Entrevista sobre modificação corporal e moda

Curso: Moda | Universidade: Centro Universitário UNA
Entrevista feita por: Bárbara Penaforte

Como suas modificações corporais influenciam seu estilo?
Quando comecei as minhas modificações corporais a ideia de construção de estilo era muito forte. Tinha uma relação muito intensa com os chamados movimentos de contracultura, principalmente o ligado com a cultura clubber e música eletrônica. Havia uma estética muito particular desse grupo – assim como as demais tribos urbanas também tinham – e adaptar o corpo aquela proposição era fundamental. Com o tempo sinto que tudo ficou muito maior e ganharam novas relações, inclusive artísticas. O que era uma construção de um estilo, virou a construção daquilo que eu sou, meu self, minha identidade.

Se pudesse transformá-las em roupas, você o faria?
Enquanto estudava moda eu pensava muito sobre a relação da indumentária com o corpo. Sobre os limites e fronteiras entre uma coisa e a outra, essas inquietações me levaram a conceber a performance Ayer (2012). Mantive uma aproximação com a área – que tem acontecido muitas vezes de forma quase involuntária – e estar perto principalmente da área de figurinos de cena me tem trazido discussões incríveis sobre o que de fato é o figuro e podemos agora ampliar a questão para o que de fato são roupas. Veja, em minha performance Semen-te (2014) eu com o corpo completamente nu e sendo gradativamente recoberto por suor, saliva e sêmen não estava necessariamente com a preocupação voltada para a roupa. Até mesmo porque em um primeiro olhar não haviam roupas. No entanto, o professor pesquisador da ECA-USP, Fausto Viana,  fez uma leitura que considero muito interessante partindo desse trabalho, sobre o corpo nu com modificações corporais e que – naquela situação – construía uma espécie de figurino fluído com o sêmen. Tudo isso para dizer que talvez antes de pensarmos em transformar uma coisa em outra, precisamos pensar onde elas se separam e se é que se separam e como se dão essas relações. As situações que citei estão obviamente dentro do campo das artes, todavia não faço uma separação daquilo que é arte com aquilo que é a minha vida.

Por muitos anos os body mods vêm sendo chamados de “freaks” (estranhos) por parte da sociedade, você acredita que através da moda se consiga desconstruir este conceito?
Ano passado eu escrevi o Manifesto Freak que justamente pega uma palavra que foi por tempos utilizada para nos desumanizar e ressignifica o seu sentido, promove o empoderamento dessa população, a qual me incluo. Assim como foi feito com o Queer e o Crip foi feito com o Freak, nós estamos transformando esses símbolos de ódio e transformando em orgulho. Eu acredito de acordo com as minhas leituras e pesquisas que a moda já tem colaborado com a desconstrução do conceito freak como algo pejorativo. A importância da moda no Brasil, por exemplo, para a promoção e divulgação das modificações corporais contemporâneas é realmente forte e eu conto um pouco sobre isso em meu livro. Estamos anos luz de distância do que seria o cenário ideal, mas estamos trabalhando para melhorar isso. Tem muita gente empenhada e preocupada com a questão de quais corpos importam. A representatividade de todos os corpos é muito importante e tem sido cada vez mais considerada, de acordo com meu ponto de vista sobre o assunto. Inclusive na moda que usualmente trabalha com corpos que atendem sobretudo os interesses e as demandas hegemônicas. Nós precisamos estar envolvidos e envolvidas com essa questão, todos os corpos importam.

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