FRRRKguys: quando um filho completa dez anos…

“Prove que você é corajoso, confiável e altruísta que um dia será um menino de verdade.”
Fada Azul, Pinóquio.

Eu escrevi um texto para o site do FRRRKguys (FG) sobre os dez anos do projeto, que publicarei por lá logo depois deste. Recomendo a leitura.

Embora eu tenha criado o FG e faça sozinha toda a administração da plataforma, sinto que já há algum tempo ele não é algo só meu… É como se de alguma forma o menino de madeira quisesse ganhar vida, mais do que isso, é como se de fato tivesse ganhado uma forma de vida própria. Assim, nesse espaço mais particular, que é o meu blog, eu quero contar um pouco da minha relação pessoal ao longo desses dez anos de FG e o quanto esse projeto mudou a minha vida para além do bem e do mal. Talvez com esse texto vocês possam entender um pouco mais sobre o posicionamento crítico que adotamos por lá ao longo do tempo. Ou no mínimo conhecer um pouco mais sobre a pessoa que vos escreve agora.

Vamos fazer uma pequena volta no tempo… Em 2006, eu então com 24 anos, estava na completa e total merda e com uma forte inclinação ao suicídio. Explico. Eu sempre trabalhei e recebi uma educação muito forte voltada ao trabalho. Oficialmente comecei a trabalhar aos 15 anos de idade como officeboy interno de uma multinacional, consegui o trabalho através desses programas que fazem o intercâmbio entre empresas e contratados menores de idade. Na realidade, verdade seja dita, eu era ali qualquer coisa menos um officeboy. Fui colocada para trabalhar na expedição, mais precisamente em uma sala – tipo uma gaiola grande – para cuidar do material publicitário da empresa. Era um trabalho braçal e meio desapropriado para uma pessoa de quinze anos de idade, embora eu sentisse isso naquele momento, eu tinha sido domesticada para o trabalho e não para questionar as ordens das coisas. Eu basicamente precisava organizar, receber e despachar aquele material todo para o Brasil afora. Precisava também levar fardos e caixas para as secretárias dos poderosos da empresa. Uma delas era a minha chefe, legalmente falando, mas a nossa relação interpessoal era inexistente e guardo quase nenhuma memória sobre ela, além dela ser a pessoa que me contratou. A relação que eu construí nos meses que ali trabalhei – em regime de contrato temporário – eram com os manos do almoxarifado e expedição e vocês devem imaginar o que uma pessoa como eu deve ter passado em um ambiente predominantemente de homens cisgêneros e heterossexuais. Falo sobre isso em uma performance. Já sobre especificamente essa passagem, sinto que a empresa tenha agido de má fé e utilizado o programa para conseguir mão de obra mais barata, até porque a minha função não existia, legalmente falando. Vínculo empregatício zero. Ok, tudo isso era só para dizer que comecei a trabalhar cedo em uma situação bem longe de ser a ideal, mas que já passei a entender um pouco como a engrenagem do sistema gira.

Retornando para 2006, eu havia acabado de sair da empresa que trabalhei por quase cinco anos – infelizmente ela foi terceirizada – e que me aceitava exatamente como eu era, isto é, um corpo com modificações corporais. Em minha doce ilusão acreditava que facilmente me recolocaria no mercado por conta do meu know-how, experiência e currículo, o que obviamente não aconteceu declaradamente por conta do corpo que eu era. Comecei a me deprimir com a situação. Não porque estava passando fome ou na completa miséria financeiramente falando, mas porque eu tinha um padrão de vida que em minha completa inocência estava pronto, seguro e aspirando apenas por ascensão. Deprimi sobretudo porque o tempo inteiro portas eram batidas na minha cara com um pedido cínico de “não exista“, o que me foi dito sendo usado vários tipos de eufemismos. Você ouve tanto isso – não seja você, desista disso, olha o que você virou – que uma hora a coisa se introjeta.

A grana que eu ganhei pelos meus direitos trabalhistas e seguro desemprego foi obviamente que se acabando. Precisei trancar a faculdade de Moda porque não tinha mais como pagar as mensalidades, aquele curso, naquele momento da minha vida era o meu sonho. Lembro como hoje o exato momento que assinei o documento do trancamento da matrícula e como voltei em pedaços para casa, me sentindo um grande pedaço de merda, a imagem daquilo que deu errado. Na verdade eu não tinha mais vontade de voltar para casa, eu não tinha mais vontade de nada dali em diante… Essa é a verdade.

