Registros da palestra ‘Manifesto Freak e outras conversas sobre o corpo modificado’

Na última quarta-feira (20) estive participando da 1ª Semana de Arte Corpora Rio Preto Ink. Um encontro bonito demais e deixo aqui meu agradecimento para todas as pessoas que passaram por lá e fortaleceram o debate. Memorável. ❤

Abaixo torno público o texto que escrevi para a ocasião.

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Manifesto Freak e outras conversas sobre o corpo modificado

 

Manifesto escrito por T. Angel partindo de vivências autobiográficas e experiências nos meios das modificações corporais brasileiras. Pensado com base nas interlocuções anárquicas e poéticas fomentadas pela primeira década do FRRRKguys. Inspirado no body hackitivism, na teoria queerteoria crip e em todas as teorias em curso sobre possibilidades de vidas desviantes. Esboçando aquilo que podemos chamar de teoria freak ou a teoria dos anormais. Apropriando-se e ressignificando o termo freak. 

Nossos mais sinceros agradecimentos para todas as pessoas que leram e releram e compartilharam seus pareceres enquanto esse manifesto se desenvolvia.

 

Construção do Manifesto Freak

Manifesto Freak foi escrito no final de 2015, com a intenção de publicação somente em janeiro de 2016. No entanto acabou sendo publicado antes, reconhecendo-se uma urgência de tocar em alguns assuntos, assim como a urgência da própria vida e por isso a antecipação.

Manifesto surge na ocasião dos 10 anos de FRRRKguys (FG). Inicialmente a intenção era a de escrever algo específico para a plataforma, mas com o processo da escrita, sentimos que precisava escrever de modo mais aberto e abrangente, que extrapolasse o próprio FG.

Como um addendum e falando aqui especificamente em primeira pessoa, é importante dizer que os 10 anos de FG, estão dentro dos meus anos com a pesquisa do corpo modificado e penetrados na minha própria história pessoal como alguém que automanipula o próprio corpo. Nesse sentido, podemos estabelecer três linhas “separadas”, mas que se encontram na construção desse manifesto:

  • Uma década de FRRRKguys;
  • A minha vivência como pessoa que pesquisa o corpo modificado;
  • A minha biografia;

 

Após a publicação do manifesto foi interessante ver a quantidade de pessoas que se identificaram rapidamente com a escrita e a ideia proposta no texto. Até o dia 07 de Fevereiro de 2016 haviam acontecido 67 compartilhamentos somente do meu perfil pessoal. O texto foi publicado posteriormente em meu blog pessoal e no site do FG. Considero o número de compartilhamentos alto, uma vez que tenho a consciência de que o manifesto seja bastante crítico, politizado, progressista e interseccional. Nem todo mundo quer levantar bandeira contra todas as opressões, nem todo mundo quer levantar bandeira contra a LGBTfobia e o capacitismo, por exemplo. Dito em outras palavras, o manifesto está infestado e atravessado por inúmeras lutas sociais e com a ideia de justiça social e é sabido que a maior parte da comunidade da modificação corporal dá de ombros para tudo isso.

Penso que as perspectivas do Manifesto Freak são muitas. Logo após a publicação do texto, um moço da Espanha me escreveu dizendo que pela primeira vez estava vendo se falar sobre gordofobia e especismo dentro da comunidade da modificação corporal. E achei interessante e positivo receber esse feedback dele. E o mais curioso é que alguém da Espanha tenha escrito, no momento em que o manifesto também tece críticas a ideia de colonização e faz uma reivindicação de um lugar de fala para a história da modificação corporal brasileira, tupiniquim, latinoamericana. Lugar este que não existia – como se fez agora – uma década atrás. Todo referencial sobre as modificações corporais vinham do exterior, majoritariamente Canadá, Estados Unidos e países Europeus com grande poder econômico.

Confesso que eu estava esperando críticas negativas sobre a publicação do manifesto, mas não aconteceu (ainda). Mas essa minha expectativa da crítica estava mais no desejo de rever minhas ideias, noções e tudo mais. Um desejo de melhorar enquanto pessoa mesmo. Filosoficamente, politicamente e humanamente falando. Ah! Um ponto muito importante, de verdade, para o processo de escrita e que precisa ser dito é que eu enviei o texto enquanto estava sendo elaborado para um punhado de pessoas e eles fizeram sinalizações, compartilharam sensações, etc. Foi muito importante mesmo esse processo.

