Entrevista sobre modificação corporal e o FRRRKguys

Curso: Programa de Doutorado em Artes e Design  | Universidade: PUC-Rio

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Gostaria que você me explicasse o que entende quando fala de corpo burguês? Que corpo é este?
Quando falo de um corpo burguês me refiro à um conjunto de regras e códigos que constituem este. Falo principalmente de classe social. Em outras palavras, que há uma variação de construção corporal (que é social e política) e de sua respectiva recepção de acordo com a classe com a qual este está inserido. Como eu escrevo em minha pesquisa, o imaginário – social e cultural – do século XX ainda é carregado de um pensamento burguês industrial do século XIX, como cita Hobsbawn:

“Esta dualidade entre solidez e beleza expressava uma grande divisão entre o material e o ideal, o corpóreo e o espiritual, muito típica do mundo burguês, já que o espírito e a idéia dependiam da matéria e podiam ser expressos somente através da matéria, ou pelo menos através do dinheiro que pudesse comprá-la.”

 

O corpo burguês, para você, é um corpo ideológico, correto?  Como é este corpo em sua materialidade física? Como ele aparece concretamente falando? Ele é branco, negro, mulato, cafuso? Gordo, magro, etc?
Podemos entender o corpo burguês como ideológico uma vez que ele segue como um (único) modelo (possível) para o status quo. Ele aparece como o corpo branco, magro, cisgênero, heterossexual, cristão… Se aproximando muitas vezes dos ideais eugenistas.

Como você vê a posição dos body modifiers com relação a normatização da sexualidade e de seu binarismo?
É uma discussão que começa a aparecer com maior frequência e força no Brasil. Acredito que deva acontecer cada vez mais e se fortalecer o máximo que puder, mas vai levar tempo e talvez eu não viva o suficiente para ver grandes transformações nesse sentido. Obviamente que há resistência e uma espécie de alienação sobre essas pautas por uma parcela dessa população, que não está descolada da sociedade como um todo. De modo geral há muito sexismo, machismo, misoginia, LGBTfobia e afins. O que é extremamente contraditório existir em um grupo de pessoas – o da modificação do corpo – que também é oprimida e não é pouco. Todavia, não podemos ignorar que existem pessoas trabalhando para a desconstrução dessas violências todas.

No frrrkguys você fala de “Male beauty, body art & body modification culture”. Gostaria que você desenvolvesse cada um destes tópicos para mim.
Esse foi o slogan que usei por muitos anos e não sei se ele ainda representa o trabalho que tenho feito com o FRRRKguys. No próximo ano completaremos 10 anos de existência e é muito provável que esse texto mude.

Ele diz que:

Male beauty – Aponta que é um espaço de discussão sobre a beleza masculina oriunda das práticas de modificação do corpo. Quando o FG começou em 2006 não havia espaços para isso.

Body Art – Aponta que é um espaço para discussão e fomentação da body art em suas mais variadas formas. Acreditando e defendendo a ideia de que body modification e body art não sejam as mesmas coisas.

Body Modification Culture – Aponta que é um espaço para discussão e fomentação da cultura da modificação do corpo em suas mais variadas formas. Obviamente que o recorte é tatuagem, piercing, escarificação, implantes, mas não ignoro outras práticas como o body building, por exemplo.

Outra coisa, como você pode ver a apropriação do saber médico ( técnicas, tecnologias e demais aparatos) pelos body modifiers?
Esse é um efeito muito claro das práticas de se modificar o corpo na contemporaneidade. Houve obviamente uma apropriação dos saberes que são utilizados pela medicina e a grande maioria adaptadas para a realidade dos body modifiers. O professor Camilo Braz faz uma análise bem interessante sobre isso em sua dissertação de mestrado.

Confesso sentir uma certa fadiga do antagonismo que existe entre médicxs e body modifiers. Mas essa é uma outra conversa.

Vc me falou com compra os materiais, mas não explicou o processo de aprendizado das técnicas. Como se dá o processo de apreensão destas técnicas?
Muito se dá através do do it yourself. Há também a ideia do aprendiz acompanhar um profissional mais experiente afim de compartilharem conhecimentos. Inúmeros seminários, workshops também colaboram com a formação dessas pessoas.

Quando perguntei sobre amputação, você disse que particularmente não se sentia confortável porque debilita o corpo. O que é, no seu entendimento, um corpo debilitado?
Eu não lembro exatamente da minha resposta naquele momento, mas passei por um processo de transformação e hoje encaro a amputação com outro olhar. Eu não me sinto mais desconfortável com a amputação e não acredito que ela debilite o corpo. Obviamente que ela cria novas realidades de existência: de como eu vejo o meu próprio corpo e como o outro vê esse corpo. Assim como toda e qualquer modificação do corpo, a amputação é feita pelos mais variados motivos e atendem os anseios e desejos de quem a procura. Sendo assim, não me sinto confortável de fazer avaliações e julgamentos morais sobre isso. Hoje entendo que um corpo debilitado é aquele que é impedido de ser o que quer ser ou de existir como se é.