Uma das últimas coisas que restavam de positivo no calor dos meus 24 anos era um namoro, que obviamente se tornou insustentável ao passo que eu me deprimia cada vez mais e fui me tornando a pessoa mais indigesta que se pode imaginar. Colapso. Fui entrando em uma abismo profundo e não tinha mais vontade de viver e não tinha nem vontade de dizer para ninguém que eu não queria mais viver. Tinha perdido o trabalho que eu adorava, não conseguia mais me recolocar no mercado de trabalho, tinha trancado o curso dos meus sonhos e rompi um namoro que era importante demais e que mesmo assim eu não tinha condição alguma em manter.Fora os insistentes conselhos para eu deixar de ser como eu era e as questões sobre as LGBTfobias que nunca param de nos assombrar. Sério, é horrível você ver as coisas simplesmente escapando entre os seus dedos feito areia fina. Você assiste tudo sendo destruído, sabe que aquilo é com você e simplesmente não sabe como ou se quer fazer algo pra mudar, apenas assiste. Você se destrói, dia por dia um pouco mais… Adoeci, claramente eu adoeci e sabia que não resolveria o meu problema com uma aspirina ou duas.

Foi exatamente no meio do olho do furacão desse processo da minha vida que o FG surgiu como um projeto no Fotolog. Perceba que é 21 de Junho o seu nascimento, exatamente no meio do ano.  Em uma das fases em que mais estive fragilizada e destruída e confesso que acho até estranho que eu tenha conseguido superar, que eu esteja agora aqui escrevendo essas histórias, que muito provavelmente sem o FG poderiam não existir. E talvez agora com essas palavras que escrevo a minha militância sobre os assuntos relacionados ao corpo e direitos humanos esteja mais clara e explicada, não que eu devesse para alguém algum tipo de explicação, mas porque senti que eu precisava falar sobre essas coisas todas. Como canta o Mano Brown,”eu não li, eu não assisti, eu vivo” o que escrevo.

O FG trouxe para minha vida uma rede de afetos de pessoas maravilhosas, aprendi muitas coisas, muito – mas muito mesmo – além das modificações corporais e tive a chance de viajar para vários lugares por conta desse projeto. Coisas que eu jamais pensei que um dia fosse fazer na vida. Eu sempre disse que mais do que ver o garoto com modificações prontas eu gostava mesmo é de acompanhar os processos, as metamorfoses… Não foi de graça que me tornei assumidamente pesquisadora. Então, ao longo desses dez anos eu tenho tido o privilégio de acompanhar vários processos, diversas metamorfoses e isso é precioso para mim. Eu tenho visto um monte de gente crescendo e se desenvolvendo e eu adoro isso. Eu adoro saber que vi pessoas maravilhosas desabrochando para esse mundo. Vi coisas ruins e desagradáveis, tive um punhado de decepções também, mas isso é realmente pequeno demais quando olho para trás e penso comigo, dez anos e ainda estamos aqui. São dez anos, cara!

Honestamente eu não sei se o FG vai completar outros dez ou quantos outros anos mais, justamente por isso eu quero celebrar esse momento, quero celebrar o agora, essa passagem que para mim é muito significante e cheio de vida, principalmente quando penso em retrospecto. Celebrar principalmente para agradecer, porque sei que sem o FG a minha vida poderia ter sido apagada uma década atrás ou no mínimo ter sido apenas um lugar sem muita graça que me deixaria passar por esse mundo com a sensação que não fiz nada que realmente importasse.

Agradeço cada pessoa que passou pela construção do FG durante esses dez anos. Mesmo aquelas que por um motivo ou outro eu não converse mais ou não veja com a mesma frequência. Se você passou por essa plataforma, você colaborou com uma das melhores coisas da minha vida e te agradeço imensamente por isso.

Feliz 10 anos ao FRRRKguys.

T.

VENHA CELEBRAR COMIGO, por favor! ❤
https://www.facebook.com/events/473271176155561/

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: