O toque de Midas da mídia

“If you don’t love yourself, how in the hell you gonna love somebody else?”
Rupaul

Eu assisti todas as temporadas do programa da Rupaul. Obviamente que o modelo reality show e competição não são coisas que me apetecem, mas tem algo importante acontecendo ali. Pensava enquanto assistia em como seria diferente a minha vida se eu tivesse visto aquilo na minha infância. Suspiro com alívio pelas próximas gerações de pessoas como eu. Suspiro pela minha própria velhice que está em construção.

No programa a diversidade é o mote e no mais vasto sentido da palavra. Corpos brancos, amarelos, negros, magros, gordos, baixos, altos, perfurados, tatuados, cortados, implantados… Corpos cis, corpos trans*, corpos não binários, corpos diversos…Corpo ex-presidiário, corpo soro positivo, corpo com deficiência, ainda que esse último esteja pouco representado…. Questões de classe social também aparecem.

Os dramas pessoais também estão ali, o que é comum em programas do gênero, mas por incrível que pareça não é a chave mestra, um tapa na cara de quem acredita e reproduz o discurso da chamada vitimização. A violência física e simbólica, o abandono, o medo, a culpa, o tombo, o suicídio…

É estranho ver tantas famílias abandonando suas crias especificamente por conta de identidade de gênero e sexualidade. São casos que se repetem e que são comuns na vida de qualquer pessoa não heterossexual ou cisgênero. Seja por experiência pessoal ou pela proximidade, isso sempre aparece, o abandono e o medo de ser abandonado suspira próximo ao ouvido. O tempo todo podemos sentir o hálito quente da intolerância, seja da família ou do ciclo de amizades. A primeira vez que falei abertamente com os meus amigos sobre a minha não heterossexualidade, eu pedia justamente para não ser abandonada por eles. E mesmo que eu estivesse com algumas doses de vinho barato na cabeça, ainda lembro do medo e insegurança que sentia.

Em uma perspectiva freiriana, minhas reações são bastante críticas com as reconciliações que acontecem no programa. Não consigo deixar de pensar no oportunismo que ronda essas relações. Veja a ascensão do programa, a fama, o dinheiro… Acho estranho que de repente – após o toque de Midas da mídia – as famílias passem a se interessar por aqueles que colocaram para fora de casa com chutes nas costas.

É óbvio que as pessoas mudam, se desconstroem e que inclusive possam se redimir de modo genuíno, não estou dizendo que isso não pode acontecer. O meu ponto e crítica é que estranho saber que foi preciso uma pessoa chegar na televisão, em um programa de sucesso, estar envolto pela fama e dinheiro, para que isso pudesse acontecer. Há uma violência dentro da família tradicional que precisa ser discutida de forma madura e aberta, o tempo todo.

Eu tive a chance de estar em um ou outro programa de televisão e senti na pele o poder dessa mídia. Sei que não importa a besteira que você diga, estar ali é entendido como sinal do mais refinado sucesso. As pessoas te tratam diferente, te veem diferente e, em um piscar de olhos, esquecem disso tudo também. Veja, eu faço trabalhos extremamente potentes fora da televisão, mas sinto que é quando apareço na tela que as pessoas se interessam. Obviamente que o interesse não é pelo trabalho que me levou até lá, mas sim por essa falsa imagem de fama, sucesso, glamour e dinheiro que na realidade não existe. É tudo ficção!

O programa da Rupaul me jogou na parede inúmeras vezes e tantas outras no chão. Torço para que as pessoas façam leituras críticas, do programa e da vida, e que ultrapassem apenas o mero entretenimento. Espero que essas relações humanas mudem algum dia. Que não exista medo do abandono e nem o abandono consumado por conta de identidade de gênero e sexualidade. Rogo para que não exista interesse apenas pela imagem do sucesso, mas pelo amor genuíno entre os seres. Sucesso é as pessoas se amarem e se ajudarem mutuamente para construção da tal sonhada vida boa. Vida boa, para toda gente. Saravá!

Thank you so much, mama Ru. ❤

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