Entrevista sobre o GESMC e modificações corporais

Curso: Jornalismo | Universidade Metodista de São Paulo

– Quando o GESMC foi criado? Qual é o seu principal propósito?

O Grupo de Estudos Sobre Modificações Corporais (GESMC) surgiu em 2014 e da necessidade de se promover estudos, diálogos críticos e profundas reflexões sobre as práticas que rondam a comunidade da modificação do corpo. Tudo isso da maneira mais horizontal e agregadora possível. O respectivo grupo foi fundado por T. Angel (historiadora e artista da performance), que vem buscando fomentar a comunidade da modificação do corpo através de suas pesquisas e trabalhos, a exemplo, o que vem sendo realizado desde 2006 com o FRRRKguys.com.br. Sem esquecer também de mencionar as suas tentativas em promover diálogos efetivos dentro da comunidade body mods através de encontros, debates, palestras e até mesmo do que aconteceu nas primeiras edições da Frrrkcon (2008-2009), onde se tentou criar um espaço temporário não só para se alterar o corpo, mas principalmente para se refletir sobre todos esses processos.
Buscando e assumindo um papel independente e que se auto-elabora, o GESMC não está e não pretende estar relacionado com nenhuma instituição. Entendemos que as instituições são mais uma ameaça para as práticas de se modificar o corpo do que o contrário.
O GESMC trabalhou com temas pré-definidos, utilizando-se de uma bibliografia bastante diversificada que aborde não só a modificação corporal, mas que também possibilitasse reflexões sobre o mundo em que vivemos. Isto por entendermos que essas práticas corporais não estão descoladas das ações das pessoas no tempo. Atualmente, temos promovidos palestras e debates em uma tentativa de experimentar novos formatos.
É um grupo de estudos que se constrói através do encontro e compartilhamento de experiências de seus participantes. A sua existência é oriunda de sua própria necessidade de existir.

– Para vocês, qual é a real definição de modificação corporal?

Entendemos que a modificação corporal seja um conjunto diverso e complexo de técnicas que alteram o corpo. Diversificado no sentido que entendemos que o corpo pode ser modificado desde a alimentação, esporte, medicina, arte e passando pelas tatuagens, piercings, escarificações (dentre outras tantas) que é o recorte que temos nos concentrado mais.

– Em seus estudos conseguiram determinar o que levam as pessoas às modificações?

Na realidade o que a gente percebe é que como a nossa experiência no mundo é através do corpo, não temos como passar por essa vida sem passar por um processo de modificação do corpo. O corpo é uma construção social que varia nos tempos e espaços. Dentro do nosso recorte, as motivações são as mais variadas possíveis e consideramos impossível, e honestamente desnecessário, fechar essas pulsões em caixas ou traçar um único caminho possível. Algumas pessoas fazem motivadas pela arte, outras motivadas pela estética, algumas motivadas pela política. Temos as pessoas que fazem por fetiche e temos as religiosas. Nós nunca vamos conhecer todas as motivações e consideramos isso fascinante. Não precisamos saber de tudo.

– Os padrões de beleza impostos pela sociedade tem peso nessas escolhas?

É preciso problematizar os padrões de beleza que, há de se dizer, têm os dois pés na eugenia. O ideal de belo ainda é racista, sexista, cissexista, heteronormativo, etarista, xenófobo, etc… Em outras palavras e, basta olhar as tais revistas de beleza que circulam nas bancas de jornais, o corpo jovem, magro, ocidental, branco, heterossexual cisgênero, judaico-cristão é o que se vende como (produto e ideia) belo. As modificações corporais do nosso recorte de certa maneira criam um ruído nesse sistema. Pensa o efeito que causa uma pessoa implantar chifres em uma país como o nosso em que o fundamentalismo religioso cristão cresce freneticamente… No mais, é possível se construir corpos que perdem com várias referências humanas e isso cria choques. O que passou da hora de entendermos é que a diversidade é a solução, sem ela não há vida.

– Por que essas modificações ainda causam tanta estranheza na sociedade?

Porque nossa sociedade é capitalista e tendenciosamente é domesticada para viver em uma zona de conforto (que é altamente questionável, basta ver o número de vendas de antidepressivos e outras drogas lícitas), grosso modo para serem corpos dóceis capazes de produzir. Qualquer corpo que fuja da norma, como exemplo, o corpo das pessoas transexuais, negras, com deficiência e das pessoas modificadas criam um ruído nesse sistema que é violento, cruel, excludente e segregativo. As modificações corporais existem nessas Terras antes da colonização europeia e ainda assim as negamos como um patrimônio cultural. O que fizeram com os índios? Escravizaram, exploraram, catequisaram, assassinaram… E hoje ainda é feito isso. Temos também um mancha de sangue com a escravidão africana no Brasil e, veja, não foi suficiente para nos ensinar que o racismo é hediondo. Assistimos diariamente casos absurdos em que o corpo negro ainda é violentado física e simbolicamente. Falamos tudo isso, para chamar a atenção ao processo de longa duração em que essas transformações se dão. O problema não é a estranheza que as modificações corporais causam, mas de todo corpo que escapa da regra, percebe?
Mas há resistência e luta e não há trégua.

– Em relação ao tabu, acredita que houveram avanços na aceitação durante os anos implementação dessas práticas no Brasil?

O corpo ainda é tabu, a sexualidade ainda é tabu, o gênero ainda é tabu e com a ascensão do fundamentalismo religioso, a tendência é que seja mais. Todavia, é inegável que houveram avanços pois existem pessoas nos mais diversos campos trabalhando e militando para que isso aconteça. A militância negra, a militância feminista, a militância LGBT, a militância das pessoas com deficiência têm nos ensinado isso. Existe dentro da comunidade da modificação do corpo uma militância para que esses corpos também possam co-existir com os demais em harmonia. O nosso grupo de estudos assumidamente faz esse papel também. Hoje temos um presidente negro e presidentas mulheres e vemos isso como o resultado de anos de luta. Não nos acomodemos, haver avanço não quer dizer o mesmo que estamos em uma situação de igualdade. A realidade é outra, basta ver a chacina que matou 19 pessoas pobres e em sua maioria negra em Osasco.

– Vi que grupo promove palestras pelo país. Existe diferenças culturais em relação às modificações em cada cidade que visitam?

Sim, muitas especificidades e também similaridades. De modo geral, todos os corpos modificados causam estranhamento. Por outro lado, é muito interessante entender como se construíram as redes dessa comunidade nos outros Estados. Rede esta que ainda está em construção, é uma história muito recente, pensando essas práticas na contemporaneidade.

– Quais são as principais reclamações relacionadas ao preconceito?

O mercado de trabalho ainda é resistente para aceitar essas pessoas. A família ainda é resistente para lidar com essas questões. A igreja e os religiosos ainda veem esses corpos como demônios. O discurso médico só enxerga que brincamos com nossa saúde física. O discurso psicológico quer nos patologizar. A mídia é absurdamente cruel e leviana para tratar o assunto. São corpos ainda marginalizados, principalmente quando eles não estão nas classes médias e altas. Principalmente quando não são brancos. Perceba que os preconceitos estão todos relacionados e quase que partindo de uma mesma raiz, o ódio.

– O mercado de trabalho ainda é um problema?

Menos que dez ou quinze anos atrás, mas ainda um problema que precisa ser combatido. Tanto é que forçosamente essas pessoas são colocadas para trabalhar com piercing ou tatuagem. Mas hoje já temos estilistas, professores, dentistas, veterinárias, administradores, vendedores… Os contratadores precisam entender que as modificações corporais não definem capacidade intelectual e nem caráter. Se assim fosse, a gente não teria corrupção dos políticos brasileiros, a maioria, não carrega no corpo nem mesmo um piercing no nariz e vivem de terno e gravata com muito dinheiro sujo no bolso.

– Acredita que este tabu será abolido no futuro?

Não queremos soar trágicos, mas não acho que terá um fim completo (como mostramos acima, o racismo que já deveria ter sido exterminado, ainda não foi…), mas acreditamos plenamente que podemos viver em condições melhores. Que possamos exercer nossas subjetividades e identidades sem sofrer perseguição e violência. Somos pessoas buscando aquilo que consideramos a felicidade, temos legitimidade em nossa jornada.

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