Gênero fala de todo mundo

Texto e imagem: Anis – Instituto de Bioética
https://www.facebook.com/AnisBioetica
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Esta semana nos propomos a enfrentar o tema “Gênero fala de todo mundo”. Gênero está longe de ser tema novo por aqui, mas percebemos que nem sempre se compreende do que é, afinal, que estamos falando. Queremos esclarecer e avançar na discussão com vocês. Venham conosco e participem:

“Precisamos falar sobre gênero” é quase um slogan do blog Vozes da Igualdade. A violência, a discriminação e a desigualdade vividas por mulheres, pessoas LGBT e outras minorias nos indignam e mobilizam. Falar sobre gênero nas escolas, nas práticas institucionais, no enquadramento de notícias e nas políticas públicas é uma de nossas demandas por transformação. Não acreditamos que as pessoas nasçam preconceituosas ou agressivas: se aprendemos a reproduzir ódio – as vezes sem sequer nos darmos conta disso –, podemos desaprender e podemos ensinar diferente. Por isso, a educação e o debate aberto são nossas apostas para uma sociedade igualitária e justa.

Mas o que é isso que chamamos de gênero? Nas teorias sociais, existem formas diferentes de entender esse conceito. Algumas, por exemplo, falam de ‘gêneros’ no plural, como forma de fazer perguntas e buscar entender como homens e mulheres se relacionam, no que são considerados diferentes, e para que essas diferenças importariam. Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder.

Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias. Mulheres podem ou não ser mães; homens podem ou não ter cabelos curtos ou serem fisicamente fortes; homens e mulheres podem ou não querer formar família com outros homens e mulheres, podem se identificar com a forma como seus corpos foram classificados quando nasceram, ou podem organizar suas vivências de formas distintas. Falar sobre gênero é reconhecer a diversidade de formas de vida boa para os corpos.

Dizemos que gênero é político porque ele é transformável: desacreditamos que nossas formas de viver são determinadas por ideias de natureza – que mudam historicamente –, por crenças divinas – que são muitas e variadas – ou mesmo por maiorias sociais. Não há uma pessoa ou um grupo delas que determine as regras do gênero: todas e todos nós as fazemos e desfazemos diariamente. Quando por exemplo uma família prestes a crescer ouve de um médico que a nova pessoa será uma menina, surgem expectativas quanto a roupas e brinquedos, comportamentos, ocupações e afetos futuros: pai e mãe podem desejar ver a filha casada e com filhos, bonita de salto e brincos nas orelhas, habilidosa em tarefas domésticas. Mas pode ser que a menina cresça e se descubra talentosa para esportes, que decida não ser mãe, que encontre felicidade na vida compartilhada com outra mulher, ou mesmo que perceba que é identificando-se como menino que a vida faz sentido. Pode ser que, tentando construir uma vida feliz, essa pessoa sofra violência e discriminação. Isso não é justo, e tem que mudar. Por isso insistimos em falar sobre gênero.

Mas a insistência não é nova. Falamos sobre e transformamos o regime do gênero há muito tempo: há pouco mais de oito décadas, mulheres brasileiras não podiam votar e participar das decisões políticas do país; hoje aprendemos isso nas aulas de história. Nos anos 1970 e 1980, movimentos de mulheres precisavam gritar o óbvio, que “quem ama não mata”, porque havia tribunais que absolviam homens que matavam suas companheiras, e ainda hoje lutamos para que o sistema de justiça leve a violência contra mulheres a sério. A Constituição Federal de 1988 reconheceu diferentes formas de constituir família, e há anos casais do mesmo sexo contam com proteções legais para casar e adotar crianças. Há alguns meses, pais passaram a ter mais tempo de licença-paternidade para conhecer e cuidar de suas crias recém-chegadas. Falamos e falaremos sobre gênero porque reconhecemos um legado de lutas por igualdade e direitos que não pode ter fim em uma sociedade justa.

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