10: uma década de suspensão corporal

Na ocasião da minha primeira suspensão corporal em 19 de março 2005 eu escrevi um texto contando a experiência para o site da Neoarte, mas infelizmente este se perdeu quando houveram as alterações na plataforma eletrônica. Digo infelizmente, pois ali era um depoimento franco, fresco e debruçado naquela tão significante primeira experiência. Por sorte tenho um punhado de fotos, vídeo e memórias. Ah! As memórias… É agarrado nelas que escreverei as linhas adiante.

Eu conheci a suspensão corporal no fim da década de 90. Naquela época eu não tinha contato com a internet, nesse sentido o mundo era um pouco diferente do que é hoje, então essa informação me chegou através de um programa de televisão aberta, com aquelas típicas pautas sensacionalistas e que trazem – quase sempre – pouca informação relevante. Apesar disso não tive uma má impressão da suspensão, fiquei curioso em saber mais sobre a prática e não tive vontade imediata em experimentar aquilo em mim. Na verdade nem cogitei que um dia faria.

Com o passar do tempo mais e mais se falou sobre a suspensão corporal. A internet chegou para mim, o que possibilitou que eu pudesse pesquisar e aprender mais sobre a prática. Junto com isso, no Brasil começaram a surgir grupos de pessoas que se suspendiam. Todo esse movimento despertou o meu interesse em vivenciar a suspensão, de fato ter a experiência. Sem me esquecer de dizer que eu já vinha experimentando uma série de procedimentos em meu corpo como perfurações, tatuagens, escarificações e estava muito interessado em saber o que mais o meu corpo suportaria. Para mim era muito claro que tudo era como se fosse um percurso natural – com base na construção cultural que estava me submetendo – de autoconhecimento.

Em 2004 decidi que passaria pela suspensão corporal e comecei a trabalhar para que tudo seguisse um bom caminho. Comecei a conversar com o Filipe Berndt da Neoarte. Foram longas conversas durante dias e noites, ele sempre muito atencioso esclarecia as minhas dúvidas e anseios, que não eram poucos. Marcamos a data.

Minha primeira suspensão corporal era o meu rito de passagem. Escolhi uma cerimônia privada, não saberia o que poderia acontecer comigo e sentia que precisava da menor quantidade de gente possível. Tive a importante companhia do meu primo e amiga e o Filipe apenas seguido de sua irmã e namorada.

Lembro que a ansiedade me consumia. Tive medo, uma variedade de sensações tão distintas e tão intensas. Tudo começou a ser preparado. Meu corpo foi perfurado e recebeu quatro ganchos. Uma descarga de adrenalina. Meu corpo foi preso ao suporte que o suspenderia nos minutos seguintes. Começo lentamente a ser içado. Tive a sensação de que meu corpo partiria ao meio e eu cairia. Pensei que não fosse capaz de passar por aquilo. Meus pés estavam presos ao chão, tal qual meus medos me aprisionavam na segurança e conforto da vida. Eis que o chão se distanciou, ganhei o ar e uma sensação de euforia boa. Estava suspenso.

No ar explorei as possibilidades que aquele momento me possibilitava. Pequenas pausas de introspecção. Brincadeiras de crianças que aprendem os primeiros passos. Brincadeiras de pássaros que aprendem os primeiros voos. Redescobrindo o corpo. Desci e ao tocar o chão senti o peso da gravidade. Filipe sorriu e disse que eu não pararia por ali, eu sorri de volta como quem consente. Tinha acabado de passar por uma das experiências mais transformadoras da minha vida e dez anos depois estou eu aqui escrevendo sobre ela.

A suspensão corporal me tornou uma pessoa melhor e mais feliz. Ela me ensinou que eu não era tão frágil como me fizeram acreditar. Aprendi através dela que o corpo tem forças e potências que nem podemos imaginar, o que colabora potencialmente em como nos enxergamos e como olhamos os corpos dos outros. Tenho orgulho em dizer que trabalhei e pesquisei a suspensão corporal na última década em suas mais variadas possibilidades e que pretendo manter esse ritmo enquanto a vida me permitir. A suspensão corporal é o que quero e vou pesquisar em meu mestrado, pois acredito ser importante inserir na academia brasileira mais discussões sobre a prática, seja como forma de manutenção da história contemporânea como também, e principalmente, para honrar suas raízes com os povos tribais norte americanos e também com os hindus.

É incrível como falar sobre a suspensão corporal sempre me traz muitas emoções e muito prazer. Pois bem, é uma década de muitas experiências intensas, cada qual com suas especificidades e todas transformadoras. Que eu tenha tempo na vida para contar essas histórias todas…
Só estou começando, e preciso dizer que é um bonito e pequeno começo.
Sigo beijando os ares.

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Registros da minha primeira experiência feitos pela Neoarte.

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