E o que existe nesse Manifesto Freak? Bem, há o discurso do excesso, em tomar posse de si, sobre autonomia de existir, sobre a monstruosidade como possibilidade de existência e resistência, aproximando corpos que são considerados abjetos, e apontando para necessidade de ver todas essas questões através da luta de classes. Também tem a questão da invisibilidade como ferramenta anárquica e poética de existência. Especificamente a invisibilidade que sugiro no Manifesto Freak é mais no sentido da que o Critical Art Ensemble traz, como poder nômade e resistência cultural. É de conseguir existir no underground ao ponto do Estado não conseguir nos encontrar.

 

Osasco, 27 de Dezembro de 2015.


MANIFESTO FREAK

– Somos freaks!

Nossos corpos e subjetividades são estranhas, esquisitas, abjetas, anormais, monstruosas. Somos os nossos corpos.

– Somos o corpo muito gordo, o muito musculoso, o muito magro, o muito branco, o muito preto, o muito vermelho, o muito amarelo, somos policromias barulhentas. Somos o excesso, somos o exagero que causa distúrbio em sua zona de conforto.

– Somos a mulher vampiro, o enigma, o homem lagarto. Somos o gato que não é macho e nem fêmea e é. Somos a mulher com pênis, o homem com vagina, o menino sem genital, sem nariz, somos as pessoas que não têm gênero. Somos o ruído das normatividades sexuais. Somos o anjo, o demônio, o alien, o cyborg, o xamã. Somos o pássaro, o diamante negro, o tabuleiro, as deusas, os heróis e os vilões das estórias e mitologias. Somos o passado, o presente e o futuro. Somos zumbis, a negra, guerreiras, entidades de chifres, línguas bipartidas e alma serena. Somos quimeras. Somos as cicatrizes dos nossos corpos. Somos os amputados, as cegas bailarinas, os surdos e os mudos eloquentes. Embalamos o mundo em uma cadeira de rodas.

– Somos a lagarta, o casulo, a borboleta e o pó. Somos a metamorfose. Poeiras de estrelas.

– Sabemos que a nossa monstruosidade varia de acordo com o nosso poder financeiro. Quanto menos dinheiro temos, mais monstruosos e abjetos somos. O tamanho da nossa monstruosidade aumenta acompanhando o tamanho da hipocrisia e mau caratismo de quem segue essa linha de raciocínio.

– Alteramos por iniciativa pessoal e, pelas mais diversas motivações, as cores das nossas peles, escleras e as silhuetas dos nossos corpos. Perfuramo-nos e nos permitimos consensualmente ser perfurados. Em nossos corpos inserimos próteses artificiais, removemos partes, criamos relevos, inventamos texturas e novas possibilidades estéticas, místicas e éticas de existência.

– Não há interesse em se preocupar com a harmonia das cores e das formas quando pensamos sobre os nossos corpos. A preocupação está em atender as nossas próprias demandas, necessidades e os nossos anseios, desejos e gostos, baseados naquilo que individualmente acreditamos e entendemos como belo ou grotesco e a infinitude de todas as possibilidades existentes entre um conceito e outro.  Nossos corpos, nossas escolhas.

– Buscamos a harmonia entre a nossa presença e experiência, isto é, a forma que nos colocamos no mundo.

– Não nos preocupamos se o mercado de trabalho vai nos aceitar ou não. A nossa preocupação está em como ainda aceitamos que o mercado de trabalho exclua pessoas baseando-se na vileza dos julgamentos sobre aparência. Julgamentos estes que alimentam, sobretudo, um princípio racista. Caráter não vem impresso do lado de fora do corpo.

– O nosso corpo é uma construção social. O seu também é.

– A modificação corporal é um legado social, cultural, político, artístico, logo, histórico da humanidade. Um patrimônio efêmero, um legado precioso e sagrado.

– A modificação corporal é uma extensão daquilo que você é. Tenha orgulho do que você é. Não permita que ninguém retire o seu orgulho de você.

– Não existe modificação corporal que não seja política. O corpo é político em si. Viver em si é um ato político.

– Não existe corpo vivo que não seja modificado.

– Buscamos compreender e se fazer compreender as modificações corporais reconhecendo as nossas especificidades tupiniquins e latinas. Temos uma vivência rica e complexa que não pode e não deve ser pormenorizada. A nossa história com as modificações corporais é anterior a colonização. A colonização foi responsável pelo extermínio de parte dessa história. A colonização não acabou ainda.

