Trinta e quatro

Osasco, 11 de Janeiro de 2016.

“Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait.”
Henri Estienne

 

Escrevo faltando três dias para o meu aniversário de 34 anos. Mais do que qualquer outro tipo de celebração ou coisa que o valha, eu me preocupo com as palavras que redijo sobre a minha passagem de ano. Talvez essa seja a forma que encontrei de celebrar, não que eu estivesse a procura de alguma. Aconteceu. Algumas pessoas fazem festa eu escrevo e me satisfaço com isso.

Não sei exatamente o contexto em que Henri Estienne escreveu a citação acima (em português: se a juventude soubesse, se a velhice pudesse), o que demonstra não só a minha pouca erudição como por outro lado, se abre a chance de me apropriar às cegas aplicando-a em minha vida. Vida essa que já não é mais de uma pessoa tão jovem e tão pouco demasiada velha.

A citação de Estienne me acompanha há mais de uma década, inclusive por muito tempo pensei em tatuá-la em meu corpo, o que acabei por não fazer. No entanto, digo que a aplico em minha vida, pois de fato a minha juventude que vem se queimando como rastro de pólvora, era pobre e carente de conhecimentos. Não só no sentido da erudição que já mencionei e reclamei acima, mas era carente de empoderamento e isso me causou bastante sofrimento por muito tempo. Passei mais da metade da minha vida me odiando, quando na verdade só faltava entendimento. Passei mais da metade da minha vida com vergonha do meu corpo, da minha subjetividade, da minha sexualidade e do meu gênero, pois me fizeram crer que eu era uma aberração a ser corrigida. Correção seja feita agora, eu sou uma aberração sim, mas que não precisa e não aceita ser corrigida para atender nenhum padrão normativo. Inclusive, foi me reconhecendo como aberração é que encontrei – pasmem! – paz. Se a juventude soubesse… . É irônico, não?

E o que poderá a minha velhice? Se ela existir, ela poderá o que quiser. Se tem uma coisa que ela poderá é poder. E hoje já começo a pensar mais sobre os anos que virão pela frente. Tem horas que gosto de pensar em como estarei daqui algumas décadas com minha família, com as minhas amigas e meus amigos, com meus estudos, minhas crenças, minhas filosofias. Romantizo a ideia vendo artistas da música que gosto, vejo Gal, Caetano, Bethânia e Gil, que tiveram a sorte de estarem ainda compartilhando o mesmo tempo e gozando de saúde. Olho para eles com comoção histórica. Certa vez assisti um pequeno vídeo antigo de Chico Buarque falando sobre Caetano e os olhos dele aos poucos se cristalizavam, prestes a transbordar em águas. Já sentiu isso? Já sentiu os olhos marejarem ao falar de alguém que é especial pra você? A emoção enche o peito só de começar a pensar.

Trinta e quatro anos. Vivi mais do que esperava, vivi mais do que esperavam. Trinta e quatro anos. Sinto a vida pulsando em meu corpo inteiro, como nunca antes. Trinta e quatro anos. Lutando contra as ideias engessadas, contra as noções erradas, contra os pensamentos tortos e os devaneios tolos. Trinta e quatro anos. Respiro a vontade de viver. Viver mais e viver melhor. Trinta e quatro anos…

Hoje, exatamente no dia de hoje, estava editando um vídeo com uma entrevista que concedi em 2008. Tive o prazer de me rever, de me ouvir e o prazer ainda maior de estar muito satisfeito com quem eu sou hoje. É fato que envelheci, o tempo passou, as rugas começam a surgir, mas isso não me incomoda em absolutamente nada. Olho no espelho – e agora sendo uma pessoa empoderada – sinto prazer no que vejo, tenho uma enorme satisfação em ser a aberração que sou. Escuto o que eu mesmo dizia oito anos atrás e – trabalhando arduamente em minha desconstrução – sinto prazer em perceber que melhorei como gente, que meu discurso se tornou mais firme e, ao mesmo tempo, mais terno.  Estou a envelhecer obviamente e aproveitando esse processo sem perder a ternura.

Em uma breve análise sobre os anos que passaram e nas transformações e nos efeitos que tiveram em mim, gostaria de destacar algumas coisas: se existe uma parte ruim de envelhecer é ver partir as pessoas que amamos; amigos e amigas que você jurava que atravessaria os séculos juntos se perdem no tempo, as relações se desmancham e embora isso seja avassalador e triste tem um outro lado, que é o surgimento de pessoas que você jamais poderia imaginar que estaria ao seu lado por tanto tempo e para todas as situações; sentir dor de barriga de tanto rir é sem dúvida uma das experiências mais extraordinárias que temos ao longo da vida e acredite, uma risada escandalosa e inesquecível que você deu há cinco ou dez anos, reverbera no seu coração para sempre; o toque humano pode curar, nunca menospreze esse gesto; ter ações éticas na vida não importa se ninguém está vendo, não importa se uma multidão está vendo, não importa se é para o seu amigo, amiga, desconhecido ou desafeto, aqui se faz e aqui se paga; a minha educação não depende da educação do outro, a minha gentileza não depende da gentileza do outro e desconfio criticamente de qualquer regra ou coisa que o valha que se assemelha ao tal olho por olho, dente por dente; nessa vida eu quero olhos nos olhos e não olhos por olhos; dançar de corpo nu no chuveiro é mágico, a nudez é mágica e preciosa, a dança é sagrada; cantar sua música favorita com a letra errada, desafinadamente e apaixonadamente é e sempre será apoteótico; tudo passa rápido demais, a vida é curta demais, todo dia morremos um pouco, não se desespere, respire fundo, não se desespere mesmo.

Por fim, obviamente que pensei em várias formas de fugir no famigerado 14 de janeiro, nota-se que não aprendi ainda lidar com o meu aniversário, mas conclui que vou ficar pela redondeza mesmo. Vou tentar ter um dia normal, farei as coisas que sempre faço, devo cozinhar algo saboroso para compartilhar no caso de alguém aparecer em casa e é isso. Tudo o que eu quero e tenho trabalhado duro para ter é uma vida bastante simples e sóbria e não teria que ser diferente no dia 14 de janeiro. Principalmente no dia 14 de janeiro.

Feliz trinta e quatro.

T.

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Comments
One Response to “Trinta e quatro”
  1. Que fofo!!!!! Suas palavras sempre confortam meu coração! ❤

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