Uma carta para colegas e amigas…

Osasco. 27 de Fevereiro de 2016.

Caro amigo,

Sem muitas delongas achei por bem avisá-lo que acabo te deletar do meu Facebook. Hoje sentei e fui olhar todas as pessoas próximas de mim – ainda que virtualmente – que seguem a fanpage do deputado Jair Bolsonaro e vi que você estava lá, para minha tristeza. Primeiro eu não entendi e depois entristeci.

Imagino que você deva acreditar que esse senhor tenha alguma coisa boa para te oferecer.Para mim ele não oferece nada de positivo, inclusive ele sugere – o tempo todo – o extermínio de pessoas como eu. Sugere que eu sofra violência, sugere que eu seja doente, sugere que eu seja aquilo que há de pior no mundo. Claramente que não se trata só de mim como um caso isolado, ele sugere que meus amigos, minhas amigas e pessoas que admiro e amo sejam exterminadas. Inclusive algumas dessas pessoas já sofreram violência física em decorrência de um discurso que ele projeta e alimenta: o ódio.

Afora o extermínio de pessoas como eu, há o racismo, há o saudosismo nefasto da ditadura civil e militar brasileira, há o nepotismo e principalmente o ódio. Um ódio que inclusive tem o favorecido financeiramente e politicamente, irônico não? Em tempos tão duros como os nossos, assistimos uma pessoa se tornando mito para uma parcela da população pela quantidade de ódio que prolifera.

Meu amigo, se você concorda com uma pessoa como o Bolsonaro, a chance de que tenhamos algum tipo de relação nessa vida é nula, inclusive virtualmente. Eu vou sempre olhar nos seus olhos com medo, pois lá no fundo penso que ou você concorda ou é conivente com o ódio que ele despeja contra mim e pessoas como eu. Então convenhamos, não somos amigos, nem colegas e nem nada…

Não sou afeito aos convencimentos forçados análogos à uma colonização, tão pouco quero tirar o seu direito em ter como mito aquilo que você quiser, se assim o fosse, eu seria parecido com aquilo que temo. No entanto, a sua crença, o seu mito ou a sua total omissão e indiferença coloca em risco a minha vida e de tantas pessoas como eu e isso, meu amigo, jamais eu poderia aceitar. É isto que quero te mostrar aqui, embora me assuste que você não saiba ou , pior, que simplesmente tenha ignorado tudo isso.

Eu o deleto agora virtualmente e mais do que isso, da minha vida. Não foi fácil, pensei no quão intolerante isso poderia ser, pensei no carinho que tenho por você, mas preciso pensar na minha sobrevivência e das pessoas como eu. Não aguento mais saber que meus irmãos e irmãs estão morrendo queimadas, apedrejadas, estouradas… Não aguento mais saber que meus irmãos e minhas irmãs estão sofrendo no canto de seus quartos com medo, o mesmo medo que eu tive por tanto tempo em minha vida e ainda o tenho. Não aguento mais viver em um munto tão desigual, tão injusto e tão violento como o nosso. E por isso eu o deleto agora em paz, pois sei que você em nenhum momento pensou em mim e nos iguais a mim.

Escrever essa carta agora é uma forma de despedida e também um alerta. Sei que com essa pequena atitude algumas pessoas podem pensar melhor no quanto pequenas coisas indicam grandes feridas para pessoas como eu. Um alerta que podemos melhorar ou no mínimo melhorar as relações sociais que alimentamos. Se em algum momento você ler isso e quiser conversar me escreva, por agora eu escolho assim, me afastar e me proteger. Sobrevivência, sabe?

Que você seja muito feliz em sua vida e que possa aprender a ser feliz sem alimentar a infelicidade de tanta gente. Fico por aqui.

T.

 

 

 

 

 

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