– Recusamos seguir perpetuando noções colonizadas e colonizadoras sobre os nossos corpos. Recusamos seguir perpetuando noções colonizadas e colonizadoras sobre os conhecimentos dos estudos dos corpos.

– Não queremos mais que apenas os doutores e as doutoras teorizem e busquem definições sobre o que somos. Nós queremos contar o que somos, com a nossa própria voz, com a nossa própria escrita, com o nosso próprio silêncio, com o nosso próprio corpo.

– A Teoria Freak deverá ser escrita pelas próprias pessoas freaks. A Teoria Freak deverá ser contada, principalmente, pelas próprias pessoas freaks. E, então somente, na ausência destas ou na total impossibilidade da presença destas, é que precisaremos de alguém que fale por nós. Reivindicamos a nossa presença, recusamos o confinamento da nossa existência nas sombras e nos bueiros.

– Assumimos e nos levantamos contra a normatividade e a domesticação da vida. Não somos corpos dóceis. Nós queremos dançar ao som da destruição da normatividade compulsória.

– Não aceitamos que a família, a igreja, a ciência ou, tão pouco, o Estado diga-nos o que podemos fazer com os nossos corpos. Não precisamos de um selo de aprovação ou etiqueta de autenticidade de nenhuma instituição para existirmos, já somos uma realidade. Não estamos pedindo permissão para existir, estamos dizendo em alto e bom som que já estamos aqui e buscamos uma coexistência pacífica.

– Não precisamos pedir autorização para sermos quem somos, assim, dispensamos a noção patriarcal, violenta, controladora e autoritária de ter que pedir permissão e comprovar que somos o que somos – para então, somente depois de que alguém que não nós, diga que somos – para que a nossa existência tenha validade e dignidade. Nós já somos uma realidade. A nossa existência não só tem validade como está plena em legitimidade. Exigimos dignidade!

– Não existe dignidade sem autonomia sobre o próprio corpo.

– Toda ofensa feita sobre a nossa estética só expõe a sua falta de ética sobre a plenitude da vida.

– A biologia diz que sem diversidade não haveria vida. A cultura diz que sem diversidade não haveria vida. Nós dizemos que sem diversidade não haveria vida.

– Entendemos que compomos uma minoria. Entendemos que, assim como as chamadas minorias, sofremos opressão e parte de um processo de exclusão social e segregação espacial. Por isso e com a plena consciência do sistema violento que vivemos é que endossamos os discursos e lutas contra a misoginia, o machismo, o elitismo, o sexismo, a gordofobia, o racismo, o capacitismo, o etarismo, as LGBTQIfobias, a xenofobia e etc. Conclamamos e alertamos também da importância da conscientização sobre a luta contra o especismo. Nós, seres humanos, não estamos no topo de absolutamente nada. Não nos superestimemos.

– Lutemos contra o autoritarismo, a injustiça, a opressão e o controle dos corpos, mesmo que isso implique levantes contra as próprias pessoas da comunidade da modificação corporal. O discurso dominante é poderoso, o dinheiro é poderoso e corrompe, o poder é poderoso, corrompe e é vicioso.

– Não permitiremos que aconteça assimilação daquilo que somos. Nem por imposição econômica, nem por imposição familiar, nem por imposição religiosa, nem por imposição do Estado, nem por você e nem por ninguém. Só seremos invisíveis – e podemos sê-lo – quando então quisermos. Nós escolhemos!

– Ser invisível é resistência contra um aparato institucional estatal violento, autoritário e opressor. Se for preciso ser invisível para que a nossa existência não seja exterminada e apagada, assim o seremos. Repetindo: ser invisível deve ser uma escolha nossa e não uma imposição de outrem.

– Não queremos atender os interesses de uma vida normativa, pois não acreditamos nesse modelo fabricado e enlatado. A normatividade é uma ilusão violenta que fizeram você acreditar que é a única verdade possível.

– Não existe uma única realidade possível.

– Não existe um único modelo de corpo possível.

– Não existe uma única possibilidade de felicidade possível.

– Não existe um único caminho. Nunca existiu e nem nunca existirá. Se for preciso caminhar na terra, caminharemos. Se for preciso caminhar na água, caminharemos. Se for preciso aprender a voar, aprenderemos. Adaptação, evolução, revolução.

