Entrevista sobre o livro ‘A modificação corporal no Brasil’ e participação na convenção de Joinville

Jornal Primeira Pauta

Por que explorar o tema da modificação corporal no Brasil?
T. Angel:
Antes mesmo da invasão e colonização europeia que houve nessas terras, que veio a ser o Brasil, já havia um histórico de práticas e técnicas de modificações corporais. Já havia uma cultura de usos do corpo bastante complexa e rica, que inclusive causou bastante estranhamento aos portugueses. O mesmo se repete – assim apontam os registros – em diferentes espaços e tempos. Quero dizer com isso que o corpo humano vem sendo tocado e transformado durante toda a história da humanidade, inclusive agora, nesse exato momento. Explorar essas questões do corpo, especificamente as técnicas de modificações que entendemos como a tatuagem, o body piercing, a escarificação e tantas outras desse pequeno recorte, é ao mesmo tempo fazer uma leitura outra do mundo contemporâneo, em que o corpo (e seus usos) não é o problema. É entender como essas relações acontecem e se realizam na sociedade contemporânea. É ao mesmo tempo, uma vez que também tenho me apropriado dessas técnicas em meu próprio corpo, uma militância para derrubar os preconceitos todos que rondam sobre os corpos não normativos. Há muito para se explorar nesse sentido.

Por que vir até Joinville para anunciar a publicação dele?
T. Angel:
: A cidade de Joinville me encanta e especificamente a convenção organizada pelo Maga, uma pessoa que admiro e respeito muito. Digo isso, pois tive o grande prazer em estar presente nas duas outras edições anteriores. Em minha primeira vez fui convidado para dividir uma mesa com as autoras do livro ‘Corpo ao Extremo: a nova face de uma cultura modificada’ e contei um pouco sobre as minhas pesquisas, que naquele momento eu não sabia que viraria livro. Retornar agora para dividir o livro materializado é uma satisfação sem tamanho.
Desde o lançamento do livro em Abril, eu tenho viajado ao redor do Brasil e promovido diversos encontros para se falar sobre essas histórias e práticas. Pensando aqui as técnicas nos modelos mais atuais como os implantes e mesmo o piercing, é uma história muito recente e há uma urgência em se discutir muitos assuntos. Tinha esse grande desejo de possibilitar a abertura de debates sérios sobre o assunto e tenho conseguido.

O que você espera conseguir com a publicação do livro? Qual público pretende atingir, onde o livro estará à venda…
T. Angel:
O livro é resultado da minha vivência pessoal e pesquisa de iniciação científica que realizei durante a graduação em História. Isto é, existe aí uma limitação e adequação as normas da academia e a um pequeno trabalho de iniciação. Não é e espero que não seja nunca encarada como uma bíblia das modificações corporais, mas sim como uma provocação, no sentido de que dali as curiosidades e interesses se ampliem; que as leituras sobre tudo que ronda o corpo se ampliem; que os corpos não normativos não sejam mais silenciados e excluídos da participação social e debate público; Veja, é um dos primeiros livros em língua portuguesa escrito por uma pessoa que acima de tudo tem vivenciado essas histórias todas no próprio corpo e isso já indica algo interessante, não se trata de um discurso construído de cima para baixo. Somos nós escrevendo sobre nossas práticas e vivências e isso é algo legal de destacar. O livro está à venda no site da Editora CRV e também pode ser comprado diretamente comigo pelo e-mail frrrkguys@gmail.com.

Há quanto tempo você está inserido na modificação corporal? (Tanto no tema quanto na sua vida).
T. Angel:
Eu digo que tudo começa em minha adolescência, pelas voltas de 1997. Foi ali que a pesquisa teve início e tem seguido e torço para que siga por muitos anos mais. Como eu disse mais acima, há muito pra se explorar.

O preconceito que as pessoas que optam por terem tatuagens, piercings, implantes subcutâneos, entre outros, é abordado no livro? Se for, qual é a expressão que este tema possui no livro? Se não, disserte um pouco sobre o assunto.
T. Angel:
Sim, está presente e precisava estar. Na realidade eu tento mostrar como todo corpo que escapa da norma e regra é vítima de opressão, violência e preconceito. Inclusive, inúmeras vezes, com registros dessa opressão estar legitimada pelo Estado. A escravidão, os campos de concentração nazistas, o extermínio das populações indígenas, a violência contra os corpos com deficiências físicas, as LGBTfobias e todas essas situações hediondas, que infelizmente não encontraram um fim completo. Ainda morre muita gente por conta do corpo que se é e isso é errado. Não aprendemos com os erros do passado, os repetimos sistemicamente e esse é um problema bastante sério e crítico. Não dá para fingir que está tudo bem.

Qual é a importância que eventos como a Convenção de Tatuagem de Joinville possuem para a quebra de paradigmas sociais, como o preconceito com tatuagens e etc.?
T. Angel:
Serei bastante honesto e franco em dizer que nem toda convenção de tatuagem está engajada na quebra de paradigmas e de preconceitos e unicamente preocupada com o quanto que pode lucrar. A convenção de tatuagem é um negócio – e precisamos encará-la como tal – que gira bastante capital. Digo mais, muitas convenções de tatuagem – e falo muitas, pois no Brasil nos últimos anos o número vem crescendo vertiginosamente – vão colaborar de forma compulsória na reafirmação de todo tipo de preconceito possível. Há espaço para tatuagem obviamente, porém, todas as demais técnicas de modificações corporais são vistas com bastante preconceito e têm abertura zero. Sim, sei que soa super contraditório e nada coerente, mas é a realidade. As pessoas adoram tirar foto com uma pessoa com muitas modificações, mas no dia seguinte está levantando voz para que esses corpos sejam penalizados e interditados pelo Estado. É o retrato do momento atual em que vivemos.
O Maga é um dos poucos profissionais brasileiros e produtores hoje em atividade que tem feito essa abertura de diálogo. Ele tem promovido palestras e discussões mais amplas sobre o corpo, que é o método – isto é, a educação – para se tombar os preconceitos. Veja, tenho ido falar sobre técnicas que vão além da tatuagem, sobre suspensão corporal e isso só tem sido possível porque ele acredita nisso tanto quanto eu e faz a abertura. Novamente, os preconceitos só podem ser derrubados se falamos honestamente sobre eles, se nos educamos, se dialogamos e se encaramos todos eles de frente. O resto é apenas discurso sem ação e manutenção direta do status quo, ou se preferir a assimilação crua de uma sociedade estabelecida por códigos normativos.

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  1. […] a minha participação desse ano e que deve sair em algum momento alguma coisa no Primeira Pauta, CLICA AQUI pra […]



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