Não mexa no meu direito de ser transfóbico!

Ontem compartilhei uma publicação da fanpage Direitos Humanos Brasil que tinha como raiz a Travesti Reflexiva. Postagem simples e educativa, no sentido de tratar as pessoas travestis e transexuais de modo não pejorativo e nem violento. Acrescentei no meu compartilhamento as seguintes palavras:

Termos e expressões para eliminar do seu vocabulário:

– Traveco;
– O travesti;
– É tão bonita que nem parece que era homem;
– É tão bonito que nem parece que era mulher;
– É mulher que finge que é homem;
– É homem que finge que é mulher;
– É tão bonita que nem parece transexual;
– Ela é transexual mas é até uma pessoa boa;

Sinto que também fui ao meu modo, didático e educativo. Pra minha surpresa houve um ping na fanpage Tinta na Pele, o que me deixou feliz, já que são raros os espaços no meio da tatuagem que abrem combate contra a transfobia. A alegria duraria pouco. Hoje de manhã fui rever a publicação e tinha alguns comentários transfóbicos. Incrível como as pessoas querem ter o direito inalienável de desumanizar gente travesti e trans. Pessoas que se sentem ofendidas e ultrajadas por não poderem ofender travestis e transexuais. É assustador.

O mais desolador é que dentre esses pessoas tinha um soldado e um cabo do Corpo de Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro. Os dois bastante jovens, um deles com uma foto de capa no facebook em que Bolsonaro aparecia como um possível presidente do país. Em nossa breve conversa, pude constatar várias coisas sobre a transfobia, que não é nenhuma novidade, mas ainda assim destaco duas delas:

– a transfobia é covarde, o soldado precisou chamar o cabo que chamou um advogado ao se sentirem ameaçados pelo meu questionamento;

– a transfobia é uma aberração cognitiva, veja, o cabo para legitimar que se pode fazer piada sobre o massacre judeu no nazismo, citou Danilo Gentili;

A certeza da impunidade também é um ponto que não se pode deixar passar sem nenhum destaque.

Sem Título-1Sem Título-2

Fico aqui a pensar, o que a corporação diria sobre a postura desses dois moços? É o que gostaria de ouvir.

Escrevo isso agora, pois no domingo (27) uma travesti foi atacada por um grupo de jovens em Curitiba e teve 50% do seu corpo queimado. Concluo que a linha que separa aqueles que promovem violência simbólica daqueles que promovem a violência física de travestis e transexuais, muitas vezes é só um galão de gasolina e um palito de fósforo. O ódio é combustível e sobre isso, não há nada, absolutamente nada para se fazer piada.

Clique no link e encontre as pessoas transfóbicas:
https://www.facebook.com/Tintanapele/posts/983492178390039?comment_id=983787991693791&notif_t=like

Minha resposta aos meninos transfóbicos, inclusive com os erros de gramática:

João disse que não é transfóbico, mas teve que chamar o colega pra ser mais transfóbico ainda. Sabia que a covardia é algo bem típico nas violências e assassinatos das pessoas travestis e transexuais? Pois é.

Bruno, primeiramente não sou seu amigo e acho bom deixarmos isso bem claro. Não vou usar a legislação como parâmetro para a nossa conversa, reconheço que seria um facilitador, mas veja, me soa um pouco absurdo ter que haver leis para que as pessoas possam respeitar as outras. Você como cabo do corpo de fuzileiros pode realmente usar a classe que quiser em suas piadas, mas tenha consciência que você é responsável pelo uso que faz da sua palavra e você deverá responder por isso, se for o caso, judicialmente e administrativamente caso uma pessoa travesti e transexual se sinta ofendida, constrangida, assediada, ameaçada pela “piada”. Fico a me perguntar, mas onde está o sentido do humor que é feito contra um um grupo de pessoas historicamente oprimido e massacrado? Rir das pauladas que elas tomam na cabeça? Rir por elas terem sido queimadas? Rir por elas serem expulsas de casa? Não consigo rir de nada disso e acho estranho que um cabo e um soldado consigam.

Eu não estava a ameaçar um soldado por ele ter abreviado a palavra traveco (que é pejorativa e ofensiva), não seja cínico. Estava questionando sua postura claramente transfóbica em uma postagem que visava justamente educar as pessoas para que possam tratar sem ofender as pessoas travestis e transexuais. Não porque elas são melhores e nem nada, mas porque elas são gente, como eu e como você.

Eu não sou ninguém, mas tenho ojeriza de situações de injustiça e preconceito, como aqui. Acho prudente avisá-lo que não sou eu que defino o que é ou o que não é transfobia, mas olha, a atitude de vocês aqui já fez o suficiente viu. Você falou sobre homofobia, mas não é nada disso, estou falando sobre a transfobia que é uma violência bem específica.E não é vitimização não, meu caro, inclusive esse discurso é o mais raso e vil de gente que está habituada com o sistema de opressão.

Entenda, opção sexual não existe e estamos aqui falando de gênero, mais especificamente das pessoas travestis e transexuais, deixe os gays fora disso. Entenda também não quero impor absolutamente nada, só estamos aqui dialogando sobre respeito, o que você deveria ter aprendido na vida e na corporação que você está e rogo para que um dia aprenda. Ainda há tempo… Fico até assustado em saber que você pulou essa parte. Imagino que horror seria ter pessoas como você defendendo o nosso país e seletivamente escolhendo quem morre e quem vive. Mas imagino que nem todos são assim por aí.

Não vou seguir com a conversa depois que vi que suas referências para falar sobre o genocídio nazista são do Danilo Gentili. Desculpa, mas não dá. Eu fiquei com vergonha por você.

O João disse que a corporação não diria nada sobre esse episódio, pois bem, estou escrevendo um e-mail passando os prints das nossas conversas e espero escutar o que eles têm a dizer sobre isso, o que eles têm a dizer sobre transfobia e discriminação.

Ps. Ah! Aproveitando que vocês são do RJ, procurem conhecer o projeto RIO SEM PRECONCEITO e o Rio Sem Homofobia (agora sim falei da homofobia!).

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