Eu acredito no boicote

Venho refletindo bastante sobre o poder político do boicote e realmente concluo que acredito nele. É uma força muito potente e quase silenciosa. Nos últimos anos eu venho boicotando diversas instituições (no sentido mais amplo possível) que eu não concordo com a política de existência. Sinto que o meu primeiro boicote significante foi o de romper com o cristianismo. Digo significante quando coloco em questão a construção da minha família com seus picos de fanatismo religioso. Na minha pré adolescência eu assumi que não iria mais em igreja e não fui. Muito embora o ateísmo tenha vindo muito tempo depois, foi um posicionamento de boicote com tudo aquilo que eu não concordava e que não fazia o menor sentido para mim. Tenho o ateísmo como forma de boicote.

Sinto que muito tempo depois usei do boicote em empresas que trabalhei e que insistiam em desumanizar as pessoas. Conhecer esse sistema cruel do mercado de trabalho me tirou alguns anos de vida. Boicotar foi uma arma. No campo da modificação corporal é assim que tem sido também, não participo, não apoio e não pretendo estar em conexão com instituições opressoras ou coniventes com a opressão. Eu prefiro estar do lado das pessoas que perdem e, para enfatizar e ser redundante, odiaria estar entre os vencedores dentro desse sistema.

Quanto mais a minha consciência política se amplia, mais eu tento participar menos de tudo aquilo que produz e reproduz violência. Nesse sentido, o veganismo para mim é isso, é um boicote diário. É um exercício de não conivência com a exploração animal (e também humana). Eu escolho não participar disso ou participar em menor grau possível.

Eu tenho como lema de vida boicotar o máximo possível todas as instituições machistas, sexistas, especistas, cissexistas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, xenofóbicas, assim como aquelas que são opressoras, totalitárias, reguladoras e politicamente equivocadas. Não pretendo participar do ciclo de retrocesso que elas produzem.

Não compro Revista Veja, não consumo nada que venha da Record, não dou audiência para comediante comédia… Não pago dízimo, não frequento aos encontros familiares, não me divirto com a exploração do outro. Não endosso a heteronormatividade, não apoio gente que corrompe, não acho graça alguma na miséria e participo de poucas rodas de amigos. Assim, vou boicotando aqui e ali e a vida melhora.

Não tenho a menor ilusão de que a minha ação de boicote  isolada cause grandes estragos, mas sei que não estou só. Ao mesmo tempo penso que essas micro ações exercem um poder essencial para o equilíbrio de todas as coisas. Se não de todas as coisas, o meu.

Gosto dessa coisa de deitar a cabeça no travesseiro com a minha consciência tranquila. Obviamente que é trabalhoso e muitas vezes chega doer, mas é um bem vital.

Eu desaprendo, desapego, desconstruo e desfaço. Eu boicoto, tu boicotas.

Ps. Adoraria descobrir estudos mais aprofundados sobre a potência do boicote. Vamos ver o que surge.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: