pode inclusive ter acesso em uma edição eletrônica CLICANDO AQUI.
Deixo aqui pra dupla que tanto gosto, Maga e Vanessa, o meu agradecimento pelo convite e confiança em meu trabalho.

Abaixo torno público o texto que faz parte da publicação.

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MAS O QUE É A TAL DA MODIFICAÇÃO CORPORAL?

Buscamos compreender e se fazer compreender as modificações corporais reconhecendo as nossas especificidades tupiniquins e latinas. Temos uma vivência rica e complexa que não pode e não deve ser pormenorizada. A nossa história com as modificações corporais é anterior a colonização. A colonização foi responsável pelo extermínio de parte dessa história. A colonização não acabou ainda.”
Manifesto Freak

 

Na maioria das minhas palestras tenho feito uma pergunta e provocação para a audiência e que gostaria de fazê-la agora para vocês que estão a iniciar essa leitura: quem de vocês não tem modificação corporal?

Creio que algumas pessoas vão responder com sim e outras com um não. É certo que algumas vão parar para pensar, podem até ficar com dúvida no que responder e também imagino que algumas dessas pessoas vão parar alguns segundos para pensar sobre o próprio corpo. Mais do que isso, pensar sobre as experiências que tem vivido através de seu corpo. Pode ser que tudo isso dure segundos, o que não reduz a importância desse retorno ao próprio corpo.

Então, como resposta a pergunta que faço na abertura desse texto digo que – pode rufar os tambores – não existe corpo humano que teve uma experiência viva que não tenha passado por um processo de modificação corporal. Em outras palavras, não existe corpo que não seja modificado.

Mas então, o que é a tal modificação corporal? Em resumo e de modo bastante sucinto, podemos entender a modificação corporal como um conjunto de técnicas que tem como função – ou que dentre as suas funções – altera o corpo humano. A alimentação, o ócio, o esporte, o trabalho, a medicina, a religião, o sexo, a tatuagem, a escarificação, o implante e uma infinidade de possibilidades técnicas podem alterar o seu corpo. Dizer infinidade de técnicas não é apenas mera força de expressão.

Assim, dentro desse grande universo de possibilidades, vamos pinçar um pequeno recorte de técnicas chamadas como tatuagem, body piercing, ear pointing, tongue splitting, escarificação, eyeball tattooing e implantes, que particularmente são as que mais eu tenho dedicado os meus estudos e pesquisa ao longo de quase duas décadas. Parte dessa pesquisa tem acontecido em meu próprio corpo, isto é, através da minha própria experiência física, social, artística e política.

Ponto importante e comum entre todas essas técnicas que citei acima é o consentimento, ou seja, a escolha da pessoa, que por livre e espontânea vontade e sã consciência, aceite e queira se submeter a procedimentos que visam atender os seus desejos e anseios particulares. Os casos em que essas técnicas foram empregadas sem o consentimento se encaixam nas violências mais hediondas da história humana, por exemplo, a escravidão indígena, a escravidão africana, o nazismo e as ditaduras civis e militares. Importante sempre reforçar que modificação corporal sem consentimento é violência.

Mas se todo mundo tem modificações corporais, por que algumas são aceitas enquanto outras não? Responder essa questão é impossível sem escapar da célebre frase “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros” de George Orwell na Revolução dos Bichos (1945). Afora isso, bem, em síntese porque há uma construção cultural – variante em tempo e espaço – que vai dizer – de acordo com o discurso hegemônico – quais os corpos que podem existir e quais os que não. Corpos que se desviam do padrão dominante e que escapam do que se convencionou chamar de normalidade, e isso inclui corpos modificados – dentro do recorte que fiz acima – estão do lado daqueles que não deveriam existir e que, justamente por isso, historicamente foram e têm sido jogados para a margem, isto é, segregados espacialmente e excluídos socialmente.

Como eu trago na introdução do livro A Modificação Corporal no Brasil – 1980-1990 (2015), o ser humano no decorrer de sua história interfere em seu corpo de diversas maneiras e acompanhado intrinsecamente de múltiplas justificativas. Seja como rito de passagem, como forma de expressar sua religião, penitência para purificação da alma, punição, privação, como forma de se expressar artisticamente ou por motivos puramente estéticos. Na história humana, o corpo sempre sofreu alguma espécie de manipulação. Tanto é verdade que não conseguimos datar com precisão quando isso tenha começado e nem onde.

Dizer acima puramente estético não quer dizer que tem valor maior ou menor do que as outras motivações e justificativas. Diria mais, a estética está presente em todas as demais situações citadas e até as que não foram. Como muitas estudiosas e estudiosos do corpo vão dizer é que toda estética é política e toda política é, por sua vez, estética. Então, mudar esteticamente é, sobretudo, um ato político.

Importante ter claro na mente que foi em meados do século XX que os corpos modificados passam a alcançar lugares importantes e cruciais – impensáveis tempos atrás – para uma intensa e profunda mudança social no que se refere a interação social desses corpos com os demais. As lutas dos movimentos feminista, negro, indígena, LGBT e das pessoas com deficiência tiveram um impacto forte na mudança da mentalidade sobre como percebemos todos os corpos. Mudança esta que tem afetado os paradigmas de quais corpos podem existir, defendo o óbvio que é todos os corpos merecem viver com dignidade e importam.  “Seu corpo é um campo de batalha”, expressão trazida pela artista feminista Barbara Kruger em 1989 expressa um pouco desse cenário.

No entanto, é no século XXI que vamos assistir mais alguns avanços significativos no campo das modificações do corpo, justamente alinhado com os avanços das ciências e tecnologias. A pele assim como as escleras ganham novas colorações, novos orifícios são precisamente elaborados. Silhuetas redesenhadas, línguas são bipartidas. Partes amputadas, próteses com tecnologias de ponta nos faz o tempo todo pensar sobre a condição humana e sobre o corpo obsoleto em menção ao pensamento do artista australiano Stelarc. A fusão do corpo orgânico com as extensões artificiais, crianças da nanotecnologia. Ciborques, humanos, máquinas, quimeras… Ideais de corpo que outrora habitavam exclusivamente o universo de povos tribais ou as mentes criadoras de ficção científica, sem nos esquecermos do fabuloso mundo onírico, tornaram-se parte da realidade palpável, ou seja, integram a sociedade. As tatuagens, piercings, escarificações e implantes foram e estão sendo incorporados gradualmente em nossa contemporaneidade. Embora tenham sido técnicas malditas que não foram recebidas de braços abertos, sobretudo por um discurso colonizador, estão postas e legitimadas como um fenômeno histórico, político e social bastante rico e complexo tão antigo quanto o próprio mundo. E pulsa, pulsa vida por todos os lados.

Esses corpos – que são pessoas de verdade e é importante não dissociar – vem buscando seus respectivos espaços dentro da sociedade com embates diários, ainda que causem desconforto, estranhamento e resistência pela grande maioria da sociedade. Esses corpos considerados nefandos estão circulando nesse momento pelos mais variados espaços, das mais distintas sociedades e sussurram docemente em todos os ouvidos: nós existimos!

T. Angel
É artista da performance e tem graduação em História. No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro “A Modificação Corporal no Brasil – 1980-1990” e grande parte depositada na plataforma FRRRKguys.com.br

Twitter | Instagram @tang3l

*Texto publicado originalmente na Revista Santa Ink nº 5 páginas 26-29

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