Por T. Angel em torno de Fole, de Michelle Moura (Curitiba)

Escrevi esse texto em 2013 para ser publicado no 7×7, mas isso nunca aconteceu. Como o reencontrei esses dias, fica a publicação por aqui.
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Michele Moura X T. Angel = Estado de emergência
Por T. Angel em torno de Fole, de Michelle Moura (Curitiba)

Pulmão. Enchendo e se esvaziando em movimento constante… Como quem fala algumas centenas de palavras pensamentos-ideias-sensações e desejos sem o uso de vírgula-sem pausa-sem ponto final… Havia uma sala e a luz estava acesa. Todo espaço bem iluminado. Lembrem-se, o pulmão em movimento. O tempo to-do o pulmão fica…

Não há hesitação, o movimento nos acompanha e reverbera em cada milímetro do corpo. Dentro e fora. Inspira, expira, ins… Lembramos de um comentário avulso sobre uma crise de asma: – “Eu me sinto cansado só de vê-lo respirando assim. Aflição com a sua falta de ar…” O pulmão é hiperventilado. A cabeça enche toda de sangue, as veias ficam saltadas… Latejando. O ar sai e entra do corpo feito fole de ferreiro ou como uma valsa solitária e caótica. A respiração controlada caminha para o descontrole. Forma, deforma e forja uma dança autônoma. A dança em exaustão: emergência. A alternância entre inspiração e expiração produz sons que escapam dos buracos do nariz, da boca, de todas as frestas do corpo. Cada espaço, cada canto sendo preenchido e esvaziado de ar. Pequenos gemidos, diálogos inaudíveis e balbuciados. Pequenas canções, sem língua, sem pátria, sem título. Quem sabe um pouco dos primeiros diálogos que travamos no vazio em nossa primeira infância ou quem sabe ainda uma comunicação forjada com o todo – no sentido holístico -, de modo institivamente primitivo, animalesco, bruto, vivo e leve.

Imagine um peito dilacerado que ao invés de receber massagem cardíaca, recebe uma intensa massagem pulmonar. Buscando vida através da frenética masturbação do órgão responsável pela oxigenação do sangue no corpo. Buscando ar.
Um, dos, três, respire… Fique comigo. Um, dois, três… A hiperventilação leva ao estado de emergência. No sentido de aquilo que emerge e também de situação crítica. A emergência dessa dança transforma a visão em uma grande mancha borrada. O ar segue querendo escapar pelos buracos dos olhos, dos poros. Suor e saliva escorrem
pelo corpo. Tudo fica muito escuro.

No completo breu, ainda que não pudéssemos ver um palmo diante do nariz, sentimos o espaço completamente ocupado pelo ar. Denso, dançando e fazendo música de si. A pele toda arrepiava. A hiperventilação teve uma trégua. Precisei de tempo e fôlego para voltar para mim.

((( Fole ))) teaser from Michelle Moura on Vimeo.

  1. Angel tem graduação em História e é artista da performance.
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