Perspectivar Kuir | Artesanias do Corpo | T. Angel

Perspectivas “Kuir” nas práticas artísticas contemporâneas
Artesanias do corpo

Osasco, 25 de Março de 2016.

Fui convidada pelo Perspectiva Kuir para dividir uma mesa com Elton Panamby, na que foi intitulada como Artesanias do corpo, isto é, especificamente em nossa parte iríamos discutir os processos de transformação e deslocamento do corpo orgânico ao corpo queer, pensando as possibilidades, limites e condições do uso da modificação corporal nas práticas artísticas contemporâneas.

Esse texto recupera parte da minha fala, por sorte até de forma mais organizada e a ideia de publicar esse material é justamente para possibilitar o acesso para as pessoas que por um motivo ou outro não poderia estar presente fisicamente no encontro e se interessam pelo assunto. Veja, fazendo uma mea culpa, por ser um resgate, posso ter perdido algumas partes da fala, mas tentei ao máximo trazer o que minha memória guardou.

O ponto de partida foi elucidar o que entendo como sendo modificação corporal. Bem, entendo como modificação corporal tudo aquilo que fazemos com o corpo vivo, nesse sentido, a alimentação, o sexo, o esporte, o ócio, a medicina são alguns exemplos possíveis que modificam o corpo. Dentre as tantas outras possibilidades e técnicas, existem a tatuagem, o piercing, a escarificação, os implantes, que é onde tenho centrado a minha pesquisa. E especificamente sobre esse recorte temático eu escrevo no livro A Modificação Corporal no Brasil – 1980-1990, lembrando sempre que foi uma iniciação científica durante a minha graduação em História, ou seja, uma pesquisa pequena e que por conta disso tem suas limitações.

Também foi importante pontuar a minha relação com o kuir. Eu demorei para saber sobre a Teoria Queer. Na realidade descobri que eu poderia ser queer durante uma entrevista que estava dando para um doutorando que pesquisava as modificações corporais e que tinha uma relação anterior com questões LGBTQI. Durante minha fala sobre roupas, sexualidade, sexo, vida, ele disse que eu era o que se entende por queer e me explicou brevemente sobre o assunto. Me interessei e eu fui fazer as minhas pesquisas e foi positivo (tem sido), não só saber mais sobre o assunto e realmente perceber e me reconhecer, como encontrar pares de jornada. Eu já estava vivendo a coisa toda e depois só descobri que poderia ter um nome e que já existia umas centenas de pessoas pesquisando tudo isso. Ainda que tardiamente pra mim, foi um encontro bom.

Seguindo, na minha adolescência começo a fazer experimentos em meu corpo com técnicas de modificações corporais e pesquisando o assunto cheguei na Body Art e também na Performance Art. Aqui entramos em um outro ponto que, de acordo com meu ponto de vista, a modificação corporal não seja arte. Ela pode vir a ser, mas nem sempre o é. Assim como a suspensão corporal, que falarei adiante e que entra na categoria dos usos do corpo. A suspensão corporal, em minha concepção, não é arte. Ela pode vir a ser uma manifestação artística, mas não podemos negar ou esquecer que sua raiz nos povos indígenas tenha uma relação espiritual. Somente na década de 70 do século XX que a suspensão estará registrada dentro de uma linguagem da arte, através do trabalho de Stelarc.

Então eu vinha vivendo as modificações corporais e depois percebi que poderia ressignificar tudo aquilo e assim comecei os meus trabalhos com arte.

Falando especificamente sobre a suspensão, que também tenho me dedicado nas pesquisas, eu gostaria de exibir um vídeo, o Coma e depois desenvolver alguns assuntos partindo dele.