T. Angel

 

 

Relato autobiográfico: quando se descobre o estranho no ninho…

 

 “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. ― O que aconteceu comigo? — pensou.”
Franz Kafka, A Metamorfose
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Não sei exatamente o ponto da minha vida em que me descobri como a pessoa estranha no ninho da normatividade compulsória que se vende no comercial da televisão. Talvez assim como Samsa de Kafka eu tenha acordado em uma manhã qualquer metamorfoseada em uma figura monstruosa, não necessariamente em um inseto como ele, mas ainda assim monstruosa.

Eu não sabia que eu era estranha até que me dissessem. O que nunca é dito com algum tipo de afeto e cautela: – “escute, querida, você me parece anormal, é uma pessoa estranha”. Em meu caso e pelo que ouvi de pessoas como eu é que isso acontece quase sempre com uma espécie de pedrada na cabeça que é desferida – por mais assustador que isso soe – pelas pessoas mais próximas de ti. Dói e machuca. “Olha o que você virou”, ou o desconsolado “olha o que você está fazendo com você” ou ainda o trágico “o que você espera que as pessoas pensem” e todo tipo de frase para explicitar o quanto rejeitam você.

Eis que você tem uma vida que segue um fluxo que alguém desenhou para você, no entanto, quando você alcança a maturidade para começar a tomar as rédeas dessa vida que é sua, vem o primeiro tapa e você se assusta. Então descobri que determinadas coisas que eu fizesse com meu corpo, por exemplo, poderiam me colocar para fora de casa. Era uma ameaça que poderia ou não acontecer, mas era uma ameaça hostil e violenta.

O primeiro furo no corpo e a avalanche de conflitos. Então você realmente percebe que há algo de errado. As ameaças mudam, os conflitos mudam, mas estão ali o tempo todo dizendo para você não existir, não ser quem você é. E eu me recusava ser invisível, eu me recusava não ser eu.

No colégio as perseguições constantes que diziam repetidamente “o seu corpo não pode estar nesse espaço”. Em um desesperado pedido de ajuda a resposta da instituição que se mostrou extremamente despreparada para lidar com educação de jovens, dizia que eu deveria me anular, me esconder, que eu não deveria ser como eu era e para minha própria segurança física. Fizeram-me crer que a culpa da violência simbólica que eu estava sofrendo era minha.

Na rua as risadas, os gritos, os xingamentos, o dedo sendo apontado para ridicularizar a minha existência, a pedrada deixava de ser apenas metáfora e junto com isso ficava explícito que eu era uma aberração. Correr para não apanhar e encontrar formas para seguir existindo passou a ser uma constante. Em uma vez corri mais do que as minhas pernas poderiam aguentar e cai, rasguei o joelho no asfalto, esfolei minhas mãos e passei o resto da noite com muito medo. Depois corri de novo em outra situação e era uma lástima como o medo da violência física virava um pesadelo. Comecei a perceber o perigo eminente em ser uma pessoa estranha. Mas aquilo era exatamente o que eu era.

A dificuldade em conseguir trabalho era uma realidade. A ameaça de perder o trabalho por conta das modificações corporais era outra realidade, “você precisa escolher” eles disseram e isso destruía meu coração de adolescente e me fazia adoecer frequentemente. Então, você consegue um trabalho e precisa provar que tem alguma capacidade, já que sempre o que se espera é o pior de você. E existe uma espécie de torcida para que você se dê mal. Cansa ter que atestar o tempo todo inocência, eficiência e essas coisas todas apenas por conta do que se é.

A vida não para e você perde emprego e depois você se encontra com as velhas novas dificuldades em se recolocar no mercado formal. O texto do “você não tem o perfil da empresa” era um eufemismo cínico que ouvi muitas vezes e como as corporações são cínicas em sua forma de lidar com pessoas. É o tempo inteiro você sendo jogada na sarjeta e com as migalhas do que se chama dignidade esperam que você sobreviva de alguma forma. Então você se deprime e pense em tirar a sua vida de campo, pois nada mais faz sentido.  O que você é claramente é combatido para que você não seja e isso é violento em demasia. Não exista, não exista, não exista é o que basicamente te dizem o tempo todo. E o sussurro suicida que começou a me acompanhar não tinha nenhuma relação com as modificações que eu vinha fazendo em meu corpo, mas sim com a minha interação com um sistema que me dizia o tempo todo para não existir. E eu consegui ter forças para dizer que não, eu não iria desistir.

