Entrevista sobre performance art e educação

Entrevista sobre performance art e educação para elaboração de livro didático de Artes.
Foto: Hélio Beltrânio
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  1. Você trabalha com a body art em suas performances e pesquisas, tendo inclusive gerado a publicação A modificação corporal no Brasil em 2015. De onde surgiu seu interesse?

Desde minha infância eu tenho interesse por corpos que fugissem do padrão hegemônico. Tinha um grande entusiasmo em ver e conhecer corpos que oferecessem uma outra lógica de existir e com isso novas possibilidades e experiências. As diferentes corporalidades presentes na fantasia, ficção científica, no terror, nas histórias em quadrinhos, nos desenhos animados como animes, mangás e variadas mitologias faziam meu coração bater mais apaixonadamente. Em minha adolescência me envolvi com movimentos de contra cultura e com isso tive um encontro mais direto com diferentes usos corporais, que me levou para a modificação do corpo e depois para a body art e performance.

 

  1. Qual a sua formação? Que cursos ou referências você indicaria para aqueles que querem atuar na área performática?

Eu tenho graduação em História (licenciatura e bacharelado) e formação técnica em estilismo e coordenação de moda. Tenho trabalhado com as artes a minha vida toda, embora eu não tenha uma formação convencional.

Para quem quer atuar na área da performance art, eu indicaria que se aproxime de pessoas e coisas que te inspiram e que te movam. Existem cursos universitários para performance art, existem cursos livres e, muito felizmente, existem muitas oficinas, encontros, workshops que são oferecidos gratuitamente por um punhado de artistas sensacionais. Além disso, existe a vida que é a base de tudo ao meu ver, abrace a sua história, mergulhe no repertório de suas vivências, explore suas entranhas e expire a arte que você acredita. Expire com honestidade o que você acredita. Sinta, visceralmente sinta!

 

  1. Como você cria suas performances? Há técnicas que estão sempre presentes na elaboração dos suas obras? Conte-nos sobre seu processo de trabalho.

Percebo que minhas performances – em sua grande maioria – brotam de incômodos, insatisfações, dores e essas coisas todas. O meu primeiro trabalho oficial com a performance art foi sobre o consumo de pele animal dentro do mercado da moda, e aconteceu justamente dentro de uma universidade de moda, percebe? Havia um profundo desconforto com a situação de omissão diante da exploração animal e senti que aquele lugar e aquele momento eram propícios para a discussão.

Existem inquietações pulsando dentro de mim o tempo todo, existem os atravessamentos do nosso tempo e da nossa própria história e tudo isso impacta em minha forma de criação. Costumo dizer que desenho as minhas performances, pois o processo é esse, começo a trabalhar em um projeto e normalmente vem um desenho das imagens que tenho na cabeça, seguidas de texto e que só depois vão se tornar ação.

Tenho guardado um punhado de objetos que chamo de rastros e restos das performances que tenho feito. Que vão desde os rabiscos, desenhos e textos, até elementos – lâminas, agulhas, curativos, etc –  que foram depois usados nas ações. Guardar esses materiais também constituem parte dos processos criativos dos outros trabalhos. Tudo está conectado.

 

  1. Além de atuar como artista performer, você dá aulas e oficinas. Como elas são? Quais temas você aborda?

Sim, sempre que possível tenho oferecido oficinas e aulas. A educação é muito forte para mim e acredito muito no poder que habita esse lugar, no sentido da libertação que Paulo Freire propunha e transformação. No momento atual não tenho vínculo com nenhuma instituição, mas tenho trabalhado ativamente com a educação principalmente em torno de assuntos que rondam o corpo, subjetividade, direitos humanos e dos animais. Há alguns anos eu tenho viajado por todo Brasil e oferecendo pequenas aulas ou conversas, de algum modo lecionando e da forma que eu acredito e que as condições permitem. A grande parte do tempo é tudo feito de modo bastante precário, mas com a plena e total consciência da urgência de se trabalhar alguns temas, por exemplo, a autonomia do corpo. Gostaria de mencionar aqui as atividades do GESMC – Grupo de Estudos Sobre Modificações Corporais, o qual coordeno, que já aconteceram na garagem, cozinha e sala da minha casa, o que revela um pouco da urgência e precariedade assumida que falo. Espero que não me falte forças e que eu tenha tempo para fazer isso por muitos anos, eu tenho um compromisso com o ofício de educador e mais do que isso, amor pelo que faço. Eu tenho muito amor pelo que faço.

 

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