A primeira questão que gostaria de trazer é que a suspensão por si só já seja bastante forte e de uma potência singular. E que exige bastante física e psicologicamente falando. No entanto percebi que quando eu fazia uma performance em que a técnica da suspensão era incorporada, e junto com isso o salto alto, a maquiagem e a presença do corpo kuir, que é o corpo que sou, isso tudo causava um ruído. Diferente do que a maioria possa pensar, os espaços em que há a presença das pessoas com modificações corporais e pessoas ligadas com a suspensão, é um espaço de conflito quando emergem as questões da sexualidade e gênero (não disse durante a fala, mas acho por bem incluir aqui que questões da ordem da etnia e classe também geram conflitos). São muitas as pessoas com modificações corporais que são reacionárias, conservadores, LGBTfóbicas, sexistas, machistas, elitistas, capacitistas, o que é contraditório, mas é ao mesmo tempo uma realidade que precisa ser enfrentada.

O conservadorismo é tamanho, e aqui entramos em um segundo ponto, como o próprio sangue é um problema para algumas pessoas ligadas com a suspensão e modificação do corpo. Esforçam-se para mostrar uma suspensão em que a presença do sangue é inóspita, que precisa ser escondido, que precisa ser limpo e de toda forma ocultado e aqui percebo que não estamos tão longes da idade média em que os fluídos corporais eram demonizados.

Veja, com essa cautela excessiva em esconder o sangue do corpo que está – veja bem – perfurado, produzimos imagens e situações falsas de uma realidade corpórea. Produzimos a imagem plástica do corpo. Do corpo que tem cheiros bons e ruins, que tem fluídos, que sangra, esporra, sua, saliva, escarra… E o grande problema disso é que pode acontecer de uma pessoa se familiarizar apenas com as imagens de suspensões sem nenhum foco de sangramento e que se um dia vai ver pessoalmente e acontece de ter sangue a escorrer – e um corpo perfurado, com um gancho atravessado e que tem a pele puxada e repuxada pode sangrar – vai se assustar com a realidade de um corpo não artificial. Estamos nos alienando do próprio corpo e das mais variadas formas possíveis.

E já que falamos sobre fluídos corporais, em meu trabalho com performance art os fluídos corporais são bastante usados. Eu gosto muito do sangue, uso muito sangue e sangro muito. Mas além deste tenho usado outros materiais, como a porra. Gostaria agora de falar sobre a performance Semen-te, irei mostrar o vídeo e depois conversamos.

Semen-te é uma performance que fiz no Festival PopPorn em São Paulo e que contei com a doação de esperma um mês antes da ação, congelei todo esse material em uma forma de coração e durante o dia do evento, ocupei um espaço e tomava uma espécie de banho com o coração de porra. Algumas pessoas achavam que era um blefe e que eu não usaria as porras todas e depois ao sentirem o cheiro, viram que não, porra.

Perceba que o vídeo editado e colocado no Youtube não mostra pipi e bumbum, pois as redes sociais não gostam de pipi, bumbum e pepeka. O corpo é tão problemático que chegamos nisso. Não são só os fluídos, é o próprio corpo um problema. Estou bloqueada no Facebook agora (não disse durante o encontro, mas importante dizer que o motivo do bloqueio de agora não foi por nudez, embora eu já tenha tido repetidos bloqueios por conta disso), Elton ficou bloqueado por 30 dias por mostrar um peito e outras pessoas aqui já disseram que estão bloqueadas também.

Por fim e para encerrar, gostaria de falar sobre o que chamo de momento atual da modificação corporal. Creio que precisamos começar a escrever uma Teoria Freak, assim como foi feito com a Teoria Queer e a Teoria Crip, reconhecendo as especificidades da própria temática. A minha sensação é que assim como o queer estava sendo vivido e depois as pessoas teóricas escreveram, com a Teoria Freak seria o mesmo. Tudo já está acontecendo, só precisamos que alguém escreva sobre isso. Reconheço obviamente que existe um grupo bastante reacionário e conservador no meio da modificação do corpo, mas de outros lados existem pessoas bastante engajadas em lutas diárias para desconstrução, acessibilidade e autonomia do corpo e liberdade em exercer nossas subjetividades mais diversas. (Não passei o vídeo, mas deixo aqui o link, pois falei sobre isso a pouco)


Agradeço a atenção de vocês.

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