Então, aqui estou contando essa breve história. Que parece ser trágica e dolorosa e que realmente o é, mas que eu gostaria que fosse vista além isso, como um caminho de possibilidade.

Hoje conheço tantas outras histórias que se parecem com a minha, algumas mais sutis e outras mais severas. Hoje tenho a chance inclusive de ceder meus ombros e abraços para acalentar pessoas que estão passando por situações parecidas como as que passei. Tenho o privilégio em ter encontrado ombros e abraços para me acalentar também nessas estradas. Infelizmente não são histórias que ficaram para trás em um passado vergonhoso do que fomos, elas ainda estão sendo escritas com essa mesma intolerância, não passamos vergonha o suficiente no que se refere ao tratamento cruel que temos uns com os outros. São pessoas que são expulsas de casa, que são agredidas fisicamente pelos pais e mães e tios e tias e irmãos e irmãs. Que são impedidas de estudar. São pessoas que perdem o emprego ou que nem ao menos têm a chance de conseguir um por conta de seus corpos e que vai se tornando mais agudo e crítico quando analisamos essas questões pelo prisma dos privilégios.

Então uma pessoa que tem uma receita muito fácil para todos os problemas do mundo deve estar pensando que eu deveria ter mudado e jogado com as regras do jogo. Para essa pessoa eu gostaria de dizer que embora ela esteja dizendo para que eu não exista, eu gostaria muito que ela entendesse que as coisas não são simples assim, como quem aperta um botão para mudar de canal na televisão. Gostaria de dizer que as pessoas realmente não são todas iguais e que isso deveria ser celebrado com alegria e não combatido da forma ferrenha que o é. Que algumas pessoas, como eu, constroem suas identidades através de técnicas para modificar o corpo e isso é exatamente o que eu sou. Se isso mudar – e eu juro que tentei – o que eu sou quebra e morre. Eu bem sei que um dia ei de morrer, mas recuso que a causa mortis seja porque em algum momento dessa história desisti de mim. Não desistam nunca daquilo que vocês são, ainda que todo o sistema te diga o contrário o tempo todo e insistentemente.

Primeiro me fizeram crer que ser estranha era uma lástima, e eu descobri – aos trancos e barrancos – que ser estranha era a única salvação.

 

 Manifesto que aponta para o horizonte

 

“Estamos entrando numa época em que as minorias do mundo começam a se organizar contra os poderes dominantes e contra todas as ortodoxias”
Félix Guattari, “Trois Milliards de Pervers”, março de 1973

 

É preciso antes de seguirmos com a nossa conversa entendermos ou dizer o que entendemos como sendo um Manifesto. Na literatura, define-se manifesto como uma declaração pública de princípios e intenções, que objetiva alertar um problema ou fazer a denúncia pública de um problema que está ocorrendo, normalmente de cunho político ainda que possam ser também, por exemplo, artísticos ou científicos. O manifesto destina-se a declarar um ponto de vista, denunciar um problema ou convocar uma comunidade para uma determinada ação e especificamente no Manifesto Freak vemos um pouco dos três, principalmente o último item, a convocação. Temos a plena consciência que a maior parte da comunidade da modificação corporal brasileira está desconectada da maioria das questões propostas no manifesto. E se formos entender o manifesto como uma utopia, acendemos as vozes de Eduardo Galeano e com suas palavras diremos que sim, “a utopia está lá no horizonte” e é nesse sentido que nos movimentamos com esse manifesto.

Alguns manifestos se tornaram historicamente importante deveras, a exemplo, o Manifesto do Partido Comunista (1848) de Marx e Engels, o Manifesto Antropofágico (1928) de Oswald de Andrade e, para a comunidade da modificação corporal especificamente, o Body Hacking Manifesto 2.0 (2004) de Lukas Zpira.

 

 Freak, friki e a etimologia do estranho

Assim como se fez importante tornar claro a nossa compreensão sobre o manifesto, se faz importante elucidar a escolha e o significado da palavra freak ou friki ou ainda uma etimologia do estranho, sendo a palavra traduzida do inglês.

A escolha. O Manifesto Freak fala abertamente sobre descolonização e clama por uma construção de história acerca do corpo modificado que seja tupiniquim e latina, clama para que esses fios não estejam desconectados da trama e que se reconheça as especificidades de nossa própria história como uma Terra que foi invadida, saqueada, explorada, colonizada, que amargou a escravidão indígena e africana, um país que carrega nos ombros as mãos pesadas de 21 anos de Ditadura Civil e Militar, fatos estes que obviamente impactaram em nossas relações com os nossos corpos, subjetividades e vidas.. Ainda assim, optou-se em manter o freak do inglês e não a palavra traduzida como uma espécie de marcação de uma colonização que não teve fim. Espera-se que toda vez que se leiam o Manifesto Freak que é o Manifesto Friki e que é o Manifesto do Estranho se pense nisso de modo crítico.

A tradução. Segundo o dicionário de Cambridge a palavra freak significa estranho, isto é, uma coisa, pessoa, animal ou evento que seja extremamente incomum e improvável, e não como algo de seu tipo. Também tem sido usada para falar sobre pessoas extremamente interessadas em algum assunto ou atividade em particular. Também pode ser um verbo, principalmente em situações emocionais e é também um adjetivo. Trabalhando agora com a palavra estranho, que incontáveis vezes a vemos ser empregada como uma forma pejorativa de tratar o próximo em casos violentos de desumanização. Embora seja uma palavra ambivalente, raramente a vemos sendo empregada no sentido positivo quando projetada em grupo de pessoas. Segundo o dicionário Michaelis, estranho quer dizer:

adj (lat extraneu) 1 Estrangeiro, externo. 2 Que é de fora; alheio. 3 Sem qualquer ligação com. 4 Esquivo. 5 Extraordinário, surpreendente. 6 Impróprio.7 Repreensível.

sm 1 Indivíduo estranho. 2 Pessoa que não pertence a uma corporação ou a uma família.

 

Já que estamos buscando entender a etimologia do estranho, usaremos os estudos de Sigmund Freud  que se ocupou do assunto e escreveu o artigo Estranho (Das Unheimlich), publicado em 1919 ainda que não se conheça quando ele foi escrito, percebe-se em nota no Totem e Tabu (1913, p.300) que o tema já se mostrava presente nas pesquisas do psicanalista. E daqui em diante, debruçados no pensamento de Freud, que falaremos sobre o estranho.

 Freud apontava naquele momento que a temática acerca do estranho foi um ramo negligenciado pela literatura especializada da estética, assim como mais tarde Jacques Le Goff nos apontava como o próprio corpo em si esteve fora da preocupação da História e dos estudos promovidos por historiadoras e historiadores. Enquanto na História a preocupação estava nos grandes feitos e dos grandes homens em uma espécie de história desencarnada, ainda que se tenha claro a noção do grande homem encarnado na figura do homem, branco, cisgênero, heterossexual, ocidental e judaico-cristão, nas demais literaturas especializadas da estética a preocupação morava apenas naquilo que é belo, atraente e sublime o que é altamente questionável, por ser maniqueísta, por ser condicionado à uma construção cultural e social restritamente ocidental. Isto é, em desacordo com a pluralidade e diversidade humana, limitado em sua fundamentação.

Ainda, a ideia do que é belo é algo que perpassa o campo da sensibilidade e é importante ter claro que se trata de algo subjetivo, isto é, variável ou que pode variar individualmente e sendo assim, temporalmente, espacialmente, culturalmente, socialmente, por fim, historicamente. Freud e antes dele o artigo do psiquiatra Ernst Anton Jentsch (1906) apontavam a variabilidade das sensibilidades individuais e o impacto disso nas percepções daquilo que pode ser considerado e sentido como estranho. Ainda que neste autor, o estranho estaria condicionado somente naquilo que é novo e no que não é familiar e sendo assim insuficiente e incompleto para dar conta da discussão. Aquilo que é considerado estranho como aquilo que é assustador, ruim, e munido de uma intenção maldosa e que tenha a intenção de prejudicar assim o é por condicionamentos, que trataremos mais adiante.

 Retornando aqui para a etimologia da palavra feita por Freud, foi chocando-se com casos individuais e com uma espécie de investigação linguística que ele nos mostra como chegou em uma possível definição do estranho. A relação na língua alemã segundo ele:

 

A palavra alemã ‘unheimlich’ é obviamente o oposto de ‘heimlich’ [‘doméstica’], ‘heimisch‘ [‘nativo’] — o oposto do que é familiar; e somos tentados a concluir que aquilo que é ‘estranho’ é assustador precisamente porque não é conhecido e familiar. Naturalmente, contudo, nem tudo o que é novo e não familiar é assustador; a relação não pode ser invertida.

 

Assim sendo, aquilo que é novo pode vir a se tornar assustador e estranho, mas de modo algum pode ser generalizado. Pensando as modificações corporais, que não são novas e são tão antigas que não podemos datar, o estranhamento tem outras raízes e bastantes obscuras. É aquilo que Freud dizia que seria o algo a mais para identificar o motivo que determinada novidade seja categorizada como estranha, assustadora e aquilo que é mal.

Em geral, somos lembrados de que a palavra ‘heimlich‘ não deixa de ser ambígua, mas pertence a dois conjuntos de ideias que, sem serem contraditórias, ainda assim são muito diferentes: por um lado significa o que é familiar e agradável e, por outro, o que está oculto e se mantém fora da vista. unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas veio à luz. Os corpos que podem ser compreendidos como não dóceis e não normativos – o corpo não heterossexual, o corpo não cisgênero, o corpo negro, o corpo índio, o corpo com deficiência, o corpo modificado – vieram à luz, recusando uma existência nas sombras e mais do que isso, reivindicando o direito básico de uma existência digna.

O tema do estranho relaciona-se indubitavelmente com o que é assustador, com o que provoca medo e horror e é justamente amparado nessa noção que se produz e reproduz o uso pejorativo do termo principalmente quando projetado em grupos de pessoas. Como mencionamos o condicionamento em que essa relação se estabelece, é importante ter claro que é sobretudo abraçada fraternalmente por noções racistas. Embora a palavra nem sempre seja usada num sentido claramente definível uma vez que ela é ambivalente, os discursos de ódio são facilmente identificados e é preciso estarmos atentas e atentos sobre isso.

Ainda sobre condicionamento e utilizando o estudo de Freud e Jentsch, vamos discorrer sobre o estranho como aquilo que é inumano e aquilo que é desumanizado. Escreve Jentsch:

‘Ao contar uma história, um dos recursos mais bem-sucedidos para criar facilmente efeitos de estranheza é deixar o leitor na incerteza de que uma determinada figura na história é um ser humano ou um autômato, e fazê-lo de tal modo que a sua atenção não se concentre diretamente nessa incerteza, de maneira que não possa ser levado a penetrar no assunto e esclarecê-lo imediatamente. Isto, como afirmamos, dissiparia rapidamente o peculiar efeito emocional da coisa. E.T.A. Hoffmann empregou repetidas vezes, com êxito, esse artifício psicológico nas suas narrativas fantásticas.’

Perceba que através das modificações corporais o estranho como abjeto e aquilo que é grotesco surge com a fricção da noção daquilo que é humano e inumano e ao mesmo tempo, através de um discurso conservador, autoritário e normativo, que desumaniza pessoas por suas características físicas e identidades. Perceba que tratamos das modificações corporais mas o mesmo tem sido aplicado na população negra, na população indígena, nas pessoas gays, lésbicas e demais variantes, nas pessoas transgêneros, nas pessoas com deficiência e por isso afirmamos que a noção do estranho está abraçada com noções racistas e fascistas, no sentido que suscita a leitura do mundo separando-o entre seres superiores e inferiores, em um esquema que estes últimos sejam exterminados ou controlados para exploração e exterminação.

Então, perceba que o estranho no sentido daquilo que está em desacordo, errado, desviante é uma distorção que visa fazer manutenção do status quo que beneficia um exclusivo grupo de pessoas. Se pessoas são exterminadas por serem o que são, o erro mora no sistema de extermínio e é isso que deveria ser assustador.

Se um ser animado está vivo ou morto. Se um ser inanimado pode ter vida. Se é um ser humano ou inumano. As noções binárias de gênero que obrigam e lutam para seguir obrigando para que as pessoas aceitem ser o que terceiros decidiram e impuseram o que elas são. As noções binárias de sexualidade hétero e homo como únicas possibilidades afetivas. Políticas de desumanização que visam o extermínio (de pessoas em situação de rua, pessoas com deficiência, pessoas gays e lésbicas e pessoas transgêneros). São todas situações que carregam o estranho como aquilo que deva ser temido e eliminado.

A ideia de que pessoas com modificações corporais sejam estranhas no sentido negativo e pejorativo da palavra não surgiu do vento, existe uma história. Existe uma construção social sobre esses corpos que escapam da norma e que não podem ser desconsideradas. Pensando as escarificações, por exemplo, que chegaram até nós pelas populações africanas são consideradas pelo discurso hegemônico como marcas primitivas, no sentido daquilo que é inferior, são marcas do demônio e daquilo que é ruim. Entender o racismo hoje é automaticamente reconhecer que toda prática – aqui no caso de modificação do corpo – que tem como raiz os povos africanos negros serão tratadas com esse olhar de rejeição que é, sobretudo, um olhar fascista. O mesmo se repete com as técnicas que encontram raízes nas populações indígenas, como as perfurações, que recebem o olhar e o entendimento de um atavismo, isto é, de uma ancestralidade com denotação de atraso, de descompasso com o mundo como se apresenta hoje. A ideia do estranho empregada aqui como algo ruim impede que a prática da modificação corporal seja compreendida e reconhecida no mínimo como um fenômeno cultural dos povos no mundo e prevalece o exotismo fascista e só.

 Essa construção da abjeção das pessoas com modificações corporais é obviamente que contaminada e condicionada pela ciência, pela religião, pela escola, pela família, pela imprensa, pelas artes e por outras áreas que manifestam poder de formação de opinião e dominam aparatos de controle de pessoas. Repetidamente se reforça e se trabalha com estereótipos que visam desumanizar essa população. É o discurso científico que pretende patologizar esses corpos e na ausência de uma patologia cria-se uma nova. É o discurso do Estado que pretende criminalizar esses corpos e não ausência de um crime, criam-se novos. Os incontáveis filmes que trataram o assunto sempre colocando pessoas modificadas como psicopatas quer sublinhar essa ideia de que somos doentes, agressivos, psicopatas e a personificação do que se entende por monstro, ruim e ameaça.

O preconceito é meticulosamente ensinado. Ensina-se o ódio para as crianças, ensina-se como odiar pessoas que não são iguais e isso é feito através de uma inversão de valores que faz com que a prática se mostre como uma boa intenção. Entende o que é para uma criança não heterossexual e que já sabe que o é ouvir de seus pais que as pessoas iguais a ela são aberrações e a representação de tudo aquilo que é ruim? Entende como isso trinca as estruturas de uma pessoa que está no auge do seu processo de formação e construção de identidade?

 Então quando os pais e mães andam na segurança de seus carros confortáveis e apontam para a travesti na rua dizendo que se a criança não se comportar “aquilo irá pegá-la”; quando dizem para uma criança que o morador em situação de rua é o “bicho papão que vai leva-la embora”; quando apontam para a pessoa com deficiência que esmola na esquina e dizem que “aquilo é castigo por algum pecado”; quando apontam para uma pessoa com modificações corporais e dizem que “são monstros que vão pegá-la” ou que são “como a personificação do fracasso humano que ela pode vir a se tornar caso tudo dê errado”; ou quando aponta para os meninos negros e diz “é bom ter cuidado com quem anda” o que temos em fluxo é a pedagogia do ódio e o ovo da serpente fascista.

 

O mesmo veneno que mata, cura.

Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam, e então você vence.”
Mahatma Gandhi

Fazendo valer a ideia nietzschiana de “aquilo que não me destrói, me fortalece” dizemos que nos apropriamos do freak – no sentido daquilo que é estranho, no sentido da aberração – que há muito vem sendo usada como xingamento, que há muito vem sendo usado para nos tirar a dignidade e humanidade. Nos apropriamos e a palavra passa a ser parte de nós. Nos apropriamos e ressignificamos a presença da palavra em nossa vida.

Assim como se fez com o queer como palavra para depreciar as pessoas não heterossexuais e não cisgêneros, assim como se fez com o crip como palavra utilizada para depreciar as pessoas com deficiência, fizemos com o freak. Assim, de uma palavra que pretendia ser pejorativa, ela passa a denominar um grupo de pessoas cientes de seus papéis como sujeitos históricos e que reivindicam o direito básico e fundamental da auto-manipulação de si e da autonomia sobre o próprio corpo.

Se a palavra estranho sugere que somos assustadores, nós nos entendemos como surpreendentes. Se dizem que as nossa aparências e existências são impróprias, nós dizemos que o ódio contra as diferenças é que é impróprio, inaceitável. Se querem que nossas existências sigam ocultas, forjaremos os nossos corpos sob a luz dos holofotes de uma legitimidade intrínseca humana. Que possam olhar por dentro do casulo. A larva que entra é a borboleta que voa.

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Fotos: Daniel Rodrigo

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