Não é só o eyeball tattooing, percebe?

“Freedom is the right to live as we wish” – Epictetus

Uma vez me entrevistaram e disseram que eu era ativista pela prática da modificação corporal e eu achei bem estranho. Eu sabia que eu era ativista pelo direito dos animais, pelos LGBTQs e por outras causas sociais, mas… Não achava que o que eu fazia no campo dos estudos do corpo poderia se enquadrar na nomenclatura de ativismo, para mim eu era apenas uma pessoa que modificava o corpo, que pesquisava a temática ou simplesmente era entusiasta desses assuntos. A realidade é que nunca tinha parado para refletir sobre isso, eu apenas fazia e vivia. Hoje – depois de meditar muito – percebo que sim, isso que eu venho fazendo através do meu corpo e dos meus estudos sobre os corpos dos outros é um ativismo político e feroz.  É uma espécie de ativismo associado com todas as outras minhas ações de militância. A minha existência é política.

Atualmente eu venho lutando diariamente para que o projeto de lei 5790/2013 que pretende criminalizar o eyeball tattooing não seja aprovado. Em resumo, a aprovação – caso aconteça – implica em não apenas proibir a prática, mas como também torná-la crime, amparado na lei de lesão corporal que foi escrita em 1940. Vivemos em mundo completamente diferente do que foi há 74 anos. Passamos – ainda que não totalmente – por tempos de chumbo de uma ditadura civil e militar. A ciência avançou, a tecnologia evoluiu e a mentalidade humana mostra inúmeros sinais de que não conseguiu acompanhar o fluxo.

Nessa minha luta tenho tido como oponentes membros da própria comunidade da modificação do corpo. Algumas dessas pessoas com uma postura tão repressora, violenta e controladora quanto ao deputado autor do projeto de lei, o senhor Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC). O que esse processo tem me mostrado é que a opressão vinda das pessoas – que supostamente – deveriam ser meus pares é dolorida. O fogo amigo sempre dói mais.

Eu consigo entender perfeitamente ver um projeto de lei que busca controlar/limitar a autonomia do corpo, escrito por um político conservador e que é totalmente alheio ao tema ao qual se enveredou combater. No entanto, jamais vou conseguir compreender ver pessoas ligadas as modificações do corpo defendendo tanto o político quanto o texto proposto por ele. Também não vou compreender o silêncio de tantas e tantas pessoas. Esse texto é justamente sobre essa parte, daqueles que assistem tudo com uma tentativa de se manter alheio, como quase quem diz “isso não é assunto meu“.

É bem verdade que tenho buscado apoio de políticos e pessoas ligadas aos direitos humanos e movimentos sociais para ajudar no combate da aprovação da lei. Principalmente por saber que não posso contar com a comunidade da modificação do corpo. Escrevi para o Jean Wyllys e até o presente momento não tive resposta. Escrevi para uma página bastante popular sobre transexualidade e recebi a resposta de que o repudio ao projeto de lei não tinha nada a ver com o propósito dali. Escrevi para uma famosa transativista LGBT e ela me respondeu que achava a luta digna, mas que tinha problema pessoal com o olho e não poderia ajudar com isso. Escrevi para amigos e amigas e a grande maioria acha que é um assunto delicado demais para tomarem partido.

A questão é que não podemos julgar o eyeball tattooing partindo de um pensamento e realidade individual, pois ações afirmativas trabalham em prol do coletivo. Zelam por grupos, populações e pessoas que historicamente foram marginalizadas, silenciadas, estigmatizadas. Zelam por grupos de pessoas que resistiram ao extermínio. Zelam para que as pessoas tenham o direito de decidir e de falar. Justificar a sua indiferença e o seu posicionamento favorável ao projeto de lei é dar as costas para todas essas pessoas e todas essas práticas de apropriação do corpo que são culturais, sociais, artísticas, políticas e legítimas. Em igual medida é endossar diretamente todo o conservadorismo reacionário, que é produtor e reprodutor de violência e exclusão.

Você repudiar um projeto de lei que atenta gritantemente contra a liberdade de expressão, autonomia e poder de decisão, não quer dizer que você tenha que pigmentar os seus olhos. Não quer dizer que que você está incentivando e fazendo apologia para que todas as pessoas coloram suas escleras. Não quer dizer que você está defendendo que seja um procedimento seguro. Não quer dizer que você acha bonito. Quer dizer apenas que você tem empatia.

Se hoje o procedimento oferece risco, caso o projeto de lei seja aprovado, todos os riscos serão potencializados e vocês que se calaram e/ou que apoiaram a aprovação serão responsáveis por isso. Caso isso aconteça será interrompida toda e qualquer chance de que o procedimento seja estudado, aprimorado, pesquisado e que se torne seguro em algum momento, Todos nós seremos perdedores. Se você não acredita que o eyeball tattooing possa vir a se tornar seguro um dia, tudo bem, mas pense novamente no coletivo.

Não é só uma questão de colorir ou não os olhos. É uma questão de classe social também, pois os maiores prejudicados serão as pessoas pobres. Com lei ou sem lei vai continuar a atividade de pigmentação dos olhos, a diferença é que quem tem dinheiro vai para a Europa e faz de uma forma mais segura. Quem não tem vai entregar a saúde para a sorte. Especificamente nesse ponto, já deveríamos ter tirado alguma lição com a questão do aborto e também das pessoas transexuais. O aborto é ilegal no Brasil para quem é pobre. Quem morre é mulher pobre. Pensando nas pessoas transexuais temos uma situação análoga. Anos atrás transexual pobre injetava silicone industrial no corpo, muitas se deformavam e outras morriam. Ainda hoje mulheres e homens transexuais mutilam os seus corpos pois o Estado não atende a real necessidade dessa população. O Estado e a sociedade não ouve a voz dessas pessoas e elas padecem. Aqui eu te peço (torço para que não seja muito): não colabore com o aumento dessa lista hedionda; não seja um reprodutor ou uma reprodutora de violência; não justifique seu posicionamento através de achismos; leia o histórico do autor do projeto de lei; conheça o que as pessoas que pigmentaram os olhos têm a dizer.

Pra terminar quero dizer que não adianta a gente ficar discursando que queremos viver em mundo melhor, se continuamos piorando a condição de vida de pessoas com realidades diferentes das nossas.

Não é só o eyeball tattooing. Percebe?

barbara-kruger-your-body-is-a-battleground-19891( Barbara Kruger – Your Body Is a Battleground, 1989)

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