Que a fada azul descanse em paz…

“Eu sei que tem pessoas que dizem que essas coisas não acontecem, e que isso serão apenas histórias um dia. Mas agora nós estamos vivos. E nesse momento, eu juro, nós éramos  infinitos.”
As vantagens de ser invisível – Stephen Chbosky

 

Quando somos adolescentes, melhor dizendo, quando somos mais jovens do que o nosso presente, temos a sensação de infinitude. É como se as vidas, a nossa e a dos que nos rodeiam, fossem durar para sempre. Repetidamente pensamos e dizemos o apaixonado para sempre. Cássia já cantava que o “pra sempre, sempre acaba”. É…

Hoje é um domingo frio. É também confuso e cheio de dor com o massacre que aconteceu em Orlando. A notícia da partida de um amigo vem a somar com essa onda de sensações agudas e ingratas.

Tem um filme passando repetidamente em minha cabeça. As memórias da minha adolescência ficaram mais vivas através da morte dele. Adolescência especificamente foi quando eu acreditava que fossemos eternos e brindava essa sensação com doses cavalares de vinho barato y otras cositas más. Tenho certeza que de algum modo esse meu amigo comungava dessa sensação comigo. Mas nós não só não somos eternos, como somos de uma fragilidade tamanha.

Nos conhecemos quando havia um clube de música eletrônica aqui na cidade, a Mix. Era um lugar que corríamos menos risco, que poderíamos nos divertir um pouco mais livremente. Como os ciclos de amizades eram curtos, não demorou para que nos conhecêssemos. Antes disso eu olhava para ele com um certo medo por conta de sua altura, que na verdade era mais reflexo da minha insegurança juvenil.

Acredito que foi na A Loca que começamos a chamá-lo de Tia, se não me falha a memória para atender ao seu próprio pedido. Saltam agora incontáveis memórias divertidas e surreais. As nossas bebedeiras, as danças, as tretas… Lembro que ele me contava com muito entusiasmo sobre sua primeira tatuagem da “blue fairy” e das estrelas que queria tatuar. Ele era a fada azul. Lembro também que ele dizia com um tom de deboche “vocês são as stars”, insinuando que de algum modo fossemos esnobes ou coisa que o valha.

Nos reuníamos frequentemente para beber muito, conversar e dançar. Nas conversas pudemos ir conhecendo um pouco mais uns dos outros. Então descobrimos que tínhamos em comum o ceratocone, a religião como força opressora em nossas histórias, além da vida desviante. Soube o quanto a homofobia havia sido algo marcante para ele e hoje eu entendo isso muito mais do que antes. Precisei desconstruir um monte de preconceito que eu tinha, um monte de ideia errada e ruim… Hoje eu o entendo muito mais e agora mais do que nunca. E é verdadeiramente uma lástima que precisou demorar todo esse tempo. É uma lástima que os sinais só ficaram claros agora com esse triste fim.

Tempo, tempo, tempo…

O tempo foi passando, as vidas de todas as pessoas do nosso grupo de amigos foram seguindo e mudando. Buracos foram se abrindo. “Nada, exceto o mutável perdura” já dizia Mary Shelley. O convívio que era frequente, foi ficando espaçado, espalhado, difícil de se juntar. O que chamamos de o fluxo natural da vida… Seja lá o que isso signifique…

Sim, eu e ele tivemos as nossas desavenças porque ele não era uma pessoa fácil e eu também não era e não sou. Depois de um hiato de tempo, o contato foi ficando pelas redes sociais e nas raras visitas que ele fazia aqui em casa ou os encontros ao acaso que eram de certa forma frequentes. Ele acabou ficando amigo de minha mãe, que inclusive sempre o estimou com muito carinho e os dois construíram uma relação deles, independente.

Lembro que em minha primeira suspensão o encontrei no metrô Saúde, ele estava com uma camiseta colorida e brinco de pena. Como assim fui o encontrar ali? Por fim, nos acertamos, nos encontramos pelo acaso novamente depois que eu operei em 2012 e logo depois ele me escreveu dizendo que eu havia feito parte da vida dele e isso não se apagava nem com cachaça. Concordei e, hoje ainda mais, não se apaga e nem com cachaça mesmo. Principalmente quando a cachaça foi pano de fundo para tantas das nossas histórias.

É… Quero e vou me lembrar dele pelas coisas incríveis que vivemos, pelas músicas deliciosas que dançamos, pelos porres homéricos que tomamos juntos. Vou me lembrar dele como alguém que participou de uma das principais fases da minha vida. Com certeza através dele pude aprender muitas coisas e o agradeço pela partilha da vida.

Hoje a minha militância pelos direitos humanos, principalmente no combate de famílias que abandonam os seus por conta de seus corpos (o que abarca sexualidade e gênero), tem com certeza influência do que aprendi com ele, do que ouvi dele. A negligências que recebemos nos mata e precisamos falar sobre isso. Precisamos falar sobre isso todo dia. Não podemos mais morrer – ou deixar que morram – por conta disso.

Desculpe pela minha impaciência, por não ter sabido ler os sinais que você mandava, por não ter conseguido entender o que os nossos encontros ao acaso queriam dizer. Desculpe se contribui de alguma forma com algum tipo de negligência de afeto.

Te agradeço pelas partilhas e pelo carinho dessa vida. Descanse em paz, eterna Tia. Que o universo te abrace com  muito amor, blue fairy.

T.

 

Ps. Nas últimas semanas tive a companhia muito forte da memória  do dia em que eu completamente chapada dublava Rock is dead do Manson, fazendo uma vassoura de microfone e você era o meu público e dizia – tão chapada quanto eu – que eu era o Manson. A gente riu muito nesse dia. Obrigada por essas memórias.

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