Como você se define enquanto body modifier?  Fale um pouco da cultura da body modification em São Paulo.
Body modifier é a pessoa que é um ou uma profissional da modificação do corpo. Não é o meu caso. Eu seria uma pessoa entusiasta que pesquisa a temática.

São Paulo passa por um momento super delicado com as modificações corporais. Há um forte movimento reacionário e opressor tentando controlar o máximo que pode todas essas técnicas. Controlar principalmente quem pode fazê-las. Tudo isso é muito problemático por se tratar de uma violência entre pares e, inegavelmente, por tornar-se fortes sistemas autoritários de exclusão. É a primeira vez que temos tantos registros de perseguições por parte da própria população dessa comunidade.

Espero que a nova geração chegue com uma ideia de trabalho coletivo e aproximação para combater toda a violência que existe agora. Não estamos vivendo o nosso melhor momento, quiçá estamos passando por um dos piores.

No Brasil, pelo que estou entendendo,  existe  uma diferença em quem executa/ promove  as transformações e as que possuem/portam  transformações.  Body modifiers são os executores/profissionais das modificações. Já os  adeptos da BM, como você,  são entusiastas.  Nesse caso, o que é o body mod, no Brasil?  Engloba as duas categorias?
Não sinto que isso seja apenas no Brasil, percebo que as duas categorias estão presentes na comunidade da modificação corporal como um todo. Nesse sentido, englobando as duas categorias: modifier e modificado-entusiasta. O que percebo é que talvez surjam algumas novas terminologias para especificar melhor a posição e função de cada um.


Você disse para mim que não gostava de falar em números de modificações e sim em técnicas. Você poderia explicar um pouco sua posição?

Pessoalmente, não faz sentido enumerá-las. Na realidade ficar falando em números me dá uma ideia de quantidade pela quantidade ou pior, de competição. Não estou interessada em nada disso e por isso não gasto meu tempo contando.

É cultura ou subcultura e por quê?
Nasce da contracultura e já foi assimilada pela cultura de massa faz tempo. Obviamente que não todas as técnicas, mas grande parte delas. Penso que seja lamentável quando se esquecem do viés contracultural que essas práticas carregam. Ou quando se ignoram o viés anárquico e poético.

Imaginando que sou completamente leiga no assunto,  como você definiria a BM, no Brasil? Quais praticas ou subculturas  que a influenciam?  Pode-se dizer que é um amalgama  de práticas diversas que “pegam emprestado” de movimentos como o body art, e de subculturas como punks, cyberpunks, body hackers, self-made cyborgs ou  grinders, primitivos modernos  e/ou  queer?
Penso que seja exatamente isso que você disse. Primeiramente temos que pensar que é um grupo que não é homogêneo e extremamente complexo, que pega emprestado e também empresta uma série de códigos e técnicas. As tribos urbanas foram super importantes para proliferação e formação desses grupos. A body art igualmente. Inegavelmente as populações tribais também estão dentro desse esquema. Então, dentre desse grupo as pessoas vão se direcionando para aquilo que atende melhor suas necessidades de construção de si.

No universo da BM você se define como? Primitivos modernos, cyberpunk, body hackers, self-made cyborgs ou  grinders, queer? O que você é? Ou simplesmente não tem definição? Quais os tipos de práticas você porta em seu corpo?
Tenho uma certa dificuldade com a fixidez ou definição das coisas. No entanto, reconheço que em alguns momentos são importantes. Sinto que o meu gênero se aproxima do queer, uma vez que eu não me sinta homem e nem queira ser mulher. Para mim o binarismo de gênero não serve. Junto com isso tenho em mim um pouco de cyberpunk com um profundo interesse no body hacktivism e self-made cyborgs. Reconheço a importância do movimento primitivo moderno proposto por Fakir Musafar, mas não é a linha que mais me interessa.

Existe alguma militância dos body modifiers ou dos adeptos/entusiastas das BM no Brasil contra binarismos sexuais, masculino, feminino? Pergunto isso porque, em uma das nossas conversas, você disse que uma das propostas do Dennis Avner, o “homem gato”, que estava com 54 anos quando morreu, em novembro de 2012, era se transformar em um tigre fêmea, transitando e trazendo reflexões inclusive acerca do gênero. Existe esta preocupação no Brasil também por parte de alguns entusiastas?
Existe, mas ela é ainda a minoria da minoria. Todavia é um movimento que começa a ganhar voz e força. Junto com isso existem as pessoas da academia se enveredando por esses campos, o que é ótimo também. Percebo que o Brasil tem um certo problema com isso, somos um país de uma cultura LGBTfóbica forte, um dos que mais mata travestis, por exemplo. E faço essa crítica pois, por exemplo, quando vemos um livro como o Modcon, lá temos pessoas LGBT, eunucos e variadas identidades de gênero e sexualidades plurais co-existindo em aparente harmonia. Aqui não tivemos experiência similar e ainda hoje pelo que vejo, sei que o preconceito é absurdo. É preciso desconstruir muita coisa.

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