Entrevista sobre vida, arte, modificação do corpo e afins

Entrevista para a Gazeta da Semana – http://goo.gl/ljAx2y
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Thiago Santos: Quem é o homem Thiago Soares?

 T. Angel: Thiago Soares não é um homem e honestamente acho que este é um belo começo para a entrevista. Não me sinto homem, nunca me senti macho, nunca entendi muito bem essa lógica binária de ter que ser alguma coisa predefinida por alguém que não eu – homem ou mulher, macho ou fêmea, masculino ou feminino -, isto para estar dentro de um esquema social “aceitável”. Tenho buscado cada vez mais descontruir e desaprender tudo isso que me enfiaram goela abaixo, por sentir que não é, nunca foi e nunca será a minha realidade. Por sentir que toda essa imposição violenta me causou feridas durante a vida e elas não cicatrizam. Dito isso, Thiago Soares é uma pessoa como qualquer outra, que batalha pelo que acha correto e por aquilo que acredita.

 T.S: Quando o que chamamos de arte começou a despertar em sua pessoa, uma grande paixão

 T.A: Desde as minhas primeiras memórias a arte esteve presente em minha vida. Não falo daquela ideia de arte burguesa que busca aceitação de alguma instituição ou alguma coisa para ser, ela já era, já estava posta na minha vida desde sempre. Sinto como se a arte fosse em incontáveis vezes o fio que me sustentava ainda nesse mundo. Sou muito grato pelas transformações que ela me propiciou e a força energética que recebo através dela.

T.S: No ano de 2002, você deu o seu primeiro passo em busca de qualificação profissional!

 T.A: Não diria que foi o primeiro passo, eu comecei a trabalhar desde muito cedo. Com 15 anos de idade eu já estava trabalhando como office-boy (grifo para chamar atenção para a coisa da imposição de gênero que menciono na primeira pergunta). Naquela época o que eu recebia como informação era uma educação para atender os interesses capitalistas. Não existia na minha vida essa cultura de terminar o colégio e ir para uma universidade, isso era para quem tinha dinheiro. A ideia era cair em qualquer mercado de trabalho e aceitar qualquer emprego. Talvez ainda seja assim para algumas pessoas, mas tenho a impressão que as coisas mudaram, hoje o acesso às universidades (ainda que privadas) é mais fácil do que anos atrás.  No entanto, é inegável que em 2002 fui estudar algo que eu gostava muito que era a moda, em um curso técnico que foi oferecido gratuitamente pelo Senac. Durante o curso tive vários encontros positivos e que me ajudaram a saber o que fazer a seguir. Passaram alguns anos e fui buscar uma graduação em moda, não consegui arcar com as mensalidades e tive que abandonar o curso. Foi um processo traumático, mas que eu precisava passar. Durante a graduação em Moda, surgiu uma paixão pela História da Indumentária e foi o que busquei. Fiz uma graduação em História, inicialmente com a intenção de me especializar em Moda e atuar nesse campo. Todavia, o curso transformou a minha vida, entrei com uma visão extremamente pequena e ali senti que a moda foi ficando guardada em um lugar especial, os interesses mudaram, se ampliaram. Encontrei os estudos do corpo, que casou com pesquisas e vivências que já vinham acontecendo em minha vida desde a adolescência, e cá estou. Aqui estou ainda buscando me qualificar profissionalmente, em um processo que não tem fim.

T.S: Me chama a atenção a sua conscientização em relação a busca pela qualificação por meio dos estudos!

