Entrevista sobre modificações corporais

Curso: Propaganda e Publicidade | Faculdades OPET

A Body Modification no Brasil vem crescendo e tomando proporções maiores. Você acha que o crescimento deve-se a curiosidade de pessoas que não realizam a pratica, ou por questões de acolhimento dessa cultura pela sociedade?
T. Angel: Acho que o primeiro ponto é entender essa prática como uma manifestação cultural, só esse entendimento (que pode parecer bobo e óbvio) já é um avanço considerável. A grande imprensa hoje e a maior parte da sociedade não conseguiu ainda assimilar isso. Para esses grupos ainda é bastante raso e reducionista a noção do que é a body modification.
O crescimento na verdade é resultado de uma série de fatores, temos que ter em mente que até 1985 vivíamos uma ditadura civil e militar e que nesse sentido o corpo também era controlado, vigiado e punido. Assim como é muito importante ter a noção de que os movimentos sociais exercem uma grande força nisso tudo, tais quais, o movimento feminista, negro e LGBT e suas questões que esbarram diretamente nas questões do corpo. Também é preciso levar em consideração o papel da cultura pop e principalmente da internet. A sociedade está sendo desconstruída para poder acolher aquilo que é anterior a ela própria. Temos muito trabalho ainda para fazer.

Existem body mods. que causam um grande impacto (como amputação de membros), porém estas não são tão habituais. O fato delas aparecerem menos faz com que o preconceito em relação as modificações comuns, como eyeball, sejam mais julgadas?
T. Angel: A noção do que é incomum e comum é bastante relativa quando falamos da body modification. O julgamento em si não está por uma técnica aparecer mais do que outra, mas sim pela mediocridade que ronda a construção cultural da nossa sociedade. O preconceito contra as modificações corporais é sempre acompanhado de tantos outros como o racismo, a LGBTfobia, a gordofobia, o sexismo, o classismo e a lista segue. É muito comum ver uma pessoa que reproduz textos preconceituosos sobre técnicas de modificações do corpo, reproduzir sobre tantas outras questões e isso precisa ser entendido e combatido. Faço um adendo que estar ligado com a body modification não elimina a reprodução de preconceitos, há muitas pessoas dentro da comunidade da modificação corporal que são bastante preconceituosas (há racistas, machistas, LGBTfóbicos, gordofóbicos e classistas aos montes), inclusive há preconceito com técnicas que essas pessoas não consideram certas, por exemplo, o próprio eyeball tattooing.

Suspensão corporal pode ser considerada uma body modification? Se sim, por quê? Se não, por quê?
T. Angel: Sim e não. Sim, pois a suspensão deixa cicatriz na pele e causa uma espécie de transformação interior, ou seja, altera o corpo ou a percepção que temos dele. Não, pois o processo é outro. As pessoas não fazem a suspensão por conta da cicatriz que ela pode deixar, mas por todas as outras coisas. A experiência em si tem um peso bastante significante.

Algumas tribos africanas usam a Body Modification para exercer sua cultura, você acha que exerce-lá longe de lá seja, de certa forma, uma apropriação cultural?
T. Angel: Mas as pessoas ocidentais também modificam seus corpos como parte da cultura. Ora, as clínicas de estéticas estão aí, girando muito dinheiro e alterando muitos corpos e isso é cultural, em alguns casos se tornam verdadeiros ritos. O Brasil está entre os países que mais realizam cirurgias plásticas no mundo e isso é parte da cultura.A minha preocupação com a apropriação cultural está mais no sentido de ter consciência de que algumas técnicas foram quase completamente exterminadas e junto com os povos originais e, de repente o homem branco com dinheiro se apropria e a coisa ganha valor de ser. A suspensão vertical pelo peito é um exemplo. Os índios pediram para não usarem o nome O-kee-pa e ainda assim é o que mais vemos acontecer. Não escutamos e não queremos escutar, nem mesmo quando pedem. Esse é um problema.

Com qual idade VOCÊ começou a se interessar e modificar seu corpo?
T. Angel: Sempre tive interesse por corpos que escapassem das normas, todavia, comecei a alterar meu próprio corpo na adolescência. Tudo começou com um piercing no lábio.

As modificações que você faz são para empoderar seu exterior (apenas o corpo) ou interior (como uma elevação de espirito)?
T. Angel: Não faço e não acredito nessa divisão cartesiana do corpo. O interior e o exterior são uma unidade para mim. Eu costumo dizer que ganhei o corpo através das modificações corporais, antes disso, era algo que não era meu e que me causava mais problemas e desconforto do que qualquer outra coisa. Hoje eu enxergo que essa construção de corpo, identidade, self estão relacionadas diretamente com o meu empoderamento. Sigo a perspectiva de Ponty, nesse sentido, não temos um corpo, somos um corpo.

A cada modificação que você faz, você acha que esta mais perto de se auto-satisfazer?
T. Angel: Absolutamente. Que fique claro que todo corpo é o resultado de uma construção cultural, mesmo aqueles que não usam técnicas como as quais usei. Tenho a sensação que literalmente é um processo de se auto-fazer e acompanhado da autossatisfação de existir. Por essas e outras que acho tão importante a discussão sobre a autonomia de auto-manipulação do corpo, a saúde mental alcança ápices consideráveis e isso não pode ser pormenorizado. Mas estamos – o direito, a medicina, o Estado e demais instituições – ainda em um nível bastante infantil de entendimento, debruçados em conceitos judaico-cristãos medievais do que o corpo pode.

O que levou você a iniciar as suas body modifications?
T. Angel: Foi o encantamento em ter a possibilidade de construir o meu corpo da forma que eu quisesse. Aspirava liberdade e tinha um profundo desejo de experimentação. Que não morreu e espero que nunca morra.

Você já sofreu ou sofre alguma discriminação por causa das modificações?
T. Angel: Incontáveis vezes na rua, na chuva ou numa casinha de sapê. São fatos. Ser xingado na rua, apedrejado literalmente, não conseguir emprego, ser comparado com tudo de ruim que possa existir. Ser motivo de chacota… Tive minhas capacidades humanas, cognitivas, emocionais reduzidas ao pó. Acho bom pontuar que essa violência física e simbólica a que sofri foi comumente acompanhada da LGBTfobia, como eu disse acima os preconceitos sempre estão juntos. É fruto desse desejo humano de exterminar tudo aquilo que considera diferente. Primeiro desumaniza e depois extermina o que sobrar. Bem, eu aprendi a juntar os cacos e fazer dessas experiências todas o meu campo de batalha. Aqui estou eu contando isso para você, outras pessoas não tiveram essa sorte, infelizmente. Umas cansam e tiram a própria vida, outras tantas têm a vida ceifada. É um mundo realmente estranho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: