O dia em que o arco-íris estourou o armário…co me

“O amor é a resposta não importa qual seja a questão”
E.S.

Deixe-me contar uma pequena história para vocês. Quando eu era uma criança, para ter mais exatidão, desde as minhas primeiras memórias eu sentia que não era heterossexual e nem cisgênero. Vou – tentar – me ater nessa pequena história somente ao que concerne a minha não heterossexualidade.

Bem, obviamente que quando criança não tinha conhecimento dessas terminologias todas, somente sentia que existia uma heteronormatividade compulsória e que eu escapava dela. As regras “isso é coisa de menino e aquilo é coisa de menina” ou “menino gosta de menina” e vice-versa não cabia para mim. E era muito estranho, uma vez que isso parecia servir confortavelmente para a maioria das pessoas ao meu redor. Além de sentir, fui sabendo e aprendendo tudo isso com a própria experiência de vida. Veja bem, eu era uma criança dos anos 80, de família pobre e cristã… O pouco que eu ouvia sobre as pessoas gays, lésbicas e transexuais não era muito bom. Na verdade era um bocado ruim. Na escola, em casa, na igreja ou na rua o pouco que se dizia é que essas pessoas eram degeneradas eram pecadoras, doentes, safadas, ruins… Elas eram tão abjetas que se tornaram nefandas, no sentido daquilo que não se deve mencionar, de tão abominável.

Então, eu tinha lá os meus 6 ou 7 anos e estava sendo chamado indiretamente de degenerado, pecador, doente, safado e ruim… Depois comecei a ser chamado diretamente também, era a bichinha, o viadinho, a moçoila… E em sua maioria das vezes não ouvia isso de estranhos, eram alguns dos amigos de rua e da escola que o faziam. Depois de uma certa idade, assistindo televisão vi que eles retratavam os gays, lésbicas e trans como caricaturas grotescas para serem satirizadas. Naquela época eu não sabia que aquelas pessoas que eram transformadas em piadas, morriam nas ruas, não conseguiam trabalhos e tinham alguns dos direitos humanos básicos negados. Mas sabia que eu estava sendo violentado simbolicamente de tabela. Eu tinha horror das piadas sobre as bichinhas e ainda tenho, só para constar.

Naquela época não tinha internet, não tinha série com personagens LGBT, não tinha presidente negro e nem presidenta mulher. Não tinha para onde correr e de quebra ainda estávamos saindo das sombras da Ditadura Militar, e no meio dos tempos escuros da AIDS e esta, que por sinal, o que se dizia é que era culpa dessa gente gay. Eu era uma criança e o que eu ouvia e, o que indiretamente me diziam é que eu não prestava como gente.

Eu tentei por algum tempo e de alguma forma me inserir na norma. Eu precisava ser normal para não ser expulso de casa, não apanhar na rua, não ir para o inferno, não perder meus amigos e nem minha família e ser feliz. Depois a vida ensina que essas coisas não funcionam assim. E esse é um processo tão duro e tão tortuoso que te quebra de inúmeras formas e incontáveis vezes. Ouvir das pessoas que se ama que você é um pervertido, um doente, uma aberração e isso machuca profundamente. Você para de acreditar em si, você introjeta a ideia de que não presta para nada, sua autoestima desmorona e você se sente sozinho. Vocês sabem a quantidade de pessoas gays, lésbicas e transgêneros que se suicidam por conta disso? Eu pensei em morrer por medo e ódio de ser aquilo que eu era, mas eu escolhi viver e me amar. Lentamente eu consegui assumir para mim aquilo que eu sou, fui me empoderando bem devagar. Primeiro a gente cura as feridas e depois se fortalece. O amor próprio e a confiança vieram juntos no processo.

Descobri que tudo aquilo que me fizeram acreditar, digo, regras, normas, esquemas prontos, certezas, nada daquilo era de verdade e nem servia para mim. Eu sai nu do armário e deixei tudo o que não me servia lá. Eu sou um anormal e passei a estar em paz com isso. Estranho seria estar em paz sendo aquilo que eu nunca poderia ser. Junto com isso, com o tempo passei a assumir o risco de perder, não só materialmente, mas pessoas. Óbvio que não é fácil chegar nisso, mas são as circunstâncias. Com tudo, descobri que algumas pessoas precisam mesmo ser perdidas, em um processo de seleção natural e sobrevivência.

Escrevo essas pequenas histórias todas agora, pois hoje foi o dia em que o arco-íris estourou o armário. Foi o dia em que uma simples mudança de foto em uma rede social simbolizava um grito muito maior e que tardou décadas para acontecer. Mas que mesmo com todo atraso não merece ser recebido com pedras e sim com flores. Tivemos finalmente aquele momento em que amigas e amigos e familiares heterossexuais e cisgêneros colocaram publicamente um arco-íris e você pode ver nisso uma espécie de passo importante que demos. É um gesto pequeno – bobo quiçá – mas que diz: “hey, estou do mesmo lado que vocês”.

É impossível olhar o dia de hoje com indiferença ou menosprezo, principalmente quando olho para os dias que ficaram para trás e recordo de mim buscando formas de como fugir e escapar para sobreviver e ser feliz ou quando penso na quantidade de gente que se matou por achar que estava sozinha e abandonada desse mundo (ou de fato estar). O arco-íris é muito maior e alcança mais fundo do que vocês podem imaginar. As cores salvam vidas e o amor deve vencer. Um passo por vez.

Ps. Por favor, não subestime a nossa inteligência, a gente sabe que isso não fez acabar com a LGBTfobia de uma vez. É apenas uma pequena parte de um processo de transformação. A gente tem muito trabalho pela frente, um dia iremos morrer e o trabalho vai continuar aí pra ser feito pelas novas gerações.

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Comments
One Response to “O dia em que o arco-íris estourou o armário…co me”
  1. mariana disse:

    Perfeito!!! Texto simples…de fácil leitura que explica exatamente como as pessoas são… Como se sentem… Que bom seria se as pessoas pudessem entender que o que importa é o amor …

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