Entrevista sobre modificações corporais e mercado formal de trabalho

Curso: Jornalismo | Universidade: Faculdade de Comunicação Social da Uniritter

Já teve algum tipo de preconceito em uma entrevista de emprego por causa das tatuagens?
Diversos. Teve um momento de minha vida em que sai de um emprego e tinha a ilusão de que me recolocaria no mercado facilmente. Todo processo seletivo que eu participava acabava ficando sem a vaga. A resposta era a de que eu não tinha o perfil da empresa, que a vaga já havia sido preenchida ou que em alguns dias eles me dariam um retorno, que nunca acontecia. Começou a ficar claro que o problema era o meu corpo, e eu sou meu corpo, então o problema para eles era eu. E eu cheguei a acreditar nisso e depois entendi que o problema não era eu e sim esse sistema cruel e desumanizador em que se se segrega pessoas por conta de seus corpos. Em uma das poucas vezes que houve uma honestidade e de fato verbalizaram que queriam me contratar, mas que eu precisaria esconder minhas modificações corporais. Naquele momento eu já tinha recebido tantas portas fechadas na cara, tantos olhares tortos de reprovação que já estava em um processo de destruição do que eu era. Aceitei o trabalho mesmo negando e destruindo mais o que eu era, mas não suportei.

Em algum momento já teve teu trabalho comparado com o de algum colega que não tinha nenhuma modificação corporal?
Essas violências são veladas. Não me recordo agora com clareza de alguma situação de comparação com colegas, mas me é sempre fresco na memória que esperam sempre que sejamos mais do que quem não tem modificações corporais. É como se tivesse o tempo todo ter que provar que somos capazes e mais do que capazes para ter alguma legitimidade e respeito. O tempo inteiro temos que justificar a nossa presença naquele ambiente, já que o esperado é que estejamos fora.

Já chegou a ter alguma desavença com colegas de trabalho por este motivo?
Tenho a impressão de que as relações interpessoais são mais tranquilas. Eu particularmente costumo ter uma boa relação com a maioria das pessoas, então, os colegas de trabalho acabavam se tornando inclusive pares que saiam em minha defesa em situações de preconceito. Os conflitos maiores estão presentes no próprio sistema, que segrega socialmente e exclui pessoas e isso não só apenas pessoas com modificações corporais, mas toda e qualquer pessoa que não esteja dentro do que é considerado padrão aceitável pelo discurso dominante. Deixamos de ser pessoas e nos tornamos somente números e isso é parte da própria lógica capitalista, produzir miséria é apenas uma parte dessa lógica. Somos facilmente descartados, pois há sempre o exército de reserva ali na espreita.

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