Entrevista sobre o ‘Manifesto Freak’

Curso: Programa de Doutorado em Artes e Design  | Universidade: PUC-Rio

Sobre o Manifesto Freak, como foi idealizado e quais as preocupações em torno do empoderamento, quais as influências?

O Manifesto Freak foi escrito no final de 2015, com a intenção de publicação somente em janeiro de 2016. No entanto acabei publicando antes, sinto uma urgência de tocar em alguns assuntos, assim como a urgência da própria vida e por isso a antecipação.

O Manifesto surge na ocasião dos 10 anos de FRRRKguys. Inicialmente a minha intenção era a de escrever algo para o site, mas com o processo da escrita, senti que precisava escrever de modo mais aberto e abrangente, que extrapolasse o próprio FG. Mas é importante dizer que os 10 anos de FG, estão dentro dos meus anos com a pesquisa da body modification e penetrados na minha própria história pessoal como alguém que automanipula o próprio corpo. Nesse sentido, podemos estabelecer três linhas “separadas”, mas que se encontram nesse manifesto:

1) Uma década de FRRRKguys;
2) A minha vivência como pessoa que pesquisa o corpo modificado;
3) A minha biografia;

Foi interessante ver a quantidade de pessoas que se identificaram rapidamente com a escrita e a ideia proposta no Manifesto Freak. Até o presente momento houveram 67 compartilhamentos somente do meu perfil pessoal. O texto foi publicado posteriormente em meu blog pessoal e no site do FG. Considero o número de compartilhamentos alto, uma vez que o manifesto é bastante crítico, politizado, progressista e interseccional. Nem todo mundo quer levantar bandeira contra todas as opressões, nem todo mundo quer levantar bandeira contra a LGBTfobia e o capacitismo, por exemplo.

Penso que as perspectivas do Manifesto Freak são muitas. Logo após a publicação do texto, um moço da Espanha me escreveu dizendo que pela primeira vez estava vendo se falar sobre gordofobia e especismo dentro da comunidade da modificação corporal. E achei interessante e positivo receber esse feedback dele. E o mais curioso é que alguém da Espanha tenha escrito, no momento que o Manifesto também tece críticas a ideia de colonização e faz uma reivindicação de um lugar de fala para a história da modificação corporal brasileira.

Confesso que eu estava esperando críticas negativas, mas não aconteceu (ainda). Mas essa minha expectativa da crítica estava mais no desejo de rever minhas ideias, noções e tudo mais. Um desejo de melhorar enquanto pessoa mesmo. Filosoficamente, politicamente e humanamente falando.

E realmente há no Manifesto Freak o discurso do excesso, em tomar posse de si, sobre autonomia de existir, sobre a monstruosidade como possibilidade de existência e resistência, aproximando corpos que são considerados abjetos, e apontando para necessidade de ver todas essas questões através da luta de classes. Também tem a questão da invisibilidade como ferramenta anárquica e poética de existência.

A invisibilidade que sugiro no Manifesto Freak é mais no sentido da que o Critical Art Ensemble traz, como poder nômade e resistência cultural. É de conseguir existir no underground ao ponto do Estado não conseguir nos encontrar.

Ah! Um ponto muito importante, de verdade, para o processo de escrita e que precisa ser dito é que eu enviei o texto enquanto estava sendo elaborado para um punhado de pessoas e eles fizeram sinalizações, compartilharam sensações, etc. Foi muito importante mesmo esse processo.

Mas como seria esta possibilidade, com o processo de normatização do underground?
Você acredita que ainda seja possível transgredir?
Bem, os exemplos de possibilidades seriam diversos. Uma situação que acho muito importante de se mencionar é que quase tudo (workshops, profissionais, procedimentos) relacionado à modificação corporal extrema estava sendo denunciado (bem no esquema de vigiar e punir para atender os próprios interesses), como uma espécie de caça às bruxas. A denúncia que me refiro sendo feito por gente da própria comunidade da modificação do corpo. Durante esse tempo duro e que aparentemente teve uma trégua agora, um grupo de pessoas trouxe um profissional estrangeiro, sem divulgação pública alguma. Realizaram um workshop e procedimentos variados e tudo aconteceu no silêncio, o que é muito difícil de se fazer em tempos de redes sociais.

Então, temos que pensar que hoje têm várias pessoas profissionais que executam os seus trabalhos e que não sabemos como e nem onde. E isso me interessa muito. Tem um caso de um profissional que gosto muito do trabalho, que estava fazendo muitas coisas lindas e que não tinha o menor interesse em tornar isso público. Sem contar a quantidade de tatuadoras e tatuadores que utilizam hoje tintas não liberadas pela a Anvisa, por exemplo.

A tattoo de cadeia se enquadra nessa vertente?
Eu acho que se enquadra em um esquema muito mais complexo. Primeiro pois há os casos em que essas tatuagens são realizadas com tamanha precariedade assumida, poderíamos dizer que é como se fosse parte de um ritual de passagem desse sistema. Depois porque essas marcas irão sinalizar que aquela pessoa pertence ao sistema carcerário e falo no presente, pois tenho a sensação de que mesmo quando fora das cadeias, essas pessoas nunca deixam de pertencer ao sistema carcerário. É um estigma, a maioria dessas pessoas não conseguem trabalho, algumas dessas pessoas sofrem tortura policial, etc. Para algumas pessoas é um grande fardo ter uma tatuagem de cadeia. Existe um projeto muito bonito na Polônia em que são oferecidas coberturas de tatuagens de cadeia para ex presidiárias, isso feito gratuitamente. Aqui no Brasil nós não temos muito essa ideia, o que circula fortemente é a noção do “bandido bom é bandido morto”. Os presídios brasileiros são grandes depósitos de gente, é um grande forno de extermínio de pessoas e o famoso “jogar para debaixo do tapete” a nossa sujeira, que é fruto das mazelas dos nossos problemas estruturais, como a tremenda desigualdade na distribuição de renda, educação de base sucateada e os problemas de ordem racial.
O corpo do presidiário e da presidiária é tornado abjeto através dessa sua passagem por esse sistema. Assim eu entendo.

Existem corpos mais abjetos que outros, certo?  Mas o bandido playboy não vai para cadeia, é um jovem problema…
E nem vai fazer essa tatuagem que se identifica como de “cadeieiro”. Quiçá nem faça tatuagem alguma. Não imagino que o Cunha, por exemplo, seja tatuado.

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