 T.A: Sem dúvida, tem sido uma longa busca e vai continuar sendo. Apesar de atuar na formação de pessoas no campo da educação, não abro mão de ser aprendiz. Nem por um decreto! risos

Estudei a vida inteira em escola pública. Veja bem, a minha formação começa poucos anos depois do fim de uma ditadura militar e isso tem muitas implicações. Sentia que aquilo que recebia na sala de aula nunca me bastava e só depois de envelhecer que entendi. Sempre tive interesse em línguas e apesar de não ser fluente em nenhuma outra além do português, busquei estudar das mais variadas formas e aprendi um pouco. O que é ótimo, pois com isso expandi o meu campo de leitura, muitas coisas que gosto de ler não estão traduzidas para o português. Busquei cursos livres de artes, participei de aulas de música até os meus 13 anos na igreja, tive uma criação cristã bastante rígida e a música aliviava tudo isso. Depois veio o curso técnico, que eu conciliava com um cursinho popular. Tentei entrar em uma universidade estadual no Paraná e não consegui, é incrível como o ensino superior público é excludente nesse país. Depois teve a graduação em moda. Tentei um outro técnico em design na ETEC, não era o meu lugar. Cheguei na História, finalizei a graduação e tem sido feliz. Atualmente participo de vários seminários e workshops sobre corpo, sexualidade, gênero e artes. Ah! Não poderia deixar de citar a dança, que cada vez ocupa um espaço na minha vida e tenho me dedicado em estuda-la. Pretendo em breve adentrar no Mestrado e depois seguir.

Não acredito que uma única instituição baste, não acredito que nenhuma escola nos torne gente, não acredito que titulação seja sinônimo de caráter. Mas acredito totalmente que é preciso passar por uma série de campos para conseguir chegar em algum lugar e isso dá trabalho e leva tempo. Fazer as coisas que gostamos e acreditamos deveria ser primordial.

T.S: O que é modificação corporal segundo as suas palavras?

 T.A: Entendo a modificação corporal como todo e qualquer processo ou técnica que altere o corpo. Nesse sentido, a alimentação, a medicina, o sexo, o esporte, o sedentarismo, a dieta, a tatuagem, o piercing, a cirurgia plástica são processos que transformam os nossos corpos. Dentre todas essas possibilidades, faço um recorte com as técnicas de se tatuar, perfurar, escarificar, que é onde tenho focado as minhas pesquisas. Atualmente estou buscando apoio coletivo para lançar o livro “A modificação corporal no Brasil – 1980-1990”. Doações podem ser feitas até o dia 16 de Janeiro.

T.S:  Beleza freak?

 T.A: Na realidade hoje percebo através de um processo de amadurecimento intelectual e filosófico que ao falar de beleza freak, estou propondo muito mais a emergência de uma possível teoria freak como processo libertador de construção de self. Sem dúvida que esta teoria – caso existisse – se aproximaria da Teoria Queer, mas acredito que tenha suas especificidades da ordem da práxis e de constituição teórica. A palavra freak (do inglês: aberração) por muito tempo foi utilizada para ofender e classificar de modo pejorativo toda e qualquer pessoa que fugisse de uma padrão normativo, principalmente no que concerne os corpos e subjetividades. Corpos com deficiência, sexualidades não heterossexuais, gêneros não cisgêneros, pessoas não brancas e pessoas com modificações corporais dentro do recorte que pesquiso, foram tratadas como aberrações (e ainda são, somos), perseguidas, mortas, violentadas e inclusive figuras dos tais circos de horrores. Passado o tempo, muitas pessoas se apropriaram da palavra freak como forma de empoderamento, assim como se fez com o queer. Esse é o momento em que vivemos, nós nos assumimos politicamente enquanto freaks. Recusamos fazer parte de um processo social normativo de vida e isto, no meu ponto de vista, é belo.

T.S: Em 2008 você  idealizou e organizou a primeira convenção de body modification e body art do Brasil?!

 T.A: Sim, eu em parceria com o meu amigo Luciano Iritsu. Sentíamos que em São Paulo não havia espaços para se falar e vivenciar técnicas de usos do corpo, além da tatuagem e piercing. As convenções de tatuagem, por exemplo, sempre foram muito fechadas para outras técnicas que não a tatuagem. O que no meu ponto de vista é ruim por ser excludente e criar subcategorias. Então, fizemos um evento que tinha espaço para as mais variadas formas de apropriação do corpo e a abertura para se falar sobre elas. Obviamente que tinha um viés de entretenimento, mas sem deixar de lado a nossa preocupação em ser algo educativo. Assim, a programação era dividida com shows, performances, palestras, exposições, suspensão corporal e ideias voando por todos os lados.

T.S: Gosto em especial, quando um artista, adapta um novo nome. Pelo fato de haver toda uma filosofia pessoal e também uma simbologia que lhe é importante e, no seu caso, a sua escolha foi T. Angel! Qual foi o processo pessoal para essa escolha?

 T.A: T. Angel surgiu de modo tímido e amadureceu, confesso que penso em algum dia mudar meu nome do registro atual para este (assim como meu gênero) que atualmente é pseudônimo. Sei que o processo é bem burocrático, mas cada vez mais penso nisso. O pseudônimo parte de uma mitologia familiar e pessoal, tenho uma memória de que eu caia do céu, a história é longa. risos

Quando comecei a fazer alguns trabalhos de artes e a modificar o meu corpo, passei a assinar assim e foi ficando. É um nome que também fala dessa minha sensação de não estar fixo em uma identidade de gênero. É um nome que simbolicamente fala muito por mim.

T.S: Vivemos numa época a qual, criou-se uma guerra e nela, uma das partes demonstra um ódio mortal para com aqueles que optaram não seguirem o “caminho heterossexual”! Qual sua opinião em relação a estes ataques sem lógica e pior, sem humanidade ou respeito?

 T.A: A guerra está aí atravessando séculos e há quem negue, principalmente os fundamentalistas religiosos. A minha sincera opinião é que precisamos desaprender, desobedecer e descontruir. Fomos criados em um sistema patriarcal cissexista e heteronormativo extremamente violento. Desumaniza sumariamente milhares de pessoas ao redor do mundo e isso precisa acabar. Precisamos de mudanças estruturais e antropológicas que vão demandar tempo, mas que precisam acontecer. É inaceitável o número de assassinatos de travestis e transexuais no Brasil. É inaceitável que um pai coloque um filho ou uma filha para fora de casa por conta de sua sexualidade ou identidade de gênero. É inaceitável que religiosos sigam disseminando o ódio com o artificio que estão exercendo a liberdade de expressão. É inaceitável que uma psicóloga proponha curar homossexuais, como se as sexualidades não heterossexuais fossem patologias. Tudo isso é criminoso e um retrocesso humano imensurável e vil.

Torço em viver o suficiente para ver a aprovação de leis que assegurem essa população. Toda ela, a pessoa LGBT da classe média e principalmente a pessoa LGBT pobre. É uma questão básica e fundamental dos direitos humanos.

T.S: Como é a experiência de expressar sua arte por meio da escrita?

 T.A: Gosto muito de escrever, vejo uma importância valiosa na escrita (e na palavra) e tenho medo de que a “profecia” de Saramago se cumpra. Atualmente tenho tido a chance de escrever bastante, o que é muito feliz. Enquanto eu tiver o que dizer, palavras vão estar pelas redes. Não presas, mas soltas.

 T.S: Qual a importância de sua arte, para você mesmo como ser humano que é?

 T.A: Fundamental, a arte é fundamental. Não para mim somente, não somente a que eu faço, não somente a que gosto, mas toda forma de expressão artística é fundamental. Ela nos faz sentir a vida.

A arte que faço salvou a minha vida, me melhora como ser humano, tem me transformado. Esse ano completo 10 anos de estrada na performance art, o que é tão pouco, mas ao mesmo tempo é uma caminhada. Só tenho mesmo que agradecer por tudo isso.

T.S: Para finalizar nos fale dos seus projetos atuais e futuros!

 T.A: Atualmente estou buscando apoio para publicação do meu livro, doações são bem vindas! Também, pretendo montar uma pequena exposição comemorativa de 10 anos de estrada na performance. Seguir trabalhando com o FRRRKguys, aprimorando o máximo que posso. E outras coisas que ainda estão no papel e que não posso falar ainda. O ano está apenas começando e a fome é grande. A propósito, feliz